31/05/2009
Deus e o Universo
30/05/2009
FILOSOFIA EXPERIMENTAL [X-PHI]
Os editores do blogue http://filosofiaexperimental.wordpress.com/ solicitaram divulgação do seu espaço na internet:
Estamos lançando um blog sobre filosofia experimental, através do qual esperamos dar a conhecer à comunidade filosófica de língua portuguesa essa área recente de pesquisa, as discussões e controvérsias em torno do tema e em torno dos seus experimentos, assim como divulgar os mais importantes artigos e livros que sejam publicados nesse campo.
Esperamos que muitos possam contribuir neste blog - não só os que se mostrem genuinamente interessados no tema, como também aqueles que discordem do conceito ou tenham dúvidas quanto à sua relevância. A ideia é mesmo criar uma plataforma de discussão aberta a todos. Nesse sentido, os comentários aos posts são essenciais para dinamizar o debate.
Por enquanto, são colaboradores do blog os seguintes pesquisadores: Paulo Sousa (Queen´s Belfast), Carlos Mauro (UPorto), Joshua Knobe (YALE), Shaun Nichols (Arizona), Susana Cadilha (UPorto) e Thomas Nadelhoffer (Dickinson College).
O blog disponibilizará alguma bibliografia para quem queira prosseguir a sua pesquisa, assim como algumas traduções de textos considerados fundadores do movimento. Qualquer comentário, sugestão ou crítica a qualquer aspecto do blog é naturalmente bem acolhido, e estamos também bastante receptivos a propostas de colaboradores que queiram tornar-se autores do blog.
Filosofia - Nuno Júdice
ideia que ponho em cima da mesa, é uma parte do
que penso; e ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
29/05/2009
Deus existe? O cepticismo de Carl Sagan
28/05/2009
Pensar com a caneta
27/05/2009
Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia

Revisores: António Franco Alexandre, João Branquinho, Fernando Ferreira, Ana Isabel Simões, M. S. Lourenço, José Trindade Santos, Maria Leonor Xavier
Local de edição: Lisboa
Data: 1997
Editor: Gradiva
Colecção: Filosofia Aberta
I.S.B.N.: 972-662-532-7
26/05/2009
O problema do sentido da vida e os problemas da lógica
25/05/2009
Resistências à mudança de paradigma
24/05/2009
Problemas científicos e filosóficos
23/05/2009
Mudança de paradigma
22/05/2009
Progresso da ciência
21/05/2009
Richard Dawkins: Quem é Deus?
20/05/2009
O conhecimento científico é objectivo
Normalmente pensa-se no conhecimento como um estado subjectivo ou mental. Partindo da forma verbal «Eu sei» explicamos o conhecimento como uma certa forma de crença – isto é, uma espécie de crença que assenta em razões suficientes. Esta interpretação subjectiva da palavra «conhecimento» teve uma influência demasiado forte na antiga teoria da ciência. Na realidade, é completamente inútil para uma teoria da ciência, porque o conhecimento científico consiste em proposições objectivas formuladas por meio do discurso, em hipóteses e problemas, e não em expectativas ou convicções subjectivas.19/05/2009
Pela clonagem
José Vítor Malheiro, Público
18/05/2009
Individualismo e egoísmo
O individualismo é uma expressão recente, que corresponde a uma ideia nova. O que os nossos antepassados conheceram foi o egoísmo.O individualismo é um sentimento consciente e tranquilo, que leva cada cidadão a isolar-se da massa dos seus semelhantes, e a afastar-se, com a família e os amigos. O homem constitui assim à sua volta uma pequena sociedade, para seu uso, e deixa voluntariamente de se interessar pela grande sociedade propriamente dita.
O egoísmo tem origem num instinto cego; o individualismo provém mais de um juízo errado do que dum sentimento adulterado. As suas raízes encontram-se tanto nos defeitos do espírito como nos do coração…
O egoísmo seca o gérmen de todas as virtudes; o individualismo apenas extingue a fonte das virtudes públicas; mas à distância, ataca e destrói todas as demais e funde-se enfim com o egoísmo.
O egoísmo é um defeito tão antigo como o mundo. Não é mais característico de uma forma de sociedade do que de outra.
O individualismo é de origem democrática, e ameaça desenvolver-se, à medida que as condições sociais se tornam iguais.
17/05/2009
Clonagem: o que são embriões híbridos?
“As técnicas de procriação medicamente assistida não podem ser utilizadas com o objectivo de originarem [embriões] híbridos”, define a lei portuguesa, que prevê pena de prisão de um a cinco anos para quem infrinja a proibição. A possibilidade aberta pela lei inglesa, de juntar material biológico animal e humano, criando embriões híbridos, divide opiniões em Portugal. Entre os especialistas há quem diga que se deu um passo perigoso e quem defenda que só com novas técnicas a ciência progride.
Um percurso iniciado em 1996 com a clonagem da ovelha Dolly
Embriões humanos transgénicos
Quimeras humanas
Híbridos verdadeiros
Publicado originalmente no jornal Público, sem link, a 25 de Maio de 2008
16/05/2009
Michael Walzer - a relevância da filosofia
15/05/2009
Potenciais riscos da clonagem humana
- A possibilidade de comprometer a individualidade;
- A perda de variabilidade genética;
- Envelhecimento precoce;
- Grande número de anomalias;
- Lesões hepáticas, tumores, baixa imunidade;
- Um mercado negro de fetos pode surgir, de doadores ‘’desejáveis’’ que queiram clonar-se a eles próprios, como estrelas de cinema, atletas entre outros;
- A tecnologia não está ainda bem desenvolvida, tendo uma baixa taxa de fertilidade (para clonar a Dolly foram precisos 277 ovos, 30 começaram a dividir-se, 9 induziram a gravidez e apenas 1 sobreviveu);
- Os clones poderão ser alvo de discriminação por parte da sociedade;
- Os clones poderão estar sujeitos a problemas psicológicos desconhecidos, com impacto na família e na sociedade.
14/05/2009
Michael Walzer - O que é o bem comum?
13/05/2009
História do Ateísmo
12/05/2009
A educação mata a criatividade? 2/2
11/05/2009
Clonagem de primatas
Chama-se Semos, como o deus-macaco da versão mais recente do filme Planeta dos Macacos. Mas não é ficção científica: é um macaco Rhesus que vive no Centro Nacional de Investigação dos Primatas, no Oregon (EUA), e cujas células cutâneas serviram para clonar, pela primeira vez, embriões de macacos.
A partir desses embriões, Shoukhrat Mitalipov e os seus colegas geraram duas linhas de células estaminais embrionárias (CEE), que são capazes de originar todos os tecidos do organismo e cujas potencialidades terapêuticas podem ser imensas. Os resultados foram ontem divulgados on-line pela Nature e serão publicados a 22 Novembro.
Até agora, ninguém tinha conseguido semelhante feito num primata. Já tinha havido várias “falsas partidas”, tanto no macaco como no homem. Uma delas, aliás, revelar-se-ia fraudulenta, com cientistas sul-coreanos a anunciarem, em 2004, que tinham clonado embriões humanos e extraído daí linhagens de CEE humanas.
De facto, instalou-se um grande pessimismo nos anos que se seguiram ao nascimento de Dolly, em 1997. A tal ponto que, em 2003, Gerald Schatten, da Universidade de Pittsburgh, declarou, após 716 tentativas de clonar um primata, que isso talvez não fosse possível. “Com os métodos actuais”, disse, “a produção de CEE [clonagem terapêutica] em primatas não-humanos pode revelar-se difícil - e a clonagem reprodutiva impossível”.
Ao passo que a clonagem terapêutica consiste em obter CEE a partir de embriões clonados que são a seguir descartados, a clonagem reprodutiva visa a implantação dos embriões no útero de fêmeas, para obter crias. A possibilidade de se fazer o mesmo no ser humano tem suscitado grandes preocupações.
Dez anos de esforços
A equipa de Mitalipov estava há 10 anos a tentar a clonagem reprodutiva de primatas e, nesse processo, utilizaram 15 mil ovócitos. Em vão. Conta a nature.com que, “quando souberam que os resultados da Coreia do Sul eram fraudulentos, decidiram dedicar-se à clonagem terapêutica”.
Mas tiveram de modificar a técnica da Dolly, dita de “transferência nuclear de células somáticas”, porque havia qualquer coisa que não resultava com os primatas. A técnica de base consiste em colher células do corpo de animais adultos, introduzi-las em ovócitos de fêmeas previamente esvaziados do seu ADN e em fundir as duas células, dando origem a um embrião geneticamente idêntico ao doador das células adultas.
Os cientistas explicam as diferenças que introduziram: luz polarizada para ver o ADN do ovócito em vez de luz ultravioleta ou um pigmento especial, como acontece na técnica convencional; e uma solução de nutrientes que permite controlar melhor a activação dos ovócitos pelos genes da célula do doador adulto - que, neste caso, eram as células da pele do macaco Semos, com 9 anos de idade. A eficiência do novo processo é ainda muito reduzida - foram precisos 150 ovócitos para gerar cada linhagem de CEE -, mas funcionou. Todavia, nada foi anunciado antes de outra equipa ter confirmado os resultados.
Numa inédita decisão, os editores da Nature resolveram ter a certeza absoluta de que não estavam perante mais um falso alarme. Por isso, o artigo principal é acompanhado por outro, da autoria de David Cram e colegas da Universidade de Monash, na Austrália, que confirma que as CEE obtidas nos EUA provêm efectivamente de embriões clonados por transferência nuclear - e não foram obtidos por fertilização in vitro convencional ou partenogénese (formação de um embrião por divisão, sem fecundação).
Ruth Francis, da Nature, disse ao PÚBLICO que isto tinha sido feito “dada a importância das implicações dos resultados para a investigação médica e para a história na área da clonagem”, acrescentando que “tais verificações não devem ser vistas como uma marca de desconfiança em relação aos cientistas, mas como uma maneira directa de resolver logo as questões que iriam ser levantadas quanto à veracidade das experiências”.
As CEE obtidas parecem ser em tudo idênticas às CEE naturais. Em particular, explicou ontem Mitalipov numa conferência telefónica, já conseguiram transformá-las, in vitro, em células cardíacas e em neurónios. “E, quando as injectamos em ratinhos, elas formam tumores que indicam que podem, de facto, dar origem a todos os tecidos do organismo.”
Os cientistas querem melhorar a eficiência da técnica: “Seria bom utilizar apenas cinco a dez ovócitos para obter uma linhagem de CEE”, diz Mitalipov. Mas o objectivo principal é utilizar os macacos Rhesus como modelo animal para testar aplicações das CEE em medicina humana, “por exemplo, na diabetes”.
150 ovócitos foram necessários para gerar uma linhagem de células estaminais embrionárias
No domingo, a Universidade das Nações Unidas (UNU), um centro de estudo internacional com sede em Tóquio, no Japão, divulgou um parecer sobre a atitude que o mundo deveria adoptar face à clonagem humana. O parecer concluía que, entre as hipóteses que se colocam à comunidade internacional, a mais viável do ponto de vista político seria a proibição global da clonagem reprodutiva humana, aliada à liberdade de cada nação permitir a investigação em clonagem terapêutica, mas em moldes estritamente controlados. Basicamente, é este o sistema que vigora actualmente no Reino Unido. “Se não formos capazes de ilegalizar a clonagem reprodutiva, isso significa que, mais tarde ou mais cedo, vamos partilhar o planeta com indivíduos clonados”, declarou Brendan Tobin, advogado do Centro Irlandês dos Direitos Humanos e um dos co-autores do documento, citado por um comunicado da UNU, acrescentando que, se isso acontecer, tonar-se-á indispensável garantir a protecção dos seus direitos.
10/05/2009
A educação mata a criatividade? 1/2
09/05/2009
A clonagem nos seres humanos
A ciência parece indicar que o aperfeiçoamento da transmissão da vida nas espécies vegetais e animais resultou de múltiplas tentativas. Isto é, as alterações na informação genética que foram transmitidas aos descendentes originaram novas características nos seres vivos: uns melhoraram e outros pioraram a sua adaptação ao ambiente. A competição biológica conduziu, necessariamente, à selecção dos organismos mais aperfeiçoados que puderam então reproduzir-se utilizando com maior rendimento os meios que a natureza colocou no espaço em que habitavam. A “força da vida” é tal que permitiu a existência de um número incontável de espécies adaptadas a condições de vida extremamente hostis.
Um dos mecanismos que as formas superiores de vida utilizam para a sua adaptação ao ambiente é o da reprodução sexuada. A clonagem, ou dito de outro modo, a reprodução assexuada é um método próprio dos organismos constituídos por uma única ou por um escasso número de células, por via de regra absolutamente dependentes do meio onde vivem e muito vulneráveis às suas modificações. Todos os seres vivos superiores utilizam a reprodução sexuada. No mundo vegetal, a reprodução por estaca, bem conhecida desde tempos de que não há memória, é uma forma de reprodução artificial por clonagem utilizada quando se quer fazer réplicas de um ser vivo vegetal num ambiente ao qual se encontra excelentemente adaptado. A reprodução sexuada, por outro lado, permite mecanismos muito mais poderosos de adaptação devido à possibilidade de recombinação dos genes, facultando uma descendência com características diversificadas, que as inúmeras gerações e a selecção natural foram aperfeiçoando durante milhões de anos. A leitura da informação contida nos cromossomas humanos permitirá certamente a mais correcta história da vida na terra.
Nos últimos anos houve múltiplas referências nas publicações científicas à possibilidade de reprodução por clonagem nos mamíferos superiores. Muitas demonstraram que as células que melhor suportam a troca do seu núcleo natural por outro da mesma espécie, mantendo a sua viabilidade, são as células precursoras da célula sexual feminina - os ovocitos. A técnica mais praticada consiste em retirar o núcleo destas células (contendo apenas a metade feminina dos cromossomas) e substituí-lo pelo núcleo de uma célula de um indivíduo adulto da mesma espécie. O novo ser assim criado terá a mesma informação genética do indivíduo de onde o núcleo celular foi retirado. Isto é, o organismo desenvolvido será um gémeo verdadeiro do dador do núcleo celular. Em resumo, para praticar a técnica da clonagem mais usada num mamífero (como na espécie humana) serão necessárias uma célula viável retirada de um ovário, uma outra célula adulta de um outro ou do mesmo organismo à qual será retirado o núcleo a transplantar e um útero onde o pequenino ser se poderá desenvolver até poder ter a autonomia própria da espécie.
Todas estas tentativas de clonagem dos organismos superiores são experimentais, apenas menos de uma em cada cem experiências tentadas resultaram na criação de um indivíduo desenvolvido, muitas terminando em abortamentos espontâneos ou em seres vivos com deficiências orgânicas múltiplas. Admite-se que uma causa importante para esta vulnerabilidade resulte do facto do material genético retirado do organismo adulto ter perdido algumas das suas características potenciais de diferenciação, nomeadamente a possibilidade da inibição de muitos genes ocorrida no processo de formação dos órgãos do indivíduo adulto. Estas experiências apenas são possíveis num ambiente tecnológico muito evoluído exigindo um grande investimento financeiro e o concurso de especialistas que são relativamente raros nestes domínios científicos.
A clonagem reprodutora humana não é, portanto, uma novidade científica. É possível a clonagem de células humanas com material genético clonante proveniente de outro ou do mesmo ser humano com o objectivo de produzir um embrião viável através da utilização de um útero de uma mãe hospedeira (que um dia se poderá eventualmente demonstrar que poderá ser a própria dadora do material genético). Este tipo de intervenção não tem nenhum interesse científico e não tem qualquer suporte ético, sendo, portanto, uma experiência interdita. Representaria a máxima subordinação de um futuro ser humano a um capricho ou a uma obsessão de alguém, visto que estaria impressa em todas as suas células uma matriz biológica intencionalmente condicionada, provavelmente mais frágil e mais vulnerável, características que são transmissíveis à sua descendência.
A clonagem reprodutora humana foi explicitamente banida na legislação de muitos países, apesar de algumas vozes publicamente declararem a capacidade e a intenção de ultrapassar a condenação de tal prática. No nosso país, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida manifestou-se formalmente contra a clonagem reprodutora humana e a Assembleia da República acolheu o seu parecer. Portugal ratificou a Convenção dos Direitos Humanos e da Biomedicina do Conselho da Europa (Convenção de Oviedo) e também um protocolo adicional específico sobre clonagem humana reprodutiva, que formalmente proíbem tais actividades. É obrigação de cada país membro do Conselho da Europa produzir legislação que faça a regulamentação do diploma, o que ainda não ocorreu em Portugal, constituindo este facto uma grave deficiência nas leis do nosso país.
Surgem agora, ruidosamente e como factos consumados, as notícias da clonagem de seres humanos. Rumores de várias origens ocorriam às agências noticiosas. A comunidade científica tomou conhecimento, recentemente, de uma comunicação formal aos media partindo de uma bioquímica sem credenciais reconhecidas nestes domínios, contando o nascimento por cesariana de um bebé do sexo feminino obtido por clonagem a partir de um ovocito humano e de um núcleo de uma célula da pele. A mistura parece explosiva: uma seita religiosa, um conjunto de pessoas de ciência sem credenciais firmadas e uma empresa comercial que quer expandir o seu espaço de intervenção. Não sabemos se a notícia é verdadeira, visto que a documentação só será possível dentro de dias. Exactamente na altura em que um pequeno ser humano, uma nossa irmã, se for verdadeira a história que alguns contam, poderá começar uma vida difícil e penosa nas luzes da ribalta.
Alexandre Laureano Santos
08/05/2009
Despotismo do futuro
Procuro imaginar com que novos aspectos o despotismo poderá reaparecer no mundo: vejo uma multidão imensa de homens parecidos e de igual condição, que giram sem descanso à volta de si próprios em busca de prazeres insignificantes e vulgares com que enchem a alma; cada um, retirado do seu canto, ignora o destino de todos os outros; a espécie humana resume-se, para eles, aos filhos e aos amigos particulares; quanto aos seus outros concidadãos, estão ao seu lado mas nem os vê; toca-os e nem os sente; só existe em si próprio e para si próprio; ainda tem uma família, mas a Pátria já não existe para ele.07/05/2009
Contra a clonagem
Armindo dos Santos Vaz, in Público
06/05/2009
05/05/2009
Argumentos a favor da clonagem
A ideia de que alguém poderia fabricar uma cópia de nós, um gémeo artificial, é repulsiva à partida. Repulsiva, antes de mais, porque não estamos habituados a ela. Depois, porque ela contraria a ideia que fazemos de nós próprios (que se baseia em grande parte na nossa diferença individual); porque ela criaria um ser com o qual partilhamos algo de extremamente íntimo, mas que nos seria completamente estrangeiro; porque sentiríamos essa criação como algo de antinatural e a nossa cultura privilegia o natural em detrimento do artificial; porque se trataria de uma pessoa feita em série, cuja liberdade – ainda que apenas na sua aparência – nos pareceria limitada à partida, sem a poesia do acaso; porque nós e os outros olharíamos para essa pessoa de uma forma diferente, transformando-a através desse simples olhar num monstro.Este é o domínio do pesadelo, o medo do monstro – monstro que, neste caso, teria o horror suplementar de ter a nossa cara.No entanto, na realidade não é disto que se trata. A clonagem não permite criar um ser adulto, à nossa imagem e semelhança. Permite sim – quando muito, se se comprovar que funciona com seres humanos – criar um bebé que será em tudo igual ao bebé que nós fomos. É um gémeo, mas um gémeo de outra geração, com vinte ou quarenta anos de diferença. Para muitos, o horror não diminuirá por esse facto. Mas será que isso é muito diferente de ter um filho? Claro que objectivamente é diferente. Um filho é sempre filho de duas pessoas, cujos patrimónios genéticos foram baralhados para dar origem a uma pessoa original, surpreendente em todos os aspectos. Mas será que não nos poderemos habituar um dia a ver (ter) filhos de um só progenitor, da mesma forma que nos habituámos às famílias monoparentais?No fundo, sendo a educação – como parece cada vez mais – muito mais importante que a herança genética, não estaremos a recusar algo que tem apenas uma importância marginal? Não se falou dos mesmos terrores há vinte anos a propósito dos bebés-proveta? Não se escreveram páginas e páginas sobre o horror e a solidão gelada de ser fertilizado num tubo de ensaio – estéril – em vez de dar os primeiros passos para a vida no seio da sua mãe genética? E, apesar disso, a fertilização in vitro não entrou nos nossos costumes e na nossa cultura sem atritos? (…)Um clone será necessariamente uma outra pessoa, porque a sua idade será diferente, porque a sua gestação, nascimento, educação, serão diferentes, porque a sua experiência será diferente. A sua consciência será diferente porque a sua circunstância, a sua história será diferente. Para mais, tudo o que hoje se sabe sobre o cérebro leva a pensar que é a experiência que molda o cérebro e que cria os padrões a que chamamos pensamento, memória e escolha – e não os genes.
José Vítor Malheiro, Público
04/05/2009
03/05/2009
Argumentos contra a clonagem
Agência Ecclesia - A clonagem será um grande dossier a abrir?
AE - Em ordem à legislação sobre a clonagem.
AE - Por que razão?
AE - Poderemos encontrar aproximações sociais entre a revelação pública do primeiro bebé proveta, em 1978, e, agora, do primeiro clonado?
AE - Assusta também a clonagem terapêutica?
AE - Com a clonagem, a força da vida, o género humano encontra-se de alguma forma ameaçado?
AE - Não vale a pena colocar essa hipótese…
Publicado em http://www.ecclesia.pt/destaque/clonagem/entrevista.htm
02/05/2009
De Deus ao Génio Maligno
Vou supor por consequência, não o Deus sumamente bom, fonte da verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto que pusesse toda a sua indústria em me enganar. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores não são mais do que ilusões de sonhos com que ele arma ciladas à minha credulidade.
01/05/2009
Clonagem humana terapêutica
Dificuldades. São várias. Em primeiro lugar, para obter um “embrião” por este método, são necessárias centenas de tentativas fracassadas, o que exige que muitas mulheres estejam na disposição de fornecerem ingloriamente os seus ovócitos, com o perigo de que se caminhe para o sacrifício injusto da mulher ou para a tão condenada comercialização de gâmetas femininos.Em segundo lugar, os clones de mamíferos até agora obtidos (ovelha Dolly e muitos outros) sofrem de várias doenças e malformações. É de supor que as mesmas deficiências afectem os tecidos obtidos pela clonagem não-reprodutiva, que poderão ter efeitos negativos no paciente.Finalmente, até o próprio “pai” da ovelha Dolly, Ian Wilmut, acha que a técnica de clonagem não-reprodutiva é demasiado complexa e dispendiosa para se aplicar a cada paciente. Será mais viável partir das células estaminais dos muitos embriões que sobram de técnicas de reprodução assistida. Só que, nesse caso, não haverá identidade genética entre essas células e as do paciente, e será preciso ultrapassar o problema da imuno-rejeição.
Perplexidades éticas. Trata-se de, para benefício próprio, interromper e desviar um processo embrionário que poderia dar origem a um ser humano como eu. Sacrifico uma vida humana em embrião, para a transformar num stock de tecidos meus, sobresselentes, que me curem a mim. Soa-me a atroz egoísmo e quase neo-escravatura.Mas mesmo entre os autores que não subscrevem esta objecção, muitos se mostram preocupados com a transformação do estatuto da vida humana incoativa em algo semelhante a uma fábrica de produtos úteis. E essa preocupação aumenta ao constatarem-se as pressões comerciais que impulsionam a investigação em embriões humanos. Pode caminhar-se para a erosão do respeito pela dignidade intrínseca da vida humana.
Melhor alternativa. As células estaminais não existem apenas nos embriões. Encontram-se também, ainda que em menor número, em órgãos do adulto. Há claras indicações de que elas se podem diferenciar in vitro em tecidos vários, diferentes daquele de que são originárias. Esta é uma alternativa válida, contra a qual não há objecções éticas, e em que o paciente é tratado com tecidos obtidos a partir das suas próprias células estaminais, evitando-se assim os problemas de imuno-rejeição. É possível que não seja economicamente tão rentável como a utilização de embriões, e por isso seja preterida, já que o poder económico domina hoje o progresso da ciência.
Luís Archer, Biólogo