O que um conjunto de frases quer dizer é uma questão de convenção. O que se segue de um conjunto de premissas não.
Thomas Nagel, A última palavra, tr. Desidério Murcho, Gradiva, p.53.
Correcto foi não deixar a nossa investigação ser uma investigação científica. A experiência de «que é possível, contra o nosso preconceito, pensar isto e aquilo» - seja o que for – não nos podia interessar. (a concepção pneumática do pensamento). E não devemos produzir nenhuma espécie de teoria. Na nossa investigação não deve haver nada de hipotético. Toda a explicação tem de acabar e ser substituída apenas pela descrição. E esta descrição recebe a sua luz, isto é, a sua finalidade, dos problemas filosóficos. É claro que estes não são problemas empíricos, a sua solução estará antes no conhecimento do modo como a nossa linguagem funciona, de maneira a que de facto este modo seja reconhecido – apesar de um instinto para o não compreender. Estes problemas serão resolvidos não pela adução de novas experiências, mas pela compilação do que é há muito conhecido. A filosofia é um combate contra embruxamento do intelecto pelos meios da linguagem.
A existência destes dois lados [público/privado] (como o facto de podermos pertencer a várias comunidades e, assim, termos várias obrigações morais em conflito, bem como conflitos entre obrigações morais e compromissos privados) dá origem a dilemas. Teremos esses dilemas sempre connosco e nunca hão-de ser resolvidos através do recurso a outro conjunto, um conjunto mais elevado de obrigações filosóficas que um tribunal filosófico poderá descobrir e aplicar. Tal como não há nada que valide o vocabulário final de uma pessoa ou de uma cultura, não há nada implícito nesse vocabulário que dite a forma de o tecer de novo uma vez que seja posto à prova. Tudo o que podemos fazer é trabalhar com o vocabulário final que temos, ficando de ouvidos abertos, atentos a indicações quanto ao modo de o alargar ou rever.
A maneira correcta de interpretar a frase «temos obrigações para com os seres humanos simplesmente enquanto tal» é como sendo um meio de nos recordar que continuemos a tentar alargar tanto quanto possamos o nosso sentido do «nós». (…) A maneira certa de interpretar a frase atrás referida é como se ela nos instasse a criar um sentido mais expansivo da solidariedade do que o que actualmente temos. (…) A maneira certa de ler tais frases faz-nos pensar na filosofia como estando ao serviço da política democrática – como sendo um contributo para a tentativa de alcançar aquilo a que Rawls chama «equilíbrio reflexivo» entre as nossas reacções instintivas a problemas contemporâneos e os princípios gerais em que fomos criados. Assim entendida, a filosofia é uma das técnicas de tecer novamente o nosso vocabulário da deliberação moral de modo a acomodar novas crenças (por exemplo, que as mulheres e os negros são capazes de mais do que os brancos do sexo masculino tinham pensado, que a propriedade não é sagrada, que as questões sexuais são do foro meramente privado). A maneira errada de ler tais frases é a que nos faz pensar que a democracia política está sujeita a um tribunal filosófico (…).
