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14/09/2011

David Hume - Das ideias da memória e da imaginação

Constatamos pela experiência que, quando uma impressão esteve na mente, volta lá a aparecer sob a forma de ideia, podendo isto acontecer de duas maneiras diferentes: ou ela, no seu novo aparecimento, conserva um grau considerável de vivacidade primitiva, sendo algo intermédio entre impressão e ideia; ou perde totalmente essa vivacidade e é uma ideia perfeita. As faculdades mediante as quais repetimos as nossas impressões de cada uma destas maneiras, chamam-se respectivamente MEMÓRIA e IMAGINAÇÃO. É imediatamente evidente que as ideias da memória são muito mais vivazes e mais fortes do que as da imaginação, e que a primeira destas faculdades pinta os seus objectos com cores mais nítidas do que as empregadas pela segunda. Quando recordamos um acontecimento passado, a ideia dele penetra na mente com força; enquanto que na imaginação a percepção é ténue e apagada e não é sem dificuldade que a mente a pode conservar, por tempo considerável, firme e uniforme. Aqui temos uma diferença sensível entre uma e outra espécie de ideias.
David Hume, Tratado da Natureza Humana, tr. Serafim Fontes, Gulbenkian, p. 37. (Livro I, Secção III)

09/02/2011

John Locke - Origem das ideias

Suponhamos então que a mente seja, como se diz, um papel branco, vazio de todos os caracteres, sem quaisquer ideias. Como chega a recebê-las? De onde obtém esta prodigiosa abundância de ideias, que a ativa e ilimitada fantasia do homem nele pintou, com uma variedade quase infinita? De onde tira todos os materiais da razão e do conhecimento? A isto respondo com uma só palavra: da EXPERIÊNCIA. Aí está o fundamento de todo o nosso conhecimento; em última instância daí deriva todo ele. São as observações que fazemos sobre os objetos exteriores e sensíveis ou sobre as operações internas de nossa mente, de que nos apercebemos e sobre as quais nós próprios refletimos, que fornecem à nossa mente a matéria de todos os seus pensamentos. Estas são as duas fontes de conhecimento, de onde brotam todas as ideias que temos ou podemos naturalmente ter.
John Locke, Ensaio sobre o entendimento humano - vol. 1, p. 106. 

31/01/2011

Cepticismo - A. C. Grayling

O estudo e o emprego dos argumentos cépticos, em certo sentido, definem a epistemologia. Um objectivo central da epistemologia é determinar como podemos estar certos de que nossos meios para conhecer (aqui "conhecer" implica obrigatoriamente "crença justificada") são satisfatórios. Um modo preciso de mostrar o que é requerido é observar cuidadosamente os desafios cépticos aos nossos esforços epistémicos, desafios que sugerem que as maneiras pelas quais seguimos estão distorcidas. Se somos capazes de não apenas identificar mas, sim, enfrentar os desafios cépticos, um objectivo primário da epistemologia terá sido concretizado.

O cepticismo é frequentemente descrito como a tese de que nada é - ou, mais fortemente, pode ser - conhecido. Mas essa é uma má caracterização, porque se não conhecemos nada, então não podemos saber que não sabemos nada, e assim tal afirmação é trivialmente auto-refutante. É mais eficaz caracterizarmos o cepticismo do modo à frente sugerido. Ele é um desafio directo contra reivindicações de conhecimento, e a forma e a natureza do desafio variam segundo o campo da actividade epistémica em questão. Em geral, o cepticismo toma a forma de uma solicitação pela justificação das afirmações de conhecimento, em conjunto com um enunciado sobre as razões que motivam tal solicitação. Normalmente, as razões são de que certas considerações sugerem que a justificação proposta poderia ser insuficiente. Conceber o cepticismo de tal modo é vê-lo como mais problematizante e mais importante filosoficamente, do que se fosse descrito como uma tese positiva que afirma nossa ignorância ou incapacidade de conhecimento.

[Adaptado de uma tradução de Paulo Ghiraldelli Jr.]

01/04/2010

António Manuel Martins, "Incomensurabilidade e Holismo em T. S. Kuhn"

As teses de T. S. Kuhn e P. Feyerabend sobre a incomensurabilidade encontram-se no centro das atenções de grande parte da literatura crítica sobre os trabalhos daqueles autores no âmbito da filosofia e da historiografia da ciência. O conceito de incomensurabilidade foi introduzido, em 1962, por Kuhn e Feyerabend no âmbito da filosofia da ciência. Apesar desta coincidência temporal e terminológica convém notar que cada um deles partiu de contextos teóricos diferentes, facto que explica, em grande parte, as nuances entre a incomensurabilidade
kuhniana e a feyerabendiana. Contudo, há igualmente uma intuição comum que os leva a distanciarem-se das teses maioritárias nos círculos dominados pelo empirismo lógico bem como das posições de Popper e seus discípulos. A tese da incomensurabilidade foi, com certeza, das mais discutidas e analisadas. Apesar de tudo, Kuhn podia ainda dizer, vinte anos depois da sua introdução, que, em rigor, ainda ninguém tinha analisado exaustivamente as dificuldades que o tinham levado a ele e a Feyerabend a falar de incomensurabilidade. Em certo sentido, poderíamos dizer que esta afirmação de Kuhn ainda hoje mantém a sua validade. Muitos dos críticos interpretaram a tese da incomensurabilidade no sentido de que duas teorias (modelos, paradigmas) rivais não seriam comparáveis de uma forma racional e objectiva. Daqui à acusação de subjectivismo, relativismo e irracionalismo é um passo que, de facto, foi dado por alguns. Isto apesar de tanto Kuhn como Feyerabend terem, repetidas vezes, insistido na afirmação de que dizer acerca de duas teorias que são incomensuráveis não significa que seja impossível compará-las.
A incomensurabilidade significaria, porventura, que essa comparação não poderia ser feita através de uma redução ou de outros métodos habitualmente discutidos no contexto da filosofia da ciência.

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05/02/2010

João Maria André, "Da História das Ciências à Filosofia das Ciências"

Bacon [distingue], nestes termos, dois tipos de filósofos das ciências, significativamente representados por dois modelos metafóricos suficientemente expressivos: "Todos aqueles que se ocuparam das ciências foram ou empiristas ou dogmáticos. Os empiristas, à maneira das formigas, apenas amontoam e consomem; os dogmáticos, à maneira das aranhas, tecem teias a partir de si." A uns e a outros contrapõe o chanceler inglês a síntese superadora destes dois animais: "Mas o método da abelha situa-se a meio: recolhe a sua matéria das flores dos jardins e dos campos, mas transforma-a e digere-a através de uma faculdade que lhe é própria." E acrescenta: "E não é diferente o verdadeiro trabalho da filosofia."

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22/01/2010

David Hume – Da natureza das crenças

Assim todo o raciocínio provável não é senão uma espécie de sensação. Não é somente em poesia e música que devemos seguir o nosso gosto e sentimento, mas igualmente em filosofia. Quando estou convencido de um princípio qualquer é apenas uma ideia que me fere mais fortemente. Quando dou preferência a uma série de argumentos e relação a outra, não faço outra coisa senão decidir de acordo com o que sinto relativamente à superioridade da sua influência.
David Hume, Tratado da Natureza humana, tr. Serafim da Silva Fontes, Calouste Gulbenkian, p. 140.

06/10/2009

Descartes - Génio maligno

Está gravada no meu espírito uma velha crença, segundo a qual existe um Deus que pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas quem me garante que ele não procedeu de modo que não houvesse nem terra, nem céu, nem corpos extensos, nem figura, nem grandeza, nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como agora? (…) Porventura Deus não quis que eu me enganasse deste modo, ele que dizem que é sumamente bom (…).
Vou supor por consequência, não o Deus sumamente bom, fonte da verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto que pusesse toda a sua indústria em me enganar. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores não são mais do que ilusões de sonhos com que ele arma ciladas à minha credulidade.
Descartes, Meditações metafísicas, tr. Gustava de Fraga, Almedina, p.110-114.

26/05/2009

O problema do sentido da vida e os problemas da lógica

Se alguém pensa ter encontrado a solução do problema da vida e se sente disposto a dizer a si próprio que agora tudo é muito fácil, basta-lhe, para ver que está enganado, recordar-se de uma época em que tal «situação» ainda não havia sido descoberta; teria sido também possível viver nessa altura, e a solução agora encontrada pareceria fortuita relativamente a esse tempo. O mesmo se passa com o estudo da lógica. Se existisse uma «solução» para os problemas da lógica (filosófica), necessitaríamos apenas de ter em conta que houve um tempo em que eles não estavam ainda resolvidos ( e que também então as pessoas sabiam viver e pensar)
Wittgenstein, Cultura e valor, Ed. 70, pp. 16, 17.

02/05/2009

De Deus ao Génio Maligno

Está gravada no meu espírito uma velha crença, segundo a qual existe um Deus que pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas quem me garante que ele não procedeu de modo que não houvesse nem terra, nem céu, nem corpos extensos, nem figura, nem grandeza, nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como agora? (…) Porventura Deus não quis que eu me enganasse deste modo, ele que dizem que é sumamente bom (…).
Vou supor por consequência, não o Deus sumamente bom, fonte da verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto que pusesse toda a sua indústria em me enganar. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores não são mais do que ilusões de sonhos com que ele arma ciladas à minha credulidade.
Descartes, Meditações metafísicas, tr. Gustava de Fraga, Almedina, p.110-114.

08/04/2009

Causalidade em David Hume

A tese fundamental de Hume é que a relação entre causa e efeito nunca pode ser conhecida a priori, isto é, com o puro raciocínio, mas apenas por experiência. Ninguém, posto frente a um objecto que para ele seja novo pode descobrir as suas causas e os seus efeitos, antes de os ter experimentado e apenas ter raciocionado sobre eles. (…)
Ora isto significa que a conexão entre causa e efeito, mesmo depois de ter sido descoberta por experiência, permanece privada de qualquer necessidade objectiva. (…)
Que o curso da natureza possa mudar, que os laços causais que a experiência nos testemunhou no passado possam não se verificar no futuro, é hipótese que não implica contradição e que por isso permanece sempre possível. Nem a contínua confirmação que a experiência faz, na maior parte dos casos, das conexões causais muda o caso: porque esta experiência diz sempre respeito ao passado, nunca ao futuro. Tudo aquilo que sabemos pela experiência é que, de causas que nos parecem semelhantes, esperamos efeitos semelhantes. Mas precisamente esta suposição não é justificada pela experiência: ela é antes o pressuposto da experiência, um pressuposto injustificável.
N. Abbagnano, História da Filosofia, Volume VII, Editorial Presença

26/03/2009

David Hume – Ideias e impressões

Embora o nosso pensamento pareça possuir uma liberdade irrestrita, veremos (…) que se encontra realmente confinado a limites muito estreitos e que todo este poder criador da mente nada mais vem a ser do que a faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos são fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de oiro, juntamos unicamente duas ideias consistentes, oiro e montanha, com as quais já estávamos familiarizados. (…) Em suma, todos os materiais do pensamento são derivados da sensibilidade (sentiment) externa ou interna: a mistura e composição destes pertencem apenas à mente e à vontade. Ora, para me expressar em linguagem filosófica, todas as nossas ideias, ou percepções mais fracas, são cópias das nossas impressões ou [percepções] mais intensas.
Os dois argumentos seguintes serão, espero, suficientes para provar isto. Primeiro, ao analisarmos os nossos pensamentos ou ideias, por muito compostas e sublimes que sejam, sempre descobrimos que elas se resolvem em ideias tão simples como se fossem copiadas de uma sensação ou sentimento precedente. Mesmo as ideias que, à primeira vista, parecem afastadas desta origem, descobre-se, após um escrutínio mais minucioso, serem dela derivadas. A ideia de Deus. Enquanto significa um Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, promana da reflexão sobre as operações da nossa própria mente, e eleva sem limite essas qualidades da bondade e sabedoria. Podemos prosseguir esta inquirição até ao ponto que nos agradar, onde sempre descobriremos que toda a ideia que examinamos é copiada de uma impressão similar. (…)
Segundo, se acontecer que um homem, em virtude de um defeito dos órgãos, não é susceptível de qualquer espécie de sensação, vemos sempre que ele é igualmente pouco susceptível das ideias correspondentes. Um homem cego não pode formar nenhuma noção das cores, e um surdo, dos sons.
David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, tr. Artur Morão, Ed. 70, pp. 24, 25.

24/03/2009

Descartes - o modelo matemático


E agora, como dissemos um pouco mais atrás que (…) a Aritmética e a Geometria eram as únicas isentas de qualquer defeito de falsidade ou de incerteza, vamos examinar mais cuidadosamente a razão por que assim acontece, notando, ao mesmo tempo, que uma dupla via nos conduz ao conhecimento das coisas, a saber, a da experiência e a da dedução. Notemos, além disso, que as experiências que incidem sobre as coisas são muitas vezes enganadoras, enquanto dedução ou operação pela qual se infere uma coisa da outra (…) não pode ser mal feita pela inteligência, pelo menos pela racional. (…) Com efeito, todo o erro possível (…) nunca provém de uma má inferência, mas unicamente do facto de se partir de certas experiências pouco compreendidas ou de se emitir juízos levianos e sem fundamento. Tira-se evidentemente destas considerações o motivo pelo qual a Aritmética e a Geometria são muito mais certas do que as outras disciplinas: é que elas são as únicas a incidir sobre um objecto tão puro e tão simples que qualquer suposição que façam não pode ser posta em dúvida pela experiência, e são, além disso, inteiramente compostas por consequências a deduzir racionalmente. São, pois, as mais fáceis e as mais claras de todas, e têm um objecto, tal como nós o exigimos, pois que, salvo inadvertência, mal parece possível a um ser humano enganar-se nele. (…) E a conclusão de tudo o que precede não é, claro, que seja necessário aprender somente a Aritmética e a Geometria, mas exclusivamente que, na procura do recto caminho da Verdade, não nos devemos ocupar de nenhum objecto sobre o qual não possamos ter uma certeza tão grande como a das demonstrações da Aritmética e da Geometria.
Descartes, Regras para a Direcção do Espírito, Editorial Estampa
Imagem: www.mathematicianspictures.com

22/03/2009

David Hume - Causalidade

A tese fundamental de Hume é que a relação entre causa e efeito nunca pode ser conhecida a priori, isto é, com o puro raciocínio, mas apenas por experiência. Ninguém, posto frente a um objecto que para ele seja novo pode descobrir as suas causas e os seus efeitos, antes de os ter experimentado e apenas ter raciocinado sobre eles. (…)
Ora isto significa que a conexão entre causa e efeito, mesmo depois de ter sido descoberta por experiência, permanece privada de qualquer necessidade objectiva. (…)
Que o curso da natureza possa mudar, que os laços causais que a experiência nos testemunhou no passado possam não se verificar no futuro, é hipótese que não implica contradição e que por isso permanece sempre possível. Nem a contínua confirmação que a experiência faz, na maior parte dos casos, das conexões causais muda o caso: porque esta experiência diz sempre respeito ao passado, nunca ao futuro. Tudo aquilo que sabemos pela experiência é que, de causas que nos parecem semelhantes, esperamos efeitos semelhantes. Mas precisamente esta suposição não é justificada pela experiência: ela é antes o pressuposto da experiência, um pressuposto injustificável.
N. Abbagnano, História da Filosofia, Volume VII, Editorial Presença

18/03/2009

David Hume – Percepções

Todos admitirão prontamente que existe uma diferença considerável entre as percepções (perceptions) da mente, quando um homem sente a dor de um calor excessivo ou o prazer de um ardor moderado, e quando ele depois traz à memória a sua sensação (sensation) ou a antecipa mediante a sua imaginação (imagination). Estas faculdades podem mimar ou copiar as percepções dos sentidos, mas nunca podem inteiramente atingir a força e a vivacidade do sentimento (sentiment). (…) O mais vivo pensamento (thought) é ainda inferior à mais baça sensação (sensation). (…)
Podemos, pois, dividir aqui todas as percepções da mente em duas classes ou tipos, que se distinguem pelos seus graus de força e vivacidade. As menos intensas e vivas são comummente designadas Pensamentos (thoughts) ou Ideias (ideas). O outro tipo carece de um nome na nossa linguagem e em muitas outras; (…) chamemos-lhes Impressões (impressions), empregando esta palavra num sentido um tanto diverso do habitual. Pelo termo impressão significo todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos. E as impressões distinguem-se das ideias, que são as impressões menos intensas, das quais somos conscientes quando reflectimos sobre qualquer das sensações ou movimentos acima mencionados.
David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, tr. Artur Morão, Ed. 70, pp. 23, 24