03/06/2010

Para que serve a Lógica?

O homem, independentemente da civilização histórica a que pertence, tenta conhecer a verdade. Tanto os homens primitivos como os nossos contemporâneos aspiram a chegar, conhecendo o mundo circundante, ao saber verdadeiro. Este traz alegria e satisfação a uns e penas a outros: a verdade impulsiona os fortes a realizar proezas, mas paraliza a vontade dos fracos, conduze-os ao pessimismo e à confusão. Não obstante, todas as pessoas querem conhecer o mundo em que vivem. 


Não é fácil alcançar o saber autêntico, mesmo não sendo cabal nem definitivo. As vezes exige sacrifícios. Giordano Bruno, filósofo italiano que, seguindo a cosmologia heliocêntrica de Copérnico, propôs a concepção do infinito dos mundos do Universo, foi acusado pela lnquisição de heresia e morreu na fogueira. Vários físicos investigadores da radioactividade foram vítimas da irradiação radioactiva. Alguns microbiólogos realizaram no seu organismo experiências perigosas para a sua vida. 

Os homens querem não só conhecer as leis da natureza e a essência dos fenómenos sociais, mas também os segredos do cérebro humano. No século XVII, Francis Bacon, filósofo inglês, falou da coincidência do saber e do poderio do homem. Mas é espinhoso o caminho que conduz à verdade. O grande filósofo do século XIX Karl Marx assinalou: "Na ciência não há via magna e só o que não temer o cansaço e escalar as suas sendas pedregosas poderá alcançar os seus cumes resplandecentes'". 

A fim de ampliar as possibilidades cognoscitivas, o homem criou o microscópio e o telescópio, a rádio e a televisão, o computador, a nave espacial, o veículo lunar e os satélites artificiais de planetas que lhe permitiram conhecer mais a fundo e cabalmente as propriedades dos fenómenos naturais e sociais. 

Foram descobertos diversos métodos de conhecimento: simulação e métodos matemáticos, experiências físicas e biológicas, engenharia genética, processamento de informação nos computadores, etc. 

O aproveitamento eficiente de todos estes métodos e inventos exige que o pensamento humano seja logicamente correcto. A natureza, a sociedade e, claro está, o pensamento têm as suas leis de desenvolvimento. E própria do homem a aspiração a conhecer as leis do pensamento correcto, ou seja, as leis lógicas. A ciência denominada lógica ajuda a conhecê-las. 

Poderá o homem pensar correctamente sem conhecer as regras e as leis exactas da lógica, utilizando-as apenas intuitivamente? Claro que há músicos que tocam um ou outro instrumento sem saberem a arte musical (em particular, as notas). Mas a sua criação é limitada: não podem executar uma obra pautada nem anotar uma melodia por eles composta. Quem aprende lógica pensa de um modo mais preciso, sendo os seus argumentos mais exactos e ponderados. Comete menos erros e equivoca-se menos. 

O pensamento lógico não é inato, pode e deve ser desenvolvido de diferentes modos. O estudo sistemático da lógica é uma das vias mais eficientes de desenvolvimento do pensamento abstracto lógico. 

A solução de problemas lógicos é um modo interessante de desenvolver o pensamento. Raymond Smuliyan, matemático norte-americano, compôs numerosos problemas lógicos interessantes. Eis um exemplo: um indivíduo foi julgado por participação num roubo. Na audiência intervieram o juiz de acusação e o de defesa. O primeiro disse: "Se o réu é culpado, então teve um cúmplice". O segundo objectou: "Não é verdade!", e não podia ter dito coisa pior. Deste modo, não só reconheceu a culpabilidade do cliente, mas tornou-o totalmente responsável pelo delito, agravando a futura pena. O defensor equivocou-se porque não soube formular correctamente a sua ideia. 

O pensamento e a linguagem condicionam-se reciprocamente. Não foi por acaso que a lógica como ciência surgiu em ligação com a retórica, doutrina da eloquência. A lógica nasceu na Grécia e na India antigas, onde eram muitos populares e concorridos os torneios públicos de oradores. V. Vassiliev, famoso orientalista russo, escreveu a propósito: se aparecia um homem e começava a predicar ideias absolutamente desconhecidas, não o evitavam nem perseguiam sem juízo. Pelo contrário, reconheciam-no de boa vontade se o predicador das mesmas respondesse a todas as objecções e refutasse as teorias antigas. Instalava-se uma arena, elegiam-se os árbitros e assistiam à disputa césares, altos dignatários e o povo em geral. Se discutiam duas pessoas, o vencido devia, às vezes, privar-se da vida: atirar-se ao rio ou saltar de uma rocha, ou passar a ser escravo do vencedor, ou passar para a sua religião. Se se tratava de uma pessoa que gozava de respeito, por exemplo, um mestre do soberano, e possuia uma grande fortuna, os seus bens eram frequentemente entregues ao pobre vestido de trapos que o vencia na disputa. Na maioria dos casos, nas disputas não participavam indivíduos, mas conventos inteiros. 

Nos nossos dias, as disputas ou discussões tomam outro cariz e são muito mais agudas quanto à sua essência e conteúdo. Recordemos o forum internacional "Por um mundo desnuclearizado. Pela sobrevivência da Humanidade", reunido em 1987 em Moscovo, onde não se abordaram apenas questões particulares, mas um problema que inquieta todo o habitante do planeta e toda a humanidade: a sobrevivência da Humanidade e a conservação da civilização. 

A verdade e a lógica são interdependentes. A lógica ajuda a demonstrar os juízos verdadeiros e a refutar os falsos, ensina a pensar clara, concisa e correctamente. A lógica é imprescindível a todos, aos trabalhadores das mais diversas profissões. Aos professores, pois, sem dominar a lógica não poderão desenvolver de modo eficaz a mentalidade dos seus alunos. Aos juristas que constroem a acusação ou a defesa em conformidade com a lógica. Aos médicos que diagnosticam uma doença partindo das suas manifestações. A lógica faz falta a todas as pessoas em geral, seja intelectual ou manual o trabalho a que se dedicam. 

Ajuda os estudantes a dominar a informação multiforme no estudo de diversas ciências e na sua actividade prática. Na sua autodidaxia posterior, ajudá-Ios-á a separar o fundamental do secundário, a perceber de modo crítico as definições e a classificação dos mais diversos conceitos, que aparecem em diferentes textos, a seleccionar forrrias de demonstração dos seus raciocínios verdadeiros e de refutação dos falsos. Estas são algumas das múltiplas vantagens que oferece ao homem o estudo da interessantíssima e antiquíssima ciência das leis e formas de raciocínio correcto, a lógica. 

Alexandra Guétmanova, Lógica, Edições Progresso
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