30/06/2009

Memes e Temes - Susan Blackmore

Conferência TED de Susan Blackmore em que a autora parte de Darwin (evolução), passa por Dawkins (Memes) e termina com Temes. Veja aqui.

29/06/2009

Carl Sagan sobre a evolução

Como será que a face de um guerreiro samurai foi parar à carapaça de um caranguejo?

Terá sido uma intervenção divina?



A resposta está no capítulo II de um dos mais fantásticos livros de todos os tempos: Cosmos, de Carl Sagan.


Deixem-me contar-vos uma história sobre uma pequena frase musical da vida na Terra. No ano de 1185, o imperador do Japão era um menino de 7 anos chamado Antoku. Ele era também o chefe nominal de um clã de samurais, os Heike, que travavam uma longa e sangrenta batalha com outro clã, os Genji, por, ambos se acharem com direitos ancestrais ao trono imperial. O encontro naval decisivo entre os dois clãs, com o imperador a bordo, deu-se em Danno-ura, no mar do Japão, a 24 de Abril de 1185. Os Heike eram numérica e tacticamente inferiores: muitos pereceram na batalha e os sobreviventes atiraram-se em massa ao mar, afogando-se. A senhora Ni, avó do imperador, decidiu que nem ela nem Antoku seriam capturados pelo inimigo. O que se seguiu vem contado na História dos Heike:
"0 imperador tinha 7 anos, mas parecia muito mais velho. Era tão belo que parecia irradiar um halo de luz e o seu longo cabelo negro caia solto pelas costas abaixo. Com a surpresa e a ansiedade estampadas no rosto, perguntou à senhora Nii: 'Para onde me levas` Ela voltou-se para o jovem soberano, com as lagrimas correndo em fio, e (...1 confortou-o, atando-lhe os longos cabelos com as suas vestes cor de pomba. Com os olhos cegos pelas lágrimas, o pequeno imperador iuntou as delicadas mãozinhas. Voltou-se primeiro para oriente, despedindo-se do deus Ise, e depois para ocidente, recitando o Nembutsu [uma oração ao Amida Buddhaj. A senhora Nii tomou-o nos braços e, dizendo 'Nas profundezas do oceano está o nosso capitólio', afundou-se finalmente com ele entre as ondas."

Toda a armada Heike foi destruída só sobrevivendo quarenta e três mulheres. Estas damas da corte imperial viram-se forçadas a vender flores e outros favores aos pescadores da costa, perto do palco da batalha. Os Heike praticamente desapareceram da história. Mas o miserável rebanho das ex-damas da corte e dos filhos que tiveram dos pescadores estabeleceram um festival em comemoração da batalha, o qual se realiza no dia 24 de Abril de cada ano. Os pescadores descendentes dos Heike vestem-se de serapilheira e, com a cabeça coberta de negro, dirigem-se para o santuário de Akama, que contém o mausoléu do imperador afogado, onde assistem a uma peça que narra os acontecimentos que se seguiram à batalha de Danno-ura. Durante séculos, o povo imaginou ver exércitos de samurais que tentavam em vão esvaziar o mar, para o limpar do sangue, da derrota e da humilhação.
Os pescadores dizem que os samurais Heike ainda vagueiam pelos fundos do mar do Japão— sob a forma de caranguejos. De facto encontram-se neste local caranguejos com marcas curiosas nas carapaças, marcas e recortes que se assemelham de um modo perturbante ao rosto de um samurai. Quando apanham estes caranguejos, os pescadores não os comem, mas voltam a deitá-los ao mar, em comemoração dos trágicos acontecimentos de Danno-ura.

Esta lenda levanta um problema interessante. Como é que a cara de um samurai foi gravada na carapaça de um caranguejo? A resposta parece ser que foram os homens que fizeram a cara. As marcas da carapaça dos caranguejos são hereditárias. Mas nestes bichos, tal como nas pessoas, existem muitas linhas genéticas. Suponhamos que entre os antepassados longínquos deste caranguejo surgiu por acaso um cuja carapaça lembrava vagamente um rosto humano. Já antes da batalha de Danno-ura, os pescadores teriam provavelmente tido relutância em comer um caranguejo assim. E ao voltar a deitá-lo ao mar, eles iniciaram um processo evolutivo: se fores um caranguejo de carapaça vulgar, os homens comem-te — a tua linha deixará poucos descendentes; se a tua carapaça se parecer, por pouco que seja, com uma cara, eles deitam-te de volta ao mar e poderás ter mais descendentes. Os caranguejos investiram substancialmente nas marcas das carapaças. Com o passar das gerações, tanto de caranguejos como de pescadores, os animais cujas carapaças mais se assemelhavam a um rosto de samurai sobreviveram preferencialmente, até que acabou por se produzir, não só uma face humana, não só uma cara de japonês, mas o rosto feroz de um temível samurai. Nada disto tem o que quer que seja a ver com o que os caranguejos querem A selecção vem do exterior. Quanto mais te pareceres com um samurai, melhor para ti. A seu devido tempo, acabou por haver grandes quantidades de caranguejos-samurais.

Este processo é chamado selecção artificial No caso do caranguejo Heike foi realizado mais ou menos inconscientemente pelos pescadores e, certamente, sem qualquer premeditação da parte dos caranguejos. Mas há milhares de anos que os seres humanos seleccionam deliberadamente quais as plantas e animais que devem viver. Nós estamos rodeados desde a infância de animais domésticos, de frutos, de árvores e de legumes hortícolas familiares. De onde vêm eles? Já alguma vez foram livres e selvagens, até serem induzidos a adoptar uma vida mais fácil numa quinta? Não, a verdade é outra. A maior parte deles foram feitos por nós.


26/06/2009

Reith Lecture 2009 com Michael Sandel

Neste sítio encontra (quase) tudo sobre a Reith Lecture de 2009 de Michael Sandel, e mais umas coisas sobre o autor. O tema foi a cidadania.

25/06/2009

Bill O'Reilly entrevista Richard Dawkins

O muito crente Bill O'Reilly entrevista o ateu Dawkins.



Alguém mais notou a profunda ignorância filosófica de O'Reilly?

Note-se:
1. Os fenómenos da natureza dependem da vontade de um Ser Superior?
2. Basta termos uma crença justificada para que ela se torne verdade?
3. O Bem moral depende de uma fundamentação religiosa?
4. A "verdade subjectiva" da crença em Jesus a que se refere O'Reilly é suficiente para garantir a sua universalidade?
5. Deve o poder político estar submetido a uma religião?
6. Deve o poder político submeter os cidadãos a uma religião como forma de garantir a sua felicidade?
7. O comportamento moral é uma consequência da crença religiosa?

23/06/2009

Augusto Saraiva, "Filosofia"

Pelos anos 60 e 70, um compêndio de Filosofia fez companhia a muitos daqueles que hoje são professores no ensino secundário. Refiro-me a "Filosofia", de Augusto Saraiva, da então Editora Educação Nacional, com instalações na Rua do Almada, nº 25, no Porto.

O livro destinava-se aos alunos do 7º ano do Ensino Liceal e tinha diversas particularidades:
  • Não apresenta uma única imagem: todo o livro contém apenas textos, sobretudo os do próprio autor;
  • Como é natural, não existem cores, ao contrário do que profusamente se vê nos manuais de hoje;
  • As matérias sucedem-se em tópicos, sendo recorrente o recurso a alíneas para delimitar os assuntos.

Tenho um desses exemplares, comprado num alfarrabista da mesma cidade, a escassas centenas de metros de distância - na Rua das Flores, no "Chaminé da Mota". Fascina-me o facto de o seu proprietário original manter o livro impecavelmente conservado, sem rasuras ou bonequinhos infantis por todo o lado. Em contrapartida, existem algumas anotações a lápis que indicam que o item foi lido ou compreendido. Em suma, estudado, coisa que hoje é digna de admiração.

Uma das [muitas] curiosidades que envolvem este livro é a sua perenidade: vários exemplos e mesmo alguns nacos de prosa de certos manuais actuais são retirados, linha por linha, do "Saraiva".

Eis o índice:

Lógica - objecto e divisão
Lógica e Gramática
Lógica e Psicologia
Divisão da Lógica

Lógica do conceito - a ideia e o termo
Compreensão e extensão da ideia
A definição
A classificação

Lógica do juízo - o juízo e a proposição
Quantidade e qualidade das proposições
Classificação das proposições
As inferências e suas espécies
Inferências imediatas: conversão e oposição

Lógica do raciocínio - inferências mediatas: dedução e indução
Estrutura e fundamento do silogismo; exemplificação
A presença implícita do silogismo no raciocínio humano
O fundamento da indução
Falácias

Metodologia - natureza da ciência; espírito científico e espírito filosófico
O problema da classificação das ciências
Métodos gerais; a natureza das ciências e os métodos especiais que requerem
Métodos das ciências matemáticas: origem das matemáticas e carácter abstracto destas ciências; ponto de partida e fundamentos da demonstração; materiais da demonstração; casos de emprego da indução em matemática
As ciências de factos: sua divisão
Métodos das ciências físico-químicas: a observação; a hipótese; a experimentação
Métodos das ciências biológicas; dificuldades de observação e de experiência; emprego da analogia; o tipo; a classificação e os seus fundamentos
Métodos das ciências do espírito: carácter destas ciências; dificuldades do seu estudo quanto à prova e à demonstração
Métodos da História: materiais que ela utiliza; a crítica histórica e a possibilidade de erro e de incerteza; o facto histórico e o problema da sua importância e significado
Métodos da sociologia: objecto e origens desta ciência; o inquérito; relações entre História e a Sociologia

Teoria do Conhecimento - A possibilidade do conhecimento; sua origem e natureza; seu valor e limites
O critério de validade do conhecimento: a verdade; atitudes da inteligência perante a verdade; o critério da certeza

Ética - objecto e carácter normativo; divisão

Moral formal - a consciência moral; sua natureza e origem
A liberdade e a responsabilidade moral
O critério do Bem e as diferentes concepções da vida moral
Determinação do conceito de Bem na moral científica e na moral cristã (o fim último do Homem)
O direito e os seus fundamentos

Moral prática - referência breve aos deveres do Homem para com Deus, para consigo mesmo e para com a sociedade

Estética - a essência do Belo. As belas-artes. A arte e a moral.

Metafísica - objecto e divisão

Ontologia - os problemas ontológicos.

Cosmologia racional - o espaço e o tempo segundo o senso comum; as concepções clássicas e concepções modernas do espaçço e do tempo.
A matéria
A vida

Psicologia racional - objecto da psicologia racional. O princípio da vida. Natureza e atributos da alma.

Teodiceia - panteísmo; teísmo; existência de Deus; natureza de Deus; relações do mundo e do Homem com Deus

Como se vê, são cobertas diversas áreas da Filosofia, da Lógica à Filosofia da Religião, com passagem pela epistemologia, ética, estética, metafísica e ontologia. Engloba ainda a Psicologia num ponto de vista pouco "científico". Tudo isto, insisto, num único ano de escolaridade.

O capítulo sobre Lógica é bastante interessante. Embora se detenha na lógica escolástica, fá-lo de forma competente e organizada, coisa que não é visível em alguns dos manuais actualmente em vigor. O capítulo dedicado à epistemologia assenta em classificações hoje pouco usuais, mas faz referência a autores que, na época, devem ter sido considerado inovadores, como Hilbert. Este capítulo integra de forma notável os conhecimentos de Lógica e faz uma aproximação efectiva à tao propalada interdisciplinaridade, com recurso a demonstrações matemáticas. São apresentados sucintamente autores como Claude Bernard, Stuart Mill, Leibniz, Kant, Descartes, Comte. A secção de epistemologia da História não destoaria em qualquer manual do ensino secundário. A secção sobre ética estabelece - e muito bem - a relação entre as teorias hedonistas e utilitaristas, chamando a estas últimas "a doutrina moral dos filósofos ingleses". Do lado da"moral racional" são apresentados Aristóteles, Kant e São Tomás. Este capítulo termina com a determinação do conceito de Bem de acordo com a moral cristã. A mesma linha segue o capítulo sobre a moral prática, com claras concessões ao catolicismo. O capítulo sobre arte é notoriamente marcado pelos filósofos francófonos, como Étienne Souriau e Nédoncelle. A Filosofia da religião não chega a discutir a existência de Deus: são fornecidas "provas" da existência de Deus sem contraditório ou discussão dos argumentos.

Por fim: o livro quase não contém citações ou textos de autor. Mesmo assim, e apesar das tendências políticas e religiosas que manifesta, é historicamente interessante. Conseguiriam os nossos alunos ser aprovados à disciplina com este manual ? O que diz o leitor?

22/06/2009

Mudar de governo ou de pensamento?

Se 10 por cento da população assumisse uma perspectiva conscientemente ética da vida e agisse consentaneamente, a alteração daí resultante seria mais significativa do que qualquer mudança de governo. A divisão entre uma abordagem ética e uma abordagem egoísta da vida é muito mais fundamental do que a diferença entre políticas da direita e as políticas da esquerda.
Peter Singer, Como havemos de viver, Dinalivro, pp. 405, 406.

21/06/2009

Utilitarismo, egoísmo, consequencialismo

Um vídeo muito interessante sobre o utilitarismo. O inglês é bastante acessível.
Muito didáctico, muito interessante!

20/06/2009

Falar de música


É impossível não usar adjectivos ao analisar música. Mesmo que os consideremos «semelhanças familiares» wittgensteinianas e não categorias aristotélicas.
Uma conclusão que alguns filósofos retiram das teses de Wittgenstein é a de que a crítica musical deveria ser apenas comparação de semelhanças e diferenças entre os objectos artísticos. Encaixá-los em categorias não é possível. É a rejeição do esquema aristotélico classificativo do real em géneros e espécies.
«Esta música é bela!» Esta afirmação encaixa o objecto «esta música» no interior do conceito de Belo. O problema que depois de Wittgenstein não se pode ignorar é este: «como definir esse conceito de Belo?», «Que características deve ter um objecto para poder ser classificado de Belo?» (Mais problemático ainda: que características deve ter um objecto para ser considerado arte?).
Uso portanto adjectivos sem com eles querer significar categorias. Portanto, se considero belo o album Duality de Lisa Gerrard e Pieter Bourke, e considero belo o album The Way up de Pat Metheny, não estou necessariamente a pensar na mesma beleza.
Isto é, o uso da mesma palavra pode não corresponder à mesma sensação estética.
Então para quê escrever sobre arte? Ou sobre outra coisa qualquer?
Escrevendo fazemos comparações aproximadas entre os objectos que pretendemos nomear. E entre eles e certas qualidades.
Um exemplo: Li no Expresso uma crítica sobre o album The Opiates de um grupo pop-rock norueguês chamado Anywhen. Corri imediatamente a comprar o album sem ter ouvido uma única nota. A tal crítica, por entre adjectivos, comparava aquela música a mais de uma dezena de artistas que eram do meu agrado (Sylvian, Cave, Cale, Cohen, ...). Curiosamente eu não relacionaria tão directamente aquela música com essas referências. Comparar não é definir inequivocamente. É apontar uma direcção vaga.

( no blog musicareal.blogspot.com)

19/06/2009

A evolução do conceito de Ética

Uma análise do conceito de ética a partir de um outro ponto de vista: a ética empresarial. O autor do artigo é Carlos Barbosa de Oliveira, e foi publicado na Revista Dirigir, nº 98 (2007).


18/06/2009

Wittgenstein - a origem dos problemas filosóficos


O exame minucioso da gramática de uma palavra enfraquece a posição de certos padrões fixos da nossa expressão que nos tinham impedido de ver os factos sem quaisquer ideias pré-concebidas. A nossa investigação procurou afastar estes preconceitos, que nos forçam a pensar que os factos se devem conformar a determinadas apresentações implantadas na nossa linguagem. «Sentido» é uma das palavras das quais se pode dizer que desempenham «tarefas ocasionais» na nossa linguagem. São estas palavras que provocam a maior parte dos problemas filosóficos. (…) O que provoca a maior parte dos problemas em filosofia é o facto de nos sentirmos tentados a descrever o uso de palavras importantes «para tarefas ocasionais», assim como se elas fossem palavras com funções habituais.

Wittgenstein, Livro azul, Ed. 70, tr. Jorge Mendes, p. 83.

17/06/2009

Como construir a igualdade?

Thomas Nagel distingue três grandes princípios de justiça que podem pretender encarnar um ideal de igualdade. A doutrina utilitarista afirma que uma situação social é tanto mais justa quanto conduzir à «maior felicidade do maior número». Isto significa maximizar o interesse geral, definido como soma dos interesses particulares. É uma doutrina igualitária, porque, dentro desse grande cadinho constituído pela utilidade colectiva, os interesses de cada um são tomados em conta da mesma maneira. O que muitas vezes se critica ao utilitarismo é poder justificar o sacrifício de uma minoria pelo maior bem-estar da maioria. O interesse desta minoria foi bem contabilizado, mas não pesou perante o do maior número.

Nada disto se pode produzir com a concepção liberal de igualdade. Neste caso, todos estão rodeados pelo invólucro protector, feito de direitos e liberdades que não podem ser violados seja por quem for, nem que fosse em nome do interesse geral. Perguntem se podem ou mesmo devem matar um inocente, se for essa a única maneira de evitar que cinco outros pereçam. O utilitarismo responde sim, pois pesa as consequências e compara os números; o liberalismo responde não, porque proíbe, totalmente, determinados actos, independentemente de qualquer cálculo de sofrimentos e de prazeres.

Existe uma terceira concepção, a «justiça como equidade», elaborada por John Rawls no grande livro Teoria da Justiça. (...) A obra de Rawls renovou, em profundidade, o debate sobre a justiça nos países de língua inglesa, mas também na maior parte dos países da Europa Continental.(...) Tal como o utilitarismo, a justiça como equidade interessa-se pelas consequências; porém, tal como o liberalismo, estabelece urgências, prioridades absolutas, independentemente dos números em presença. A prioridade das prioridades é o destino dos mais desfavorecidos. É o seu
bem-estar que se deve tornar tão grande quanto possível, nem que para isso se tenha que recorrer à melhoria da situação das muito numerosas classes médias, nem que para isso se tenha de aceitar desigualdades.


Jean-Pierre Dupuy, Ética e Filosofia da Acção, Lisboa, Ed. Instituto Piaget, pp. 95-96.

16/06/2009

Wittgenstein - pensar e expressar uma ideia


Resumindo: se examinarmos minuciosamente os usos que fazemos de palavras como «pensamento», «sentido», «desejo», etc., libertar-nos-emos da tentação de procurar um acto peculiar do pensamento, independente do acto de expressão dos nossos pensamentos, e arrumado no meio peculiar. As formas de expressão estabelecidas já não nos impedem o reconhecimento de que a experiência do pensamento pode ser apenas a experiência da fala, ou pode consistir nesta experiência em conjunto com outras que a acompanham.

Wittgenstein, Livro azul, Ed. 70, tr. Jorge Mendes, pp. 82, 83.

15/06/2009

Como realizar a igualdade de oportunidades?

As teorias políticas do Estado de Bem-Estar entendem a igualdade, fundamentalmente, como igualdade de oportunidades. Ao Estado corresponde, porque nada senão um poder central pode fazê-lo, redistribuir os bens básicos – materiais e espirituais – de modo a que as possibilidades de intervir e participar na tomada de decisões sejam uma possibilidade real para todos os cidadãos. Não se trata de dividir dinheiro, nem riqueza, mas de ter em conta as necessidades básicas de todos, repartindo com equidade os bens que satisfaçam essas necessidades: a educação, os
cuidados de saúde, o trabalho, a reforma ou o desemprego.

Os direitos humanos, que nasceram como direito fundamental à liberdade, foram-se ampliando e estendendo com a reivindicação dos direitos chamados económico-sociais. O direito ao trabalho, a um salário digno, à educação e à cultura, a um nível de vida adequado, à protecção da saúde, constituem uma especificação mais concreta do direito geral e abstracto à igualdade. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, desenvolveu-se logo em posteriores especificações, como a declaração dos direitos da mulher, dos direitos da criança ou a convenção internacional sobre o racismo. Foi necessário desenvolver, «sectorialmente», os direitos básicos, para minimizar o manifesto esquecimento dos sectores mais desprotegidos, sujeitos de
direitos em teoria, mas não na prática.

O filósofo norte-americano John Rawls expôs, magistralmente, as bases de uma teoria da justiça que sirva de critério para a distribuição dos bens num Estado de Bem-Estar. Como bom teórico sócio-liberal, Rawls estabelece como primeiro princípio da justiça a liberdade igual para todos, se bem que acrescente que a realização desse princípio tem de ter em conta a igualdade de oportunidades. Com efeito, dirá Rawls, «o Estado só garantirá uma liberdade igual a todos os cidadãos se torna possível, ao mesmo tempo, que todos eles tenham as mesmas oportunidades para aceder ao poder e aos postos de responsabilidade ou de tomada de decisões». Isto significa
igualdade de oportunidades em educação, acesso a postos de trabalho, protecção expressa de menos valias, ou de discriminações em razão de sexo ou raça. Pôr desta forma as condições necessárias para uma distribuição equitativa do poder é a única forma de todos os interesses serem tidos em conta e de nenhum problema grave que afecte a um conjunto especial de cidadãos ficar por satisfazer.
Assim, a realização de uma verdadeira igualdade de oportunidades tem de ser o objectivo que o Estado se propõe alcançar como meio para proteger e assegurar a liberdade igual para todos. Para isso, para realizar essa igualdade de oportunidades, deverá fazer uma repartição desigual dos bens básicos: uma repartição ou distribuição desigual destinada a beneficiar os menos favorecidos. Numa «sociedade bem ordenada», como Rawls a chama, é função das instituições do Estado procurar uma maior justiça, e isso consiste em identificar aqueles que vivem pior e sofrem mais, para dar-lhes prioridade na distribuição dos bens básicos e proporcionar-lhe maiores serviços que lhes permitam satisfazer as suas necessidades fundamentais
equiparando-os, desta maneira, com os que vivem com mais desafogo económico, ou têm um acesso mais fácil aos bens básicos.

A inovação de Rawls radica, assim, no estabelecimento desse «princípio de diferença» segundo o qual a redistribuição correspondente ao Estado de Bem-Estar não tem de ter como modelo o «café para todos», não tem de ser «igualitária» mas sim equitativa: há que partir desigualmente para dar mais aos que menos têm.

Victoria Camps, Los Valores de la Educación, Madrid, Ed. Anaya, pp. 47-49 (trad.).

14/06/2009

Wittgenstein - expressar uma ideia

A frase «expressar uma ideia que nos vem ao espírito» sugere que o que estamos a tentar expressar por palavras já foi expresso, mas numa linguagem diferente; que esta expressão nos veio ao espírito; e que o que fazemos é traduzi-la de uma linguagem mental para uma linguagem verbal. Na maior parte dos casos a que chamamos «expressar uma ideia, etc.» acontece algo de muito diferente. Imaginem o que acontece em casos como este: procuro hesitantemente uma palavra. São sugeridas várias palavras e eu rejeito-as. Finalmente propõem-me uma e eu digo: «Eis o que eu queria dizer!»
Wittgenstein, Livro azul, Ed. 70, tr. Jorge Mendes, p. 80.

13/06/2009

O que é agir por dever?

O que é, pois, agir por dever? Agir por dever é agir em função da reverência pela lei moral; e a maneira de testar se estamos a agir assim é procurar a máxima, ou princípio, com base na qual agimos, isto é, o imperativo ao qual as nossas acções se conformam. Há dois tipos de imperativos: os hipotéticos e os categóricos. O imperativo hipotético afirma o seguinte: se quisermos atingir determinado fim, age desta ou daquela maneira. O imperativo categórico diz o seguinte: independentemente do fim que desejamos atingir, age desta ou daquela maneira. Há muitos imperativos hipotéticos, porque há muitos fins diferentes que os seres humanos podem propor-se alcançar. Há um só imperativo categórico, que é o seguinte: «Age apenas de acordo
com uma máxima que possas, ao mesmo tempo, querer que se torne uma lei universal».

Kant ilustra este princípio com vários exemplos, dos quais podemos mencionar dois. O primeiro é este: tendo ficado sem fundos, posso cair na tentação de pedir dinheiro emprestado, apesar de saber que não serei capaz de o devolver. Estou a agir segundo a máxima «Sempre que pensar que tenho pouco dinheiro, peço dinheiro emprestado e prometo pagá-lo, apesar de saber que nunca o devolverei». Não posso querer que toda a gente aja segundo esta máxima, pois, nesse caso, toda a instituição da promessa sucumbiria. Assim, pedir dinheiro emprestado nestas circunstâncias violaria o imperativo categórico.
Um segundo exemplo é este: uma pessoa que esteja bem na vida e a quem alguém em dificuldades peça ajuda, pode cair na tentação de responder «Que me interessa isso? Que todos sejam tão felizes quanto os céus quiserem ou quanto o conseguirem; não o prejudicarei, mas também não o ajudo». Esta pessoa não pode querer que esta máxima seja universalizada, porque pode surgir uma situação na qual ela própria precise do amor e da simpatia de outras.
Estes casos ilustram duas maneiras diferentes a que o imperativo categórico se aplica. No primeiro caso, a máxima não pode ser universalizada porque a sua universalização implicaria uma contradição (se ninguém cumprir as suas promessas, as próprias promessas deixam de existir). No segundo caso, a máxima pode ser universalizada sem contradição, mas ninguém poderia racionalmente querer a situação que resultaria da sua universalização. Kant afirma que os dois casos correspondem a dois tipos diferentes de deveres: deveres estritos e deveres
meritórios.

Kant oferece uma formulação complementar do imperativo categórico: «Age de tal modo que trates sempre a humanidade, quer seja na tua pessoa quer na dos outros, nunca unicamente como meios, mas sempre ao mesmo tempo como um fim».

Kant pretende, apesar de não ter convencido muitos dos seus leitores, que este imperativo é equivalente ao anterior e que permita retirar as mesmas conclusões práticas. Na verdade, é mais eficaz do que o anterior para expulsar o suicídio. Tirar a nossa própria vida, insiste Kant, é usar a nossa própria pessoa como um meio de acabar com o nosso desconforto e angústia.

Como ser humano, afirma Kant, não sou apenas um fim em mim mesmo, sou um membro do reino dos fins, uma associação de seres racionais sob leis comuns a todos. A minha vontade, como se disse, é racional na medida em que as suas máximas puderem transformar-se em leis universais. A conversa desta afirmação diz que a lei universal é a lei feita por vontades racionais como a minha. Um ser racional «só está sujeito a leis feitas por si mesmo e que, no entanto, sejam universais». No reino dos fins, todos somos igualmente legisladores e súbditos. Isto faz lembrar a
vontade geral de Rousseau.

Kant conclui a exposição do seu sistema moral com um panegírico à dignidade da virtude. No reino dos fins, tudo tem um preço ou uma dignidade. Se algo tem um preço, pode ser trocado por qualquer outra coisa. O que tem dignidade é único e não pode ser trocado; está além do preço. Há dois tipos de preços, afirma Kant: o preço venal, que está relacionado com a satisfação da necessidade, e o preço de sentimento relacionado com a satisfação do gosto. A moralidade está para lá e acima de ambos os tipos de preço.

«A moralidade, e a Humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade. A destreza e a diligência no trabalho têm um preço venal; a argúcia de espírito, a imaginação viva e as fantasias têm um preço de sentimento; pelo contrário, a lealdade nas promessas, o bem-querer fundado em princípios (e não no instinto) têm um valor intrínseco». As palavras de Kant ecoaram ao longo do século XIX e ainda emocionam muitas pessoas hoje em dia.

Anthony Kenny, História Concisa da Filosofia Ocidental, Ed. Temas e Debates, pp. 347-348

12/06/2009

Edmund Burke

O que é a liberdade sem sabedoria, e sem virtude? É o maior de todos os males possíveis.

11/06/2009

O Homem Light

Estamos a assistir ao fim de uma civilização, e podemos dizer que esta se encerra com a queda em bloco dos sistemas totalitários nos países do Leste da Europa. Ainda permanecem alguns redutos dessa mesma linha política e ideológica se bem que se anunciem por outro lado novas prisões para o homem, com outra roupagem e rostos bem diversos.
Assim como nos últimos anos entraram na moda certos produtos light – o tabaco, algumas bebidas e certos alimentos –, também se foi gerando um tipo de homem que poderia ser qualificado como o homem light.
Qual é o seu perfil psicológico? Como poderia ser definido? Trata-se de um homem relativamente bem informado, porém com escassa educação humana, entregue ao pragmatismo, por um lado, e a bastantes lugares comuns, por outro. Tudo lhe interessa, mas só a nível superficial; não é capaz de fazer a síntese daquilo que recolhe e por conseguinte, foi-se convertendo num sujeito trivial, vão, fútil, que aceita tudo mas que carece de critérios sólidos na sua conduta. Nele tudo se torna etéreo, leve, volátil, banal, permissivo. Presenciou tantas mudanças, tão rápidas e num tempo tão curto, que começa a não saber a que ater-se ou, o que é o mesmo, faz suas afirmações como «tudo vale», «tanto faz» ou «as coisas mudaram». E assim
encontramo-nos com um bom profissional na sua especialidade, que conhece bem a tarefa que tem entre mãos, mas que fora desse contexto está à deriva, sem ideias claras, apegado – como está – a um mundo cheio de informação, que o distrai, mas que pouco a pouco o converte num homem superficial, indiferente, permissivo, gerando nele um grande vazio moral.
As conquistas técnicas e científicas – impensáveis até há bem poucos anos – trouxeram-nos progressos evidentes: a revolução informática, os avanços da ciência nos seus diversos âmbitos, uma ordem social mais justa e perfeita, a preocupação em aplicar os direitos humanos, a democratização de tantos países e, agora, a queda em bloco do comunismo. Porém, diante de tudo isto há que pôr sobre a mesa aspectos da realidade que funcionam mal e que mostram a outra face da moeda:

a) materialismo: faz com que um indivíduo tenha certo reconhecimento social pela única razão de ganhar muito dinheiro.

b) hedonismo: viver bem à custa do que quer que seja é o novo código de comportamento, o que atira para a morte dos ideais, o vazio de sentido e a busca de uma série de sensações cada vez mais novas e excitantes.

c) permissividade: destrói os melhores propósitos e ideais.

d) revolução sem finalidade e sem programa: a ética permissiva substitui a moral o que produz uma desordem generalizada.

e) relativismo: tudo é relativo com o que se cai na absolutização do relativo; brotam assim umas regras presididas pela subjectividade.

f) consumismo: representa a fórmula pós-moderna da liberdade.

Deste modo, as grandes transformações sofridas pela sociedade nos últimos anos são, ao princípio contempladas com surpresa, logo a seguir com uma progressiva indiferença ou, noutros casos, como necessidade de aceitar o inevitável. A nova epidemia de crises e rupturas conjugais, o drama das drogas, a marginalização de tantos jovens, o desemprego e outros factos da vida quotidiana admitem-se sem mais, como algo que está aí e contra o qual não se pode fazer nada.


Henrique Rojas, O Homem Light. Uma Vida sem Valores, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994, pp. 7-9.

10/06/2009

Princípios morais e Acção Humana

Se perguntássemos quais são os princípios morais de uma pessoa, a melhor forma de obter uma resposta verdadeira seria estudando o que ela fez. Essa pessoa pode afirmar todo o tipo de princípios que nas suas acções desrespeitou; mas quando, tendo conhecimento de todos os factos relevantes da situação, ela está perante escolhas ou decisões entre cursos de acção alternativos, entre respostas alternativas à questão «O que devo fazer?», é que ela revela em que princípios de conduta realmente acredita. A razão pela qual as acções são, de uma forma peculiar, reveladoras dos princípios morais é esta: a sua função é orientar a nossa conduta.

R. M. Hare, The language of morals, Oxford University Press, p. 1.
(tr. e adp.: Rui Areal)

08/06/2009

Reacções intuitivas em ética

Se somos filósofos tem de haver alturas em que reflectimos criticamente sobre as nossas intuições – na verdade, não só os filósofos, mas também as pessoas ponderadas, o deviam fazer. Se nos limitássemos simplesmente a aceitar os nossos sentimentos sem o tipo de reflexão suplementar que acabamos de desenvolver, não conseguiríamos decidir quais das nossas inclinações intuitivas devemos aceitar e adoptar e a quais nos devemos opor. (…) O facto de as respostas intuitivas serem amplamente aceites não constitui prova da sua justificação. Não se trata de insights racionais sobre o domínio da verdade moral. Algumas intuições – de um modo geral, as que partilhamos com outros elementos da nossa espécie, independentemente do contexto cultural – são reacções que, durante a maior parte da história da nossa evolução, se revelaram adequadas à sobrevivência e à reprodução de seres iguais a nós. Outras reacções intuitivas – de um modo geral, as que partilhamos com os seres humanos de culturas diferentes – devem-se à nossa história cultural particular. Nem a base biológica nem a base cultural das nossas reacções intuitivas nos fornecem uma razão sólida para as aceitarmos como base da moral.
Peter Singer, Um mundo só – a ética da globalização, Gradiva, p. 224.

07/06/2009

Anthony Weston, A Arte de Argumentar

Título: Dicionário de Filosofia
RevisorJoão Branquinho
Local de edição: Lisboa
Data: 1996
EditorGradiva
ColecçãoFilosofia Aberta
I.S.B.N.972-662-441-x



Índice


Prefácio
Introdução

I — A redacção de um argumento curto: algumas regras gerais
1. A distinção entre premissas e conclusão
2. Apresente as suas ideias numa ordem natural
3. Parta de premissas seguras
4. Use uma linguagem precisa, específica e concreta
5. Evite a linguagem tendenciosa
6. Use termos consistentes
7. Limite se a um sentido para cada termo

II — Argumentos com exemplos
1. Use mais do que um exemplo
2. São os exemplos representativos?
3. A informação de fundo é fundamental
4. Existem contra exemplos?

III — Argumentos por analogia
1. A analogia requer um exemplo que seja semelhante num aspecto relevante

IV — Argumentos de autoridade
1. As fontes devem ser citadas
2. São as fontes informadas?
3. São as fontes imparciais?
4. Compare as fontes
5. Ataques pessoais não desqualificam uma fonte

V — Argumentos acerca de causas
1. O argumento explica como a causa conduz ao efeito?
2. A conclusão propõe a causa mais razoável?
3. Os acontecimentos simultâneos não estão necessariamente relacionados
4. Acontecimentos correlacionados podem ter uma causa comum
5. Qualquer um de dois acontecimentos correlacionados pode causar o outro
6. As causas podem ser complexas

VI — Argumentos dedutivos
1. Modus ponens
2. Modus tollens
3. Silogismo hipotético
4. Silogismo disjuntivo
5. Dilema
6. Reductio ad absurdum
7. Argumentos dedutivos em vários passos

VII — A redacção de um ensaio argumentativo: A) A exploração do tema
1. Explore os argumentos de todos as posições
2. Interrogue e defenda cada premissa do argumento
3. Reveja e repense os argumentos à medida que emergem

VIII — A redacção de um ensaio argumentativo: B) Os pontos principais do ensaio 1. Explique a questão
2. Faça uma afirmação ou uma proposta definida
3. Desenvolva completamente os seus argumentos
4. Considere ojeccções possíveis
5. Considere alternativas

IX — A redacção de um ensaio argumentativo: C) Escrever o ensaio
1. Siga o seu esboço
2. A introdução deve ser breve
3. Apresente os seus argumentos um por um
4. Clarifique, clarifique, clarifique
5. Sustente objecções com argumentos
6. Não afirme mais do que mostrou

X — Falácias

Apêndice: a definição Estudo complementar Apêndice à edição portuguesa


Críticas e recensões:

06/06/2009

Fé, livre-arbítrio e conhecimento

[A fé parece uma opção, mas não o é.] Quando a fé existe, é uma força irresistível, e por isso não é escolhida livremente. Basta-nos apenas não confundir a crença em Deus - um compromisso arrebatado, transformador, existencial - com a crença na existência de cadeiras na sala ao lado.
Será que os crentes têm razão, ou estarão eles enganados? Não existe um raciocínio neutro que nos permita responder a esta questão. O conhecimento humano não tem nenhum fundamento absoluto de certeza, sobre o qual possamos decidir imparcialmente a veracidade deste tipo de questões essenciais.
Keith Ward, Deus e os filósofos, Estrela Polar, p. 251.

02/06/2009

Fé e violência

Confesso que nos parece muito estranho que um homem ache aceitável infligir com torturas a morte a outro - cuja salvação diz desejar de todo o coração - não esperando, sequer, por o ver convertido. Ninguém seguramente acreditará que tal comportamento possa provir da caridade, do amor ou da boa vontade. (...)
A tolerância para com aqueles que diferem de outros em matéria de opiniões religiosas ajusta-se tanto ao Evangelho de Jesus Cristo e à genuína razão humana que parece monstruoso que haja homens tão cegos que não percebam claramente a sua necessidade e vantagens.
John Locke, Carta sobre a tolerância, Contraponto, pp. 139, 140.

01/06/2009

Da violência à persuasão, da lei do mais forte à argumentação


«Aquilo que é excepcional (...) e que constitui um marco na história da humanidade, é que se tivesse permitido, em matérias fundamentais reservadas à tradição religiosa e aos seus porta-palavra, que o uso da força pudesse ter sido substituído pelo da persuasão, que se tenham podido colocar questões e receber explicações, avançar opiniões e submetê-las à crítica de outrem. O recurso ao logos, cuja força convincente dispensaria o recurso à força física, permitindo substituir a submissão pelo acordo, constituiu, desde Sócrates, o ideal secular da Filosofia. Este ideal de racionalidade esteve associado, desde então, à busca individual da sabedoria e à comunhão de
espíritos fundada sobre o saber. Como, graças à razão, dominar as paixões e evitar a violência? Quais são as verdades e os valores sobre os quais seria possível esperar o acordo de todos os seres dotados de razão? Eis o ideal desejado de todos os pensadores da grande tradição filosófica do Ocidente.»

Chaïm Perelman, Le Champ de l'Argumentation, Éditions de L’Université, Bruxelles, 1970