27/04/2010

Acha este vídeo chocante?

A pergunta é feita na página da TSF. Os leitores divergem.

O que pensa deste vídeo?

26/04/2010

Imre Lakatos - Como é que acontecem as revoluções científicas?

Assim, num programa de investigação progressivo, a teoria conduz à descoberta de factos novos (até então desconhecidos). Nos programas degenerativos, contudo, as teorias são fabricadas meramente para enquadrar factos conhecidos. (…)
Em resumo. O traço distintivo do progresso empírico não é constituído por verificações triviais. Popper tem razão ao afirmar que há milhões delas. O êxito da teoria newtoniana não consiste no facto de as pedras, quando largadas, caírem em direcção à terra, seja qual for o número de vezes que a operação se repita. Mas as ditas «refutações» não são o traço distintivo do fracasso empírico, como Popper preconizou, uma vez que todos os programas se desenvolvem num oceano permanente de anomalias. O que realmente conta são as predições dramáticas, inesperadas, fantásticas: basta uma pequena dose delas para inclinar a balança; quando a teoria não acompanha os factos, encontramo-nos face a programas de investigação degenerativos.
Ora, como é que acontecem as revoluções científicas? Se tivermos dois programas de investigação rivais, um deles progressivo e o outro degenerativo, os cientistas tendem a aderir ao programa progressivo. Esta é a base racional das revoluções científicas. Mas, enquanto não ocultar as evidências é uma questão de honestidade intelectual, não é desonesta a atitude de quem se mantém fiel a um programa degenerativo e tenta transformá-lo num programa progressivo.
A metodologia dos programas de investigação científica, em contraste com Popper, não oferece uma racionalidade imediata. É preciso tratar com brandura os programas em embrião: os pro¬gramas podem levar décadas até darem os primeiros passos e se tornarem empiricamente progressivos. A crítica não é um golpe de misericórdia popperiano, por refutação. A crítica importante é sempre construtiva: não há refutação sem uma teoria melhor. Kuhn está errado ao pensar que as revoluções científicas são mudanças de visão súbitas e irracionais. A história da ciência refuta tanto Popper como Kuhn: uma análise mais aprofundada revela como mitos tanto as experiências cruciais popperianas como as revoluções kuhnianas: o que geralmente acontece é que os programas de investigação progressivos substituem os degenerativos.

Imre Lakatos, «Ciência e Pseudociência», in História da ciência e suas reconstruções racionais, tr. Emília Mendes, Edições Setenta, 1998, pp. 18-19.

22/04/2010

Thomas Kuhn – Relativista? Eu? #2

Ouve-se frequentemente dizer que uma teoria que se sucede a outra fica cada vez mais próxima, ou se aproxima cada vez mais, da verdade. Aparentemente, generalizações desse género não se referem à resolução de enigmas e às predições concretas derivadas de uma teoria, mas antes à sua ontologia; quer dizer, à correspondência entre as entidades com as quais a teoria povoa a natureza e o que está «realmente lá».
Talvez haja um outro modo de salvar a noção de «verdade» aplicada a teorias no seu todo, mas creio que não poderá funcionar. Penso que é impossível reconstruir o significado de frases como «realmente lá» independentemente de uma teoria; a ideia de uma correspondência entre o conteúdo ontológico de uma teoria e a sua contrapartida «real» na natureza parece-me hoje, por uma questão de princípio, enganadora. Além disso, enquanto historiador, dou-me conta da implausibilidade desta perspectiva. Não duvido, por exemplo, de que enquanto instrumento de resolução de enigmas, a mecânica de Newton é uma melhoria relativamente à de Aristóteles e que a de Einstein é uma melhoria relativamente à de Newton. Mas não vejo na sua sucessão um caminho coerente de desenvolvimento ontológico. Pelo contrário, em certos aspectos importantes, embora de forma alguma em todos, a teoria da relatividade de Einstein está mais próxima da de Aristóteles do que qualquer uma delas da de Newton. Embora a tentação de representar esta posição como relativista seja compreensível, a descrição parece-me errada. Em contrapartida, se esta posição é relativista, nada vejo que falte ao relativismo para explicar a natureza e desenvolvimento da ciência.
Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, tr. Carlos Marques, Guerra e Paz Editores, p. 275.

20/04/2010

Thomas Kuhn – Relativista? Eu? #1

Imagine-se uma árvore que represente o desenvolvimento das especialidades científicas modernas desde as suas origens comuns, ou seja, da filosofia natural primitiva e dos ofícios. Uma linha subindo por essa árvore acima, nunca se voltando para trás, do tronco para a ponta de um dos ramos, representaria uma sucessão de teorias de ascendência comum. Considerando-se qualquer destas teorias, tiradas de um ponto da árvore não demasiado próximo da sua origem, deveria ser fácil constituir uma lista de critérios que permitiriam a um observador imparcial distinguir, fosse em que momento fosse, as teorias mais antigas das mais recentes. Entre os mais úteis estariam os seguintes: rigor nas predições, em especial das predições quantitativas; o equilíbrio entre assuntos esotéricos e do dia-a-dia; e o número de diferentes problemas resolvidos. Menos úteis a este propósito, embora elementos também determinantes na vida científica, serão os valores como a simplicidade, o alcance das teorias e a compatibilidade com diferentes especialidades. Estas listas estão longe de ser as que precisamos, mas não duvido de que podem vir a ser completadas. Se assim for, o desenvolvimento científico é, como o desenvolvimento biológico, um processo unidireccional e irreversível. Teorias científicas posteriores são melhores que as anteriores na resolução de enigmas dentro do contexto normalmente bastante diferente em que se aplicam. Esta não é uma posição relativista e torna evidente em que sentido eu sou um crente convicto no progresso científico.
Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, tr. Carlos Marques, Guerra e Paz Editores, p. 274.

17/04/2010

Jornal de Ciências Cognitivas

Disponível em  http://www.jcienciascognitivas.home.sapo.pt
ISSN 1646-365X

Nesta edição:
 
1 Moral Computacional, entrevista a Luís Moniz Pereira pela Jornalista Sandra Pereira
Sempre defendeu que, mais do que substituir os seres humanos, os computadores vão evoluir ao lado deles. Ainda pensa o mesmo?

2 Agenda para a Filosofia da Psiquiatria, Manuel Curado
Olhemos para um mundo possível que ainda não é o nosso. Este é um anúncio de uma empresa de saúde que será publicado nos jornais do futuro: «Somos uma...

3 Nota de Leitura do Ensaio "O Futuro de Deus" de Manuel Curado, Filipe Abraão Couto
O que o ensaio de Curado pretende defender, de acordo com o que está escrito no segundo parágrafo do mesmo, é que “só existe uma forma de religião em todos os povos...

Do editorial de Outubro de 2005: "Este Jornal aceita trabalhos realizados segundo critérios científicos. Todos os investigadores podem enviar os seus textos à consideração da redacção para eventual publicação"

16/04/2010

Imre Lakatos - Kuhn e o critério de demarcação

Qual é, então, o traço distintivo da ciência? Teremos de capitular e concordar que uma revolução científica é uma mudança irracional de adesão, que é uma conversão religiosa? Thomas Kuhn, um distinto filósofo da ciência americano, chegou a esta conclusão depois de descobrir a ingenuidade do falsificacionismo de Popper. Mas se Kuhn tem razão, então não há demarcação explícita entre ciência e pseudociência, não há distinção entre progresso científico e decadência intelectual, não há um padrão objectivo de honestidade. Mas que critérios pode ele então apresentar para demarcar o progresso científico da degenerescência intelectual?
Imre Lakatos, «Ciência e Pseudociência», in História da Ciência e suas Reconstruções racionais, tr. Emília Mendes, Edições Setenta, 1998, p.16.

O Princípio da Responsabilidade de Hans Jonas


15/04/2010

Francisco Vieira Jordão, "A Religião sob o ponto de vista filosófico"

A Religião , enquanto forma de comportamento cujas regras se afastam das que regulam a vida diária, assenta numa dicotomia introduzida no mundo das referências humanas, que se traduz num duplo nível de realidade - o sagrado e o profano . Diferentemente de qualquer outro género da actividade humana, a Religião tem a sua génese na convicção de que existe uma realidade ( poder ou mistério ) que está acima da realidade do nosso contacto diário, com a qual o homem pretende comunicar e da qual deseja participar.
O primeiro problema que se coloca perante o fenómeno religioso, é o de saber se se trata de algo adventício , isto é, surgido na História ou na vida dum indivíduo por razões estranhas ao mesmo fenómeno enquanto tal, ou se se trata de um fenómeno autónomo e inerente ao facto de ser homem.

Continuar a ler...

13/04/2010

What's The Right Thing To Do?

Para nós, portugueses, parecerá uma novidade. Não deveria ser assim: o youtube, como outras plataformas digitais ou redes sociais,  também pode ser uma fonte de conhecimento, de aprendizagem. Harvard "oferece" um curso com MIachael Sandel sobre justiça - ou será sobre ética? - , "What's the right thing to do?"

Afinal, o que devemos fazer? Será a tortura justificável?  Roubaria um medicamento para salvar a vida do seu filho? Dizer a verdade pode ser moralmente errado?




E o leitor, o que pensa?

12/04/2010

Primeira lição de voo. Pobre não tem metafísica by Gustavo Sumpta

Certos homens da arte [artistas, como lhes chamam] conseguem pontes [conexões, relações, ...] entre aquilo que os homens da filosofia [filósofos, portanto...] apenas conseguem apontar. [Ou será o contrário?]
Deixamos aqui um momento para reflectir sobre voos...e metafísica, claro está!

10/04/2010

Curso de Introdução ao Pensamento Crítico Contemporâneo


Curso de Introdução ao Pensamento Crítico Contemporâneo
“Estética e Política”

Organização: UNIPOP (www.u-ni-pop.blogspot.com)/ Fábrica Braço de Prata
Inscrições, no valor de 25 €, através de pccestetica@gmail.com
Preço por sessão: 5 € (mediante disponibilidade de lugares)
De 10 de Abril a 05 de Junho de 2010
Aos sábados, das 18h00 às 20h00
Na Fábrica Braço de Prata
Rua da Fábrica do Material de Guerra, n.º 1
1950 LISBOA

08/04/2010

Introdução à Ecologia profunda - Entrevista com Michael Zimmerman (Em Inglês)

Introdução à ecologia profunda - A ecologia profunda é uma nova forma de pensar a nossa relação com a ñatureza - e o pensar é o prelúdio do agir.
«A philosophy is, among other things, a system of thought that governs conduct. But in the original Greek it meant "love of wisdom" - and we need all the wisdom we can get to face the implications of global climate change. Several new philosophies have developed in response to the worsening environmental crisis, and among the most interesting is something called "deep ecology." It calls for nothing less than a complete overhaul of the way humans live on the Earth.»
Continuar a ler aqui.

06/04/2010

Luc Ferry - Filosofia e o sentido da vida

Evidentemente, mesmo se a busca da salvação sem Deus está no centro de toda a grande filosofia e aí reside o seu objectivo essencial e último. Este não poderia concretizar-se sem passar por uma reflexão aprofundada sobre a inteligência daquilo que é – que normalmente denominamos a «teoria» – bem como sobre aquilo que deveria ser ou que seria preciso fazer – que designamos habitualmente por moral ou ética.
A razão é, aliás, muito simples de compreender.
Se a filosofia, como as religiões, encontra a sua fonte mais profunda na reflexão sobre a «finitude» humana, sobre o facto de para nós, mortais, o tempo estar, com efeito, contado e sermos os únicos a ter plena consciência disso, então a questão de saber o que iremos fazer durante estada limitada não pode ser iludida.
Luc Ferry, Aprender a viver, tr. Sandra Silva, Temas e Debates, pp., 23, 24.

03/04/2010

Divulgação - Oficina de Filosofia Analítica

A Oficina de Filosofia Analítica é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Filosofia Analítica e da Sociedade Portuguesa de Filosofia, com periodicidade anual. A oficina dirige-se sobretudo, mas não exclusivamente, a investigadores em filosofia analítica que estejam actualmente a preparar doutoramento ou que o tenham obtido nos últimos três anos e a investigadores bolseiros de pós-doutoramento. As contribuições podem incidir sobre qualquer tema filosófico, trabalhado na tradição analítica. Cada sessão tem início com uma apresentação de 30 minutos a cargo do autor. Seguem-se um comentário de 15 minutos e um período de discussão de 45 minutos. Há duas formas de participar na oficina: como autor de um trabalho ou como comentador. Os textos apresentados podem estar em inglês ou em português.

A Oficina é uma reunião de trabalho. Tem como objectivo facilitar o conhecimento do trabalho em curso dos participantes, permitir a discussão e crítica desse trabalho, o intercâmbio de ideias e consequentemente a ajuda mútua no trabalho de investigação dos participantes, bem como alargar as áreas de interesse de todos. Desta forma, vem preencher uma visível lacuna na comunidade filosófica portuguesa. A ênfase coloca-se principalmente na discussão e crítica pública do trabalho como um elemento essencial na formação profissional dos jovens investigadores. A criação de laços de amizade e de um sentido de uma comunidade filosófica nacional não é menos importante.

As pessoas interessadas em participar, quer na qualidade de autores, quer de comentadores, devem entrar em contacto com os contactos disponibilizados no final desta mensagem e informarem da sua disponibilidade até ao final de Abril de 2010. Dá-se preferência aos autores que nunca tenham apresentado na OFA ainda, ou que estejam em fase de preparação de tese de mestrado ou doutoramento. Os artigos devem ser enviados com um mês de antecedência para permitir aos comentadores o tempo necessário para preparar um comentário. O papel de comentador é igualmente importante, pelo que os voluntários são bem vindos.

A Oficina está aberta a todos os interessados.

Contactos:
Teresa Marques
teresamarques@fl.ul.pt

Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Faculdade de Letras
Alameda da Universidade
1600-214 Lisboa
http://lancog.org/teresa.html
http://disputatio.com/index.php

02/04/2010

Voltaire - Abuso da intolerância

O quê! Será que se pode permitir a cada cidadão que não creia senão na sua razão e que pense apenas o que essa razão, esclarecida ou enganada, lhe dite? É isso mesmo que é necessário, desde que em nada perturbe a ordem: porque não depende do homem crer ou não crer, mas depende dele respeitar os usos da sua pátria; e se dissésseis que é crime não crer na religião dominante, estaríeis então a acusar os vossos pais, os primeiros cristãos, e estaríeis a justificar aqueles que acusais de os terem lançado aos suplícios.

Voltaire, Tratado sobre a tolerância, tr. José M. Justo, Prisa Innova (colecção grandes filósofos), p. 285.

01/04/2010

António Manuel Martins, "Incomensurabilidade e Holismo em T. S. Kuhn"

As teses de T. S. Kuhn e P. Feyerabend sobre a incomensurabilidade encontram-se no centro das atenções de grande parte da literatura crítica sobre os trabalhos daqueles autores no âmbito da filosofia e da historiografia da ciência. O conceito de incomensurabilidade foi introduzido, em 1962, por Kuhn e Feyerabend no âmbito da filosofia da ciência. Apesar desta coincidência temporal e terminológica convém notar que cada um deles partiu de contextos teóricos diferentes, facto que explica, em grande parte, as nuances entre a incomensurabilidade
kuhniana e a feyerabendiana. Contudo, há igualmente uma intuição comum que os leva a distanciarem-se das teses maioritárias nos círculos dominados pelo empirismo lógico bem como das posições de Popper e seus discípulos. A tese da incomensurabilidade foi, com certeza, das mais discutidas e analisadas. Apesar de tudo, Kuhn podia ainda dizer, vinte anos depois da sua introdução, que, em rigor, ainda ninguém tinha analisado exaustivamente as dificuldades que o tinham levado a ele e a Feyerabend a falar de incomensurabilidade. Em certo sentido, poderíamos dizer que esta afirmação de Kuhn ainda hoje mantém a sua validade. Muitos dos críticos interpretaram a tese da incomensurabilidade no sentido de que duas teorias (modelos, paradigmas) rivais não seriam comparáveis de uma forma racional e objectiva. Daqui à acusação de subjectivismo, relativismo e irracionalismo é um passo que, de facto, foi dado por alguns. Isto apesar de tanto Kuhn como Feyerabend terem, repetidas vezes, insistido na afirmação de que dizer acerca de duas teorias que são incomensuráveis não significa que seja impossível compará-las.
A incomensurabilidade significaria, porventura, que essa comparação não poderia ser feita através de uma redução ou de outros métodos habitualmente discutidos no contexto da filosofia da ciência.

Continuar a ler...