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22/04/2013

Imre Lakatos - Como é que acontecem as revoluções científicas?

Assim, num programa de investigação progressivo, a teoria conduz à descoberta de factos novos (até então desconhecidos). Nos programas degenerativos, contudo, as teorias são fabricadas meramente para enquadrar factos conhecidos. (…)
Em resumo. O traço distintivo do progresso empírico não é constituído por verificações triviais. Popper tem razão ao afirmar que há milhões delas. O êxito da teoria newtoniana não consiste no facto de as pedras, quando largadas, caírem em direcção à terra, seja qual for o número de vezes que a operação se repita. Mas as ditas «refutações» não são o traço distintivo do fracasso empírico, como Popper preconizou, uma vez que todos os programas se desenvolvem num oceano permanente de anomalias. O que realmente conta são as predições dramáticas, inesperadas, fantásticas: basta uma pequena dose delas para inclinar a balança; quando a teoria não acompanha os factos, encontramo-nos face a programas de investigação degenerativos.
Ora, como é que acontecem as revoluções científicas? Se tivermos dois programas de investigação rivais, um deles progressivo e o outro degenerativo, os cientistas tendem a aderir ao programa progressivo. Esta é a base racional das revoluções científicas. Mas, enquanto não ocultar as evidências é uma questão de honestidade intelectual, não é desonesta a atitude de quem se mantém fiel a um programa degenerativo e tenta transformá-lo num programa progressivo.
A metodologia dos programas de investigação científica, em contraste com Popper, não oferece uma racionalidade imediata. É preciso tratar com brandura os programas em embrião: os pro¬gramas podem levar décadas até darem os primeiros passos e se tornarem empiricamente progressivos. A crítica não é um golpe de misericórdia popperiano, por refutação. A crítica importante é sempre construtiva: não há refutação sem uma teoria melhor. Kuhn está errado ao pensar que as revoluções científicas são mudanças de visão súbitas e irracionais. A história da ciência refuta tanto Popper como Kuhn: uma análise mais aprofundada revela como mitos tanto as experiências cruciais popperianas como as revoluções kuhnianas: o que geralmente acontece é que os programas de investigação progressivos substituem os degenerativos.

Imre Lakatos, «Ciência e Pseudociência», in História da ciência e suas reconstruções racionais, tr. Emília Mendes, Edições Setenta, 1998, pp. 18-19.

13/04/2013

Ideologias Políticas Contemporâneas - João Cardoso Rosas e Ana Rita Ferreira (Org.)


«Também na atualidade, quando são prosseguidas, como em Portugal e na Europa em geral, políticas de austeridade que afectam fortemente os interesses imediatos dos cidadãos, tem regressado a tese do fim das ideologias, agora na versão também antiga - na verdade, do século XIX -, mas muito recorrente, da tecnocracia. Ignorante da realidade histórica do constitucionalismo democrático e do pluralismo a ela associado, a tecnocracia hoje vigente, ou tecnocratismo, é uma ideologia especialmente perigosa porque se pretende totalizante, ou única, colocando-se fora das oposições ideológicas normais e do jogo democrático. Na verdade, esta tecnocracia é muitas vezes apenas um modo de contrabandear uma qualquer outra ideologia que não se quer assumir abertamente e usa o "escudo" tecnocrático como disfarce, ou seja, como falsa consciência.
Se, como dissemos no início, não existe ação política não mediada pela ideologia, é desejável que esta se apresenta na sua forma mais despojada, como alternativa entre outras alternativas, como ideologia entre outras ideologias, e não como  "alternativa única" ou "ideologia da inexistência ou inanidade das ideologias". Se assim não acontecer, o regime constitucional e democrático perderá a sua característica mais assinalável, i.e., um pluralismo marcado desde a sua génese por mudanças e permanências e, assim também, a possibilidade de se regenerar e garantir a sua continuidade no futuro.»
João Cardoso Rosas, «Mudanças e permanências na linguagem  ideológica contemporânea», in Ideologias Políticas contemporâneas, Almedina, 2013.

06/04/2013

«Manual de Filosofia Política» de João Cardoso Rosas (org.)



Saiu recentemente a 2ª edição (revista e aumentada) do Manual de Filosofia Política organizada por João Cardoso Rosas. Nesta nova edição ao excelente capítulo sobre o Comunitarismo da autoria de Carlos Amaral acrescenta-se uma adenda sobre Michael Walzer de minha autoria, da qual vos deixo algumas linhas. Para quem ainda não conhece o conteúdo deste livro aqui fica o seu índice:
 
Índice

Introdução (João Cardoso Rosas)

Primeira Parte: Paradigmas

Capítulo I - Utilitarismo (Pedro Galvão)
Capítulo II - Liberalismo Igualitário (João Cardoso Rosas)
Capítulo III - Libertarismo (Rui Fonseca)
Capitulo IV - Comunitarismo (Carlos Amaral, com Adenda por Rui Areal)
Capítulo V - Republicanismo (Roberto Merrill e Vincent Bourdeau)
Capítulo VI - Democracia Deliberativa (Acílio Rocha)

Segunda Parte: Problemas

Capítulo VII - Pobreza absoluta (Diana Maia)
Capítulo VIII - As migrações internacionais (Juan Carlos Velasco)
Capítulo IX - Multiculturalidade e multiculturalismo (Conceição Moreira)
Capítulo X - Guerra e terrorismo (Fátima Costa)
Capítulo XI - A Crise da democracia (Marta Nunes da Costa)
Capítulo XII - Política de ambiente (Viriato Soromenho-Marques)



Boas leituras.

"De entre os filósofos geralmente apontados como os mais significativos do comunitarismo, Michael Walzer salienta-se por ter apresentado no seu livro Esferas da Justiça uma teoria da justiça coerente e estruturada. Esta obra introduziu o conceito de «igualdade complexa» no léxico da filosofia política contemporânea. A sua argumentação assenta na ideia de que a justiça é relativa aos significados sociais dos bens que são objeto de distribuição numa comunidade política. Do pluralismo sócio-cultural inerente às sociedades humanas segue-se que os bens possuem diferentes significados sociais, e esta pluralidade de significados implica, por sua vez, que a justiça distributiva deve apresentar diferentes critérios de distribuição para cada um desses bens. Deste pluralismo nasce a necessidade de preservar a autonomia de cada esfera distributiva. Respeitar essa autonomia distributiva é promover a igualdade, e isso não se consegue distribuindo todos os bens de acordo com um único princípio, mas sim distribuindo cada bem de acordo com o critério extraído do seu significado social. O monopólio (ou uma posição privilegiada na distribuição) de um bem deixará de ser injusto se impedirmos o predomínio desse bem sobre os outros. Se esse predomínio existir, não existe justiça. Existe tirania. O monopólio da distribuição de um bem torna-se o monópolio de distribuição de todos, ou quase todos os bens. Da mesma forma, um único critério distributivo aplicado à distribuição de todos os bens não produzirá uma sociedade igualitária e justa. «A igualdade é uma relação complexa entre pessoas, mediada pelos bens que fazemos, compartilhamos e dividimos entre nós; não é uma identidade de posses. Requer, portanto, uma diversidade de critérios distributivos que espelhe a diversidade dos bens sociais(WALZER) A defesa da justiça e da igualdade implica o princípio da igualdade complexa. Uma sociedade governada de acordo com este princípio é o oposto de uma tirania, pois a igualdade complexa impede que uma desigualdade na distribuição de um bem (por exemplo, a riqueza) se multiplique na distribuição de outros bens essenciais (assistência médica, poder político, etc)."
Rui Areal, «Adenda sobre Michael Walzer» in Manual de Filosofia Política
João Cardoso Rosas (org.), Almedina, 2013, pp. 107-116.