31/05/2009

Deus e o Universo



Restantes capítulos: 2, 3, 4, 5, 6.

30/05/2009

FILOSOFIA EXPERIMENTAL [X-PHI]

Os editores do blogue http://filosofiaexperimental.wordpress.com/ solicitaram divulgação do seu espaço na internet:

Estamos lançando um blog sobre filosofia experimental, através do qual esperamos dar a conhecer à comunidade filosófica de língua portuguesa essa área recente de pesquisa, as discussões e controvérsias em torno do tema e em torno dos seus experimentos, assim como divulgar os mais importantes artigos e livros que sejam publicados nesse campo. 
Esperamos que muitos possam contribuir neste blog - não só os que se mostrem genuinamente interessados no tema, como também aqueles que discordem do conceito ou tenham dúvidas quanto à sua relevância. A ideia é mesmo criar uma plataforma de discussão aberta a todos. Nesse sentido, os comentários aos posts são essenciais para dinamizar o debate.
Por enquanto, são colaboradores do blog os seguintes pesquisadores: Paulo Sousa (Queen´s Belfast), Carlos Mauro (UPorto), Joshua Knobe (YALE), Shaun Nichols (Arizona), Susana Cadilha (UPorto) e Thomas Nadelhoffer (Dickinson College).

O blog disponibilizará alguma bibliografia para quem queira prosseguir a sua pesquisa, assim como algumas traduções de textos considerados fundadores do movimento. Qualquer comentário, sugestão ou crítica a qualquer aspecto do blog é naturalmente bem acolhido, e estamos também bastante receptivos a propostas de colaboradores que queiram tornar-se autores do blog. 
  


Filosofia - Nuno Júdice

Construo o meu pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa, é uma parte do
que penso; e ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.

28/05/2009

Pensar com a caneta

Penso de facto com a minha caneta, pois é frequente que a minha cabeça nada saiba sobre o que a minha mão está a escrever.
Wittgenstein, Cultura e valor, Ed. 70, p. 34.

27/05/2009

Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia

"Qualquer contacto com a história da filosofia mostra quão intimamente os seus interesses se fundem com os interesses de áreas que têm outras designações académicas : literatura, física, psicologia, sociologia e teologia. Na verdade, a separação da filosofia como disciplina autónoma pode parecer um produto da administração académica, e não um reflexo de uma divisão clara entre usar um conceito e pensar sobre ele. Senti-me por isso livre para introduzir a terminologia de outras ciências, sempre que essa terminologia estivesse fortemente implantada na discussão filosófica. Por exemplo, ao estudar o problema ético do aborto na literatura filosófica contemporânea, pode deparar-se a alguém uma menção casual aos zigotos e à miose, com tanta certeza como pode deparar-se-lhe a doutrina do efeito duplo ou a doutrina dos actos/omissões. Alguém interessado na realidade física pode precisar de saber o conteúdo do teorema de Bell, ou em que consiste a experiência mental de Einstein-Podolsky-Rosen : neste, como noutros casos, tentei ajudar o leitor. Tentei igualmente ser generoso com pensadores de áreas e tradições vizinhas, se bem que exista inevitavelmente um certo grau de arbitrariedade. Addison, Blake e Pope foram provavelmente pensadores filosóficos tão significativos quanto muitos dos estudiosos incluídos, mas foram excluídos; em contrapartida, Carlyle, Coleridge e Dante foram incluídos. Procurei sobretudo incluir os grandes cientistas cujo trabalho provocou grandes mudanças na filosofia : Boyle e Faraday, tal como Galileu, Newton, Darwin e Einstein."


Críticas e recensões:

26/05/2009

O problema do sentido da vida e os problemas da lógica

Se alguém pensa ter encontrado a solução do problema da vida e se sente disposto a dizer a si próprio que agora tudo é muito fácil, basta-lhe, para ver que está enganado, recordar-se de uma época em que tal «situação» ainda não havia sido descoberta; teria sido também possível viver nessa altura, e a solução agora encontrada pareceria fortuita relativamente a esse tempo. O mesmo se passa com o estudo da lógica. Se existisse uma «solução» para os problemas da lógica (filosófica), necessitaríamos apenas de ter em conta que houve um tempo em que eles não estavam ainda resolvidos ( e que também então as pessoas sabiam viver e pensar)
Wittgenstein, Cultura e valor, Ed. 70, pp. 16, 17.

24/05/2009

Problemas científicos e filosóficos

Popper (...) defende a existência de problemas não só científicos como filosóficos. (...)
Mais do que adjectivar problemas, o que é efectivamente importante é considerar a ciência e a filosofia como dois modos - certamente muito diferentes - de tentar resolver problemas; a ciência atravês da arriscada exposição à falsificabilidade, a filosofia atravês da discussão racional, argumentada, do criticismo. Trata-se assim de uma nova fronteira entre saberes que são, através de modalidades de trabalho diversas, perfectíveis, e saberes que não o são.
Manuel M. Carrilho, Itinerários da racionalidade, D. Quixote, p. 45.

22/05/2009

Progresso da ciência

O método científico não é cumulativo; é fundamentalmente revolucionário. O progresso científico consiste essencialmente na substituição de antigas teorias por teorias mais recentes. Estas novas teorias deverão ser capazes de resolver todos os problemas que as antigas teorias resolveram e de os resolver pelo menos tão bem como aquelas. Assim a teoria de Einstein resolve o problema do movimento planetário e da macromecânica em geral, pelo menos tão bem como, e talvez melhor do que, a teoria de Newton. Mas a teoria revolucionária parte de novos pressupostos, e nas suas conclusões vai além de, e contradiz directamente, a antiga teoria. Esta contradição permite-lhe elaborar experiências que possam distinguir a velha teoria da nova, mas apenas no sentido em que podem falibilizar pelo menos uma das duas teorias. Na verdade, as experiências podem provar a superioridade da teoria sobrevivente, mas não a sua verdade; e a teoria sobrevivente pode, por seu turno, ser rapidamente ultrapassada.
Popper, A vida é aprendizagem, tr. Paula Taipas, Ed. 70, p. 27.

20/05/2009

O conhecimento científico é objectivo

Normalmente pensa-se no conhecimento como um estado subjectivo ou mental. Partindo da forma verbal «Eu sei» explicamos o conhecimento como uma certa forma de crença – isto é, uma espécie de crença que assenta em razões suficientes. Esta interpretação subjectiva da palavra «conhecimento» teve uma influência demasiado forte na antiga teoria da ciência. Na realidade, é completamente inútil para uma teoria da ciência, porque o conhecimento científico consiste em proposições objectivas formuladas por meio do discurso, em hipóteses e problemas, e não em expectativas ou convicções subjectivas.
A ciência é um produto da mente humana, mas esse produto é tão objectivo como uma catedral. (…) Como os filósofos Bernard Bolzano e Gottlob Frege salientaram com particular acuidade, devemos distinguir o processo de pensamento subjectivo do conteúdo lógico ou informativo de um pensamento.
Popper, A vida é aprendizagem, tr. Paula Taipas, Ed. 70, pp. 23, 24.

19/05/2009

Pela clonagem

A ideia de que alguém poderia fabricar uma cópia de nós, um gémeo artificial, é repulsiva à partida. Repulsiva, antes de mais, porque não estamos habituados a ela. Depois, porque ela contraria a ideia que fazemos de nós próprios (que se baseia em grande parte na nossa diferença individual); porque ela criaria um ser com o qual partilhamos algo de extremamente íntimo, mas que nos seria completamente estrangeiro; porque sentiríamos essa criação como algo de antinatural e a nossa cultura privilegia o natural em detrimento do artificial; porque se trataria de uma pessoa feita em série, cuja liberdade – ainda que apenas na sua aparência – nos pareceria limitada à partida, sem a poesia do acaso; porque nós e os outros olharíamos para essa pessoa de uma forma diferente, transformando-a através desse simples olhar num monstro.
Este é o domínio do pesadelo, o medo do monstro – monstro que, neste caso, teria o horror suplementar de ter a nossa cara.
No entanto, na realidade não é disto que se trata. A clonagem não permite criar um ser adulto, à nossa imagem e semelhança. Permite sim – quando muito, se se comprovar que funciona com seres humanos – criar um bebé que será em tudo igual ao bebé que nós fomos. É um gémeo, mas um gémeo de outra geração, com vinte ou quarenta anos de diferença. Para muitos, o horror não diminuirá por esse facto. Mas será que isso é muito diferente de ter um filho? Claro que objectivamente é diferente. Um filho é sempre filho de duas pessoas, cujos patrimónios genéticos foram baralhados para dar origem a uma pessoa original, surpreendente em todos os aspectos. Mas será que não nos poderemos habituar um dia a ver (ter) filhos de um só progenitor, da mesma forma que nos habituámos às famílias monoparentais?No fundo, sendo a educação – como parece cada vez mais – muito mais importante que a herança genética, não estaremos a recusar algo que tem apenas uma importância marginal? Não se falou dos mesmos terrores há vinte anos a propósito dos bebés-proveta? Não se escreveram páginas e páginas sobre o horror e a solidão gelada de ser fertilizado num tubo de ensaio – estéril – em vez de dar os primeiros passos para a vida no seio da sua mãe genética? E, apesar disso, a fertilização in vitro não entrou nos nossos costumes e na nossa cultura sem atritos? (…)
Um clone será necessariamente uma outra pessoa, porque a sua idade será diferente, porque a sua gestação, nascimento, educação, serão diferentes, porque a sua experiência será diferente. A sua consciência será diferente porque a sua circunstância, a sua história será diferente. Para mais, tudo o que hoje se sabe sobre o cérebro leva a pensar que é a experiência que molda o cérebro e que cria os padrões a que chamamos pensamento, memória e escolha – e não os genes.


José Vítor Malheiro, Público
Para saber mais: clonagem

18/05/2009

Individualismo e egoísmo

O individualismo é uma expressão recente, que corresponde a uma ideia nova. O que os nossos antepassados conheceram foi o egoísmo.
O egoísmo é uma admiração intensa e exagerada por si próprio que leva o homem a tomar-se como único ponto de referência, e a preferir os seus interesses.
O individualismo é um sentimento consciente e tranquilo, que leva cada cidadão a isolar-se da massa dos seus semelhantes, e a afastar-se, com a família e os amigos. O homem constitui assim à sua volta uma pequena sociedade, para seu uso, e deixa voluntariamente de se interessar pela grande sociedade propriamente dita.
O egoísmo tem origem num instinto cego; o individualismo provém mais de um juízo errado do que dum sentimento adulterado. As suas raízes encontram-se tanto nos defeitos do espírito como nos do coração…
O egoísmo seca o gérmen de todas as virtudes; o individualismo apenas extingue a fonte das virtudes públicas; mas à distância, ataca e destrói todas as demais e funde-se enfim com o egoísmo.
O egoísmo é um defeito tão antigo como o mundo. Não é mais característico de uma forma de sociedade do que de outra.
O individualismo é de origem democrática, e ameaça desenvolver-se, à medida que as condições sociais se tornam iguais.
Tocqueville, Da democracia na América, Rés Editora, pp. 323, 324.
Imagem: Honore Daumier

17/05/2009

Clonagem: o que são embriões híbridos?

O professor catedrático Alberto Barros vê na hipótese de investigar em embriões híbridos um avanço e diz que as doenças exigem um combate sem tréguas.
“As técnicas de procriação medicamente assistida não podem ser utilizadas com o objectivo de originarem [embriões] híbridos”, define a lei portuguesa, que prevê pena de prisão de um a cinco anos para quem infrinja a proibição. A possibilidade aberta pela lei inglesa, de juntar material biológico animal e humano, criando embriões híbridos, divide opiniões em Portugal. Entre os especialistas há quem diga que se deu um passo perigoso e quem defenda que só com novas técnicas a ciência progride.

Um percurso iniciado em 1996 com a clonagem da ovelha Dolly
Cíbridos
São embriões obtidos através da mesma técnica que permitiu clonar a ovelha Dolly (na foto), dita de “transferência nuclear de células somáticas” (SCNT). Mais precisamente, um célula humana é fundida com um ovócito animal ao qual foi previamente retirado o seu núcleo (que contém 99,9 por cento do ADN do animal). O “cíbrido” resultante tem 99,9 por cento de ADN humano e 0,1 por cento de ADN animal (uma vez que as mitocôndrias, as “baterias” da célula, provêm do ovócito animal e contêm uma pequena quantidade de ADN). É neste tipo de embriões que os cientistas esperam recolher as células estaminais embrionárias humanas para estudar graves doenças hoje sem tratamento nem cura e desenvolver novos medicamentos contra elas (ou mesmo, um dia, órgãos artificiais cultivados em laboratório que possam ser implantados em doentes).

Embriões humanos transgénicos
São embriões humanos nos quais é injectado ADN animal. O inverso - embriões animais (sobretudo de ratinho) onde são injectados genes humanos para obter modelos animais de doenças - é uma prática corrente há anos. No âmbito da nova lei, porém, sendo humano o embrião, não será permitido o seu desenvolvimento para além de 14 dias, nem a sua implantação no útero de uma mulher ou de um animal.

Quimeras humanas
São embriões humanos nos quais são introduzidas algumas células animais. As quimeras animais, em que algumas células humanas são introduzidas em embriões de animais, já são utilizadas na investigação científica.

Híbridos verdadeiros
São embriões obtidos por cruzamento de gâmetas humanos - ou seja, de espermatozóides ou ovócitos - com gâmetas animais. A criação deste tipo de híbridos já foi autorizada no Reino Unido, com esperma humano e ovócitos de hamster, para determinar a qualidade do esperma humano - e na Austrália, a lei também permite a atribuição de licenças para o mesmo fim. Até agora, a lei britânica apenas permitia o seu desenvolvimento até ao segundo dia; a nova lei prolonga o prazo para 14 dias.

A.G.

Publicado originalmente no jornal Público, sem link, a 25 de Maio de 2008
Para saber mais: clonagem

15/05/2009

Potenciais riscos da clonagem humana

  • A possibilidade de comprometer a individualidade;
  • A perda de variabilidade genética;
  • Envelhecimento precoce;
  • Grande número de anomalias;
  • Lesões hepáticas, tumores, baixa imunidade;
  • Um mercado negro de fetos pode surgir, de doadores ‘’desejáveis’’ que queiram clonar-se a eles próprios, como estrelas de cinema, atletas entre outros;
  • A tecnologia não está ainda bem desenvolvida, tendo uma baixa taxa de fertilidade (para clonar a Dolly foram precisos 277 ovos, 30 começaram a dividir-se, 9 induziram a gravidez e apenas 1 sobreviveu);
  • Os clones poderão ser alvo de discriminação por parte da sociedade;
  • Os clones poderão estar sujeitos a problemas psicológicos desconhecidos, com impacto na família e na sociedade.
Publicado em
Para saber mais: clonagem

11/05/2009

Clonagem de primatas


Chama-se Semos, como o deus-macaco da versão mais recente do filme Planeta dos Macacos. Mas não é ficção científica: é um macaco Rhesus que vive no Centro Nacional de Investigação dos Primatas, no Oregon (EUA), e cujas células cutâneas serviram para clonar, pela primeira vez, embriões de macacos.
A partir desses embriões, Shoukhrat Mitalipov e os seus colegas geraram duas linhas de células estaminais embrionárias (CEE), que são capazes de originar todos os tecidos do organismo e cujas potencialidades terapêuticas podem ser imensas. Os resultados foram ontem divulgados on-line pela Nature e serão publicados a 22 Novembro.
Até agora, ninguém tinha conseguido semelhante feito num primata. Já tinha havido várias “falsas partidas”, tanto no macaco como no homem. Uma delas, aliás, revelar-se-ia fraudulenta, com cientistas sul-coreanos a anunciarem, em 2004, que tinham clonado embriões humanos e extraído daí linhagens de CEE humanas.
De facto, instalou-se um grande pessimismo nos anos que se seguiram ao nascimento de Dolly, em 1997. A tal ponto que, em 2003, Gerald Schatten, da Universidade de Pittsburgh, declarou, após 716 tentativas de clonar um primata, que isso talvez não fosse possível. “Com os métodos actuais”, disse, “a produção de CEE [clonagem terapêutica] em primatas não-humanos pode revelar-se difícil - e a clonagem reprodutiva impossível”.
Ao passo que a clonagem terapêutica consiste em obter CEE a partir de embriões clonados que são a seguir descartados, a clonagem reprodutiva visa a implantação dos embriões no útero de fêmeas, para obter crias. A possibilidade de se fazer o mesmo no ser humano tem suscitado grandes preocupações.
Dez anos de esforços
A equipa de Mitalipov estava há 10 anos a tentar a clonagem reprodutiva de primatas e, nesse processo, utilizaram 15 mil ovócitos. Em vão. Conta a nature.com que, “quando souberam que os resultados da Coreia do Sul eram fraudulentos, decidiram dedicar-se à clonagem terapêutica”.
Mas tiveram de modificar a técnica da Dolly, dita de “transferência nuclear de células somáticas”, porque havia qualquer coisa que não resultava com os primatas. A técnica de base consiste em colher células do corpo de animais adultos, introduzi-las em ovócitos de fêmeas previamente esvaziados do seu ADN e em fundir as duas células, dando origem a um embrião geneticamente idêntico ao doador das células adultas.
Os cientistas explicam as diferenças que introduziram: luz polarizada para ver o ADN do ovócito em vez de luz ultravioleta ou um pigmento especial, como acontece na técnica convencional; e uma solução de nutrientes que permite controlar melhor a activação dos ovócitos pelos genes da célula do doador adulto - que, neste caso, eram as células da pele do macaco Semos, com 9 anos de idade. A eficiência do novo processo é ainda muito reduzida - foram precisos 150 ovócitos para gerar cada linhagem de CEE -, mas funcionou. Todavia, nada foi anunciado antes de outra equipa ter confirmado os resultados.
Numa inédita decisão, os editores da Nature resolveram ter a certeza absoluta de que não estavam perante mais um falso alarme. Por isso, o artigo principal é acompanhado por outro, da autoria de David Cram e colegas da Universidade de Monash, na Austrália, que confirma que as CEE obtidas nos EUA provêm efectivamente de embriões clonados por transferência nuclear - e não foram obtidos por fertilização in vitro convencional ou partenogénese (formação de um embrião por divisão, sem fecundação).
Ruth Francis, da Nature, disse ao PÚBLICO que isto tinha sido feito “dada a importância das implicações dos resultados para a investigação médica e para a história na área da clonagem”, acrescentando que “tais verificações não devem ser vistas como uma marca de desconfiança em relação aos cientistas, mas como uma maneira directa de resolver logo as questões que iriam ser levantadas quanto à veracidade das experiências”.
As CEE obtidas parecem ser em tudo idênticas às CEE naturais. Em particular, explicou ontem Mitalipov numa conferência telefónica, já conseguiram transformá-las, in vitro, em células cardíacas e em neurónios. “E, quando as injectamos em ratinhos, elas formam tumores que indicam que podem, de facto, dar origem a todos os tecidos do organismo.”
Os cientistas querem melhorar a eficiência da técnica: “Seria bom utilizar apenas cinco a dez ovócitos para obter uma linhagem de CEE”, diz Mitalipov. Mas o objectivo principal é utilizar os macacos Rhesus como modelo animal para testar aplicações das CEE em medicina humana, “por exemplo, na diabetes”.
150 ovócitos foram necessários para gerar uma linhagem de células estaminais embrionárias
No domingo, a Universidade das Nações Unidas (UNU), um centro de estudo internacional com sede em Tóquio, no Japão, divulgou um parecer sobre a atitude que o mundo deveria adoptar face à clonagem humana. O parecer concluía que, entre as hipóteses que se colocam à comunidade internacional, a mais viável do ponto de vista político seria a proibição global da clonagem reprodutiva humana, aliada à liberdade de cada nação permitir a investigação em clonagem terapêutica, mas em moldes estritamente controlados. Basicamente, é este o sistema que vigora actualmente no Reino Unido. “Se não formos capazes de ilegalizar a clonagem reprodutiva, isso significa que, mais tarde ou mais cedo, vamos partilhar o planeta com indivíduos clonados”, declarou Brendan Tobin, advogado do Centro Irlandês dos Direitos Humanos e um dos co-autores do documento, citado por um comunicado da UNU, acrescentando que, se isso acontecer, tonar-se-á indispensável garantir a protecção dos seus direitos.
Para saber mais: clonagem

09/05/2009

A clonagem nos seres humanos

Os avanços da ciência no conhecimento da transmissão da vida permitiram lançar luz numa área que tem despertado um enorme interesse nas duas últimas centenas de anos. No final do Séc. XIX os conhecimentos facultados pelos trabalhos desenvolvidos por Pasteur e pelos seus continuadores sobre a origem dos seres vivos tiveram um enorme impacto no seu tempo, despertando animosidades em muitos sectores. Foi necessário muito mais de um século para dominar com algum êxito os principais mecanismos da transmissão da vida humana. Um século no desenvolvimento da ciência actual é um período muitíssimo longo. Este lapso de tempo dá uma ideia da complexidade dos mecanismos da transmissão da vida.
A ciência parece indicar que o aperfeiçoamento da transmissão da vida nas espécies vegetais e animais resultou de múltiplas tentativas. Isto é, as alterações na informação genética que foram transmitidas aos descendentes originaram novas características nos seres vivos: uns melhoraram e outros pioraram a sua adaptação ao ambiente. A competição biológica conduziu, necessariamente, à selecção dos organismos mais aperfeiçoados que puderam então reproduzir-se utilizando com maior rendimento os meios que a natureza colocou no espaço em que habitavam. A “força da vida” é tal que permitiu a existência de um número incontável de espécies adaptadas a condições de vida extremamente hostis.
Um dos mecanismos que as formas superiores de vida utilizam para a sua adaptação ao ambiente é o da reprodução sexuada. A clonagem, ou dito de outro modo, a reprodução assexuada é um método próprio dos organismos constituídos por uma única ou por um escasso número de células, por via de regra absolutamente dependentes do meio onde vivem e muito vulneráveis às suas modificações. Todos os seres vivos superiores utilizam a reprodução sexuada. No mundo vegetal, a reprodução por estaca, bem conhecida desde tempos de que não há memória, é uma forma de reprodução artificial por clonagem utilizada quando se quer fazer réplicas de um ser vivo vegetal num ambiente ao qual se encontra excelentemente adaptado. A reprodução sexuada, por outro lado, permite mecanismos muito mais poderosos de adaptação devido à possibilidade de recombinação dos genes, facultando uma descendência com características diversificadas, que as inúmeras gerações e a selecção natural foram aperfeiçoando durante milhões de anos. A leitura da informação contida nos cromossomas humanos permitirá certamente a mais correcta história da vida na terra.
Nos últimos anos houve múltiplas referências nas publicações científicas à possibilidade de reprodução por clonagem nos mamíferos superiores. Muitas demonstraram que as células que melhor suportam a troca do seu núcleo natural por outro da mesma espécie, mantendo a sua viabilidade, são as células precursoras da célula sexual feminina - os ovocitos. A técnica mais praticada consiste em retirar o núcleo destas células (contendo apenas a metade feminina dos cromossomas) e substituí-lo pelo núcleo de uma célula de um indivíduo adulto da mesma espécie. O novo ser assim criado terá a mesma informação genética do indivíduo de onde o núcleo celular foi retirado. Isto é, o organismo desenvolvido será um gémeo verdadeiro do dador do núcleo celular. Em resumo, para praticar a técnica da clonagem mais usada num mamífero (como na espécie humana) serão necessárias uma célula viável retirada de um ovário, uma outra célula adulta de um outro ou do mesmo organismo à qual será retirado o núcleo a transplantar e um útero onde o pequenino ser se poderá desenvolver até poder ter a autonomia própria da espécie.
Todas estas tentativas de clonagem dos organismos superiores são experimentais, apenas menos de uma em cada cem experiências tentadas resultaram na criação de um indivíduo desenvolvido, muitas terminando em abortamentos espontâneos ou em seres vivos com deficiências orgânicas múltiplas. Admite-se que uma causa importante para esta vulnerabilidade resulte do facto do material genético retirado do organismo adulto ter perdido algumas das suas características potenciais de diferenciação, nomeadamente a possibilidade da inibição de muitos genes ocorrida no processo de formação dos órgãos do indivíduo adulto. Estas experiências apenas são possíveis num ambiente tecnológico muito evoluído exigindo um grande investimento financeiro e o concurso de especialistas que são relativamente raros nestes domínios científicos.
A clonagem reprodutora humana não é, portanto, uma novidade científica. É possível a clonagem de células humanas com material genético clonante proveniente de outro ou do mesmo ser humano com o objectivo de produzir um embrião viável através da utilização de um útero de uma mãe hospedeira (que um dia se poderá eventualmente demonstrar que poderá ser a própria dadora do material genético). Este tipo de intervenção não tem nenhum interesse científico e não tem qualquer suporte ético, sendo, portanto, uma experiência interdita. Representaria a máxima subordinação de um futuro ser humano a um capricho ou a uma obsessão de alguém, visto que estaria impressa em todas as suas células uma matriz biológica intencionalmente condicionada, provavelmente mais frágil e mais vulnerável, características que são transmissíveis à sua descendência.
A clonagem reprodutora humana foi explicitamente banida na legislação de muitos países, apesar de algumas vozes publicamente declararem a capacidade e a intenção de ultrapassar a condenação de tal prática. No nosso país, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida manifestou-se formalmente contra a clonagem reprodutora humana e a Assembleia da República acolheu o seu parecer. Portugal ratificou a Convenção dos Direitos Humanos e da Biomedicina do Conselho da Europa (Convenção de Oviedo) e também um protocolo adicional específico sobre clonagem humana reprodutiva, que formalmente proíbem tais actividades. É obrigação de cada país membro do Conselho da Europa produzir legislação que faça a regulamentação do diploma, o que ainda não ocorreu em Portugal, constituindo este facto uma grave deficiência nas leis do nosso país.
Surgem agora, ruidosamente e como factos consumados, as notícias da clonagem de seres humanos. Rumores de várias origens ocorriam às agências noticiosas. A comunidade científica tomou conhecimento, recentemente, de uma comunicação formal aos media partindo de uma bioquímica sem credenciais reconhecidas nestes domínios, contando o nascimento por cesariana de um bebé do sexo feminino obtido por clonagem a partir de um ovocito humano e de um núcleo de uma célula da pele. A mistura parece explosiva: uma seita religiosa, um conjunto de pessoas de ciência sem credenciais firmadas e uma empresa comercial que quer expandir o seu espaço de intervenção. Não sabemos se a notícia é verdadeira, visto que a documentação só será possível dentro de dias. Exactamente na altura em que um pequeno ser humano, uma nossa irmã, se for verdadeira a história que alguns contam, poderá começar uma vida difícil e penosa nas luzes da ribalta.

Alexandre Laureano Santos
Grupo Consultores CECS
Para saber mais: clonagem

08/05/2009

Despotismo do futuro

Procuro imaginar com que novos aspectos o despotismo poderá reaparecer no mundo: vejo uma multidão imensa de homens parecidos e de igual condição, que giram sem descanso à volta de si próprios em busca de prazeres insignificantes e vulgares com que enchem a alma; cada um, retirado do seu canto, ignora o destino de todos os outros; a espécie humana resume-se, para eles, aos filhos e aos amigos particulares; quanto aos seus outros concidadãos, estão ao seu lado mas nem os vê; toca-os e nem os sente; só existe em si próprio e para si próprio; ainda tem uma família, mas a Pátria já não existe para ele.
Acima desta vasta multidão, ergue-se um poder imenso e tutelar que se encarrega, sem a ajuda de ninguém, de organizar os divertimentos e os prazeres de todos, e de velar pelo seu destino. É um poder absoluto, pormenorizado, ordenado, previdente e doce. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse como objectivo preparar os homens para a idade adulta; mas, pelo contrário, o seu objectivo é mantê-los irrevogavelmente na infância. (…) Ser-lhe-á possível poupar completamente aos homens o trabalho de pensar e a dificuldade de viver?
Tocqueville, Da democracia na América, Rés Editora, pp.410, 411.

07/05/2009

Contra a clonagem

Sou, em princípio, contrário à clonagem porque estão elevados valores humanos em causa. Primeiro, a reprodução idêntica de uma pessoa a partir de outra, mediante manipulação genética, constituiria um empobrecimento da diversidade humana: passaríamos a ser todos iguais num igualitarismo redutor. Segundo, a clonagem seria uma manipulação grosseira das fontes da vida humana. Atentaria contra o que é pressuposto básico na geração de vida humana: o amor afectivo. A clonagem seria reprodução assexuada, de laboratório, fora do calor humano de uma relação homem-mulher e fora do contexto familiar que acolhe e educa o novo ser humano gerado como próprio, isto é, de um homem e mulher que se amam e estabelecem o ambiente para que o fruto das suas entranhas seja amado. Pela clonagem foge-se à dignificante função de ser pai e mãe: em realidade não haveria pai.Terceiro, logo a clonagem não é humana, ao contrário, é desumanizadora e despersonalizante; não respeita o ideal moral da reprodução da vida humana através da sexualidade Quarto, além do mais, pela fé, ou seja, como forma de elevarmos à mais alta dignidade a vida humana, dizemos que o ser humano, através da sua dimensão sexual, é gerador de vida humana enquanto colaborador de Deus criador. Ora, esse valor teológico da relação homem-mulher desapareceria mediante a reprodução por clonagem. Concluindo, só nos animais, em certos casos rigorosamente regulamentados em função do melhoramento da vida humana, se poderia praticar a clonagem. Por exemplo, para obter uma lã que não se consegue senão num clima habitado pela ovelha donde se reproduz o seu igual ou para conseguir ter um certo animal necessário noutro ambiente onde ele não se poderia reproduzir naturalmente.

Armindo dos Santos Vaz, in Público
Para saber mais: clonagem

05/05/2009

Argumentos a favor da clonagem


A ideia de que alguém poderia fabricar uma cópia de nós, um gémeo artificial, é repulsiva à partida. Repulsiva, antes de mais, porque não estamos habituados a ela. Depois, porque ela contraria a ideia que fazemos de nós próprios (que se baseia em grande parte na nossa diferença individual); porque ela criaria um ser com o qual partilhamos algo de extremamente íntimo, mas que nos seria completamente estrangeiro; porque sentiríamos essa criação como algo de antinatural e a nossa cultura privilegia o natural em detrimento do artificial; porque se trataria de uma pessoa feita em série, cuja liberdade – ainda que apenas na sua aparência – nos pareceria limitada à partida, sem a poesia do acaso; porque nós e os outros olharíamos para essa pessoa de uma forma diferente, transformando-a através desse simples olhar num monstro.Este é o domínio do pesadelo, o medo do monstro – monstro que, neste caso, teria o horror suplementar de ter a nossa cara.No entanto, na realidade não é disto que se trata. A clonagem não permite criar um ser adulto, à nossa imagem e semelhança. Permite sim – quando muito, se se comprovar que funciona com seres humanos – criar um bebé que será em tudo igual ao bebé que nós fomos. É um gémeo, mas um gémeo de outra geração, com vinte ou quarenta anos de diferença. Para muitos, o horror não diminuirá por esse facto. Mas será que isso é muito diferente de ter um filho? Claro que objectivamente é diferente. Um filho é sempre filho de duas pessoas, cujos patrimónios genéticos foram baralhados para dar origem a uma pessoa original, surpreendente em todos os aspectos. Mas será que não nos poderemos habituar um dia a ver (ter) filhos de um só progenitor, da mesma forma que nos habituámos às famílias monoparentais?No fundo, sendo a educação – como parece cada vez mais – muito mais importante que a herança genética, não estaremos a recusar algo que tem apenas uma importância marginal? Não se falou dos mesmos terrores há vinte anos a propósito dos bebés-proveta? Não se escreveram páginas e páginas sobre o horror e a solidão gelada de ser fertilizado num tubo de ensaio – estéril – em vez de dar os primeiros passos para a vida no seio da sua mãe genética? E, apesar disso, a fertilização in vitro não entrou nos nossos costumes e na nossa cultura sem atritos? (…)Um clone será necessariamente uma outra pessoa, porque a sua idade será diferente, porque a sua gestação, nascimento, educação, serão diferentes, porque a sua experiência será diferente. A sua consciência será diferente porque a sua circunstância, a sua história será diferente. Para mais, tudo o que hoje se sabe sobre o cérebro leva a pensar que é a experiência que molda o cérebro e que cria os padrões a que chamamos pensamento, memória e escolha – e não os genes.

José Vítor Malheiro, Público

03/05/2009

Argumentos contra a clonagem

Paula Martinho da Silva é uma mulher do Direito, mas com gosto pelas “áreas que fogem ao direito tradicional”. A ausência do direito sobre a reprodução medicamente assistida apaixonou-a pela bioética. Agora, foi nomeada Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, do qual já fez parte em dois mandatos. A clonagem está, agora, na ordem do dia.

Agência Ecclesia - A clonagem será um grande dossier a abrir?
Paula Martinho da Silva - Penso que sim. Esta matéria está hoje numa fase de efervescência (apesar do Conselho Nacional de Ética ter já dado um parecer precisamente sobre a clonagem). Com a actualização científica desta questão é provável que seja solicitado um parecer.

AE - Em ordem à legislação sobre a clonagem.
PMS - Portugal já subscreveu e ratificou o protocolo do Conselho da Europa que proíbe a clonagem. É agora necessário prever as sanções penais para quem viole essas disposições.Essa regulamentação será legislada e, provavelmente, outra (aí está a incógnita) uma vez que o protocolo apenas se refere à clonagem reprodutiva. Há toda uma área relativa à clonagem terapêutica e interligada com a investigação de embriões que poderá ser objecto de legislação. Eu penso até que a clonagem não é a questão mais importante sobre a qual deve ser legislada. É importante que exista um instrumento internacional que proíba a clonagem reprodutiva e comecemos a discutir as questões relacionadas com a clonagem dita terapêutica. Em Portugal, no entanto, um diploma sobre reprodução medicamente assistida e sobre a reprodução de embriões é, no meu ponto de vista, muito mais importante.

AE - Por que razão?
PMS - Em Portugal as técnicas de reprodução medicamente assistida já são praticadas há muito tempo e não estão regulamentadas, não estão previstas na lei. Não estou a dizer que existe má prática… Mas não sabemos que tipo de prática existe, não foram estabelecidos os limites: sabemos que existem embriões congelados e não há legislação que preveja a sua utilização.

AE - Poderemos encontrar aproximações sociais entre a revelação pública do primeiro bebé proveta, em 1978, e, agora, do primeiro clonado?
PMS - Existem dois factores que, por um lado assustam e, por outro, atraem.Tudo o que é novo assusta um pouco. Assusta-nos o facto de estarmos a tocar na vida, a manipular algo que, pelo menos até ao nascimento do primeiro bebé proveta, era uma questão que não se colocava. O processo natural regulava a prática por si só. Assim, tudo o que seja alterar qualquer coisa relacionada com a concepção do ser humano assusta-nos sempre um pouco. Mas, por outro lado, tudo o que é progresso científico tem algo atraente: é novo, traz esperança e todas as questões relacionadas com as questões do ser humano (nomeadamente os transplantes), trazem-nos esperança em tratamento e cura, mesmo que isso depois não se concretize. Há sempre muita esperança em tudo o que a ciência nos traz de novo, bom e também com as suas consequências perversas.A clonagem assusta-nos mais do que atrai. Ou seja, o facto de se falar que podem existir seres humanos idênticos fere com as sensibilidades. Não se trata de desejar ter um filho e não poder pelos meios naturais (que é o que se passa com a reprodução medicamente assistida), mas sim querer um filho e mais qualquer coisa: com determinadas características ou à semelhança de outro que já não existe… É uma objectivo que foge completamente do âmbito de uma reprodução medicamente assistida tradicional

AE - Assusta também a clonagem terapêutica?
PMS - A clonagem terapêutica assusta no sentido de que deixa uma porta aberta para a clonagem reprodutiva.Temos de parar para pensar, para reflectir sobre os riscos e benefícios, sem rejeitar à partida como rejeitamos a clonagem reprodutiva.

AE - Com a clonagem, a força da vida, o género humano encontra-se de alguma forma ameaçado?
PMS - Eu não tenho a percepção que a clonagem reprodutiva seja uma prática do futuro. É uma prática que não é interessante…

AE - Não vale a pena colocar essa hipótese…
PMS - Temos que colocar as hipóteses porque elas são possíveis… Eu acho é que não pode ser colocada com uma grande angústia. Do ponto de vista científico é uma técnica que não tem interesse, caríssima e muito custosa. A taxa de êxito, relativamente aos animais, é de 1%. É muito difícil. Eu acho que o ser humano não tem interesse na clonagem reprodutiva, a não ser casos atípicos…Eu não ponho o acento tónico no nosso futuro destruído pela ausência de seres únicos. Eu acho que vamos continuar a ser únicos e irrepetíveis, como fomos até aqui.

Publicado em http://www.ecclesia.pt/destaque/clonagem/entrevista.htm

02/05/2009

De Deus ao Génio Maligno

Está gravada no meu espírito uma velha crença, segundo a qual existe um Deus que pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas quem me garante que ele não procedeu de modo que não houvesse nem terra, nem céu, nem corpos extensos, nem figura, nem grandeza, nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como agora? (…) Porventura Deus não quis que eu me enganasse deste modo, ele que dizem que é sumamente bom (…).
Vou supor por consequência, não o Deus sumamente bom, fonte da verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto que pusesse toda a sua indústria em me enganar. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores não são mais do que ilusões de sonhos com que ele arma ciladas à minha credulidade.
Descartes, Meditações metafísicas, tr. Gustava de Fraga, Almedina, p.110-114.

01/05/2009

Clonagem humana terapêutica

De que se trata? A clonagem não-reprodutiva com finalidade terapêutica começa, tal como a clonagem reprodutiva, pela transferência do núcleo de uma célula somática (isto é, não sexual) de um adulto para um ovócito (ou óvulo) a que previamente se havia extraído o seu núcleo.Se esse ovócito transnucleado entrar em divisão celular e originar um “embrião”, este, em vez de ser transferido para o útero de uma mulher (como na clonagem reprodutiva), será desenvolvido in vitro até à fase de blastocisto com cerca de centena e meia de células, para se extrairem então, do seu interior, umas células especiais chamadas estaminais (stem cells). Estas são ainda suficientemente indiferenciadas. Em determinados meios podem multiplicar-se in vitro indefinidamente, mantendo a sua indiferenciação.Mas, cultivadas noutros meios, podem diferenciar-se in vitro de modo a produzirem, à imitação do que sucede in vivo, os vários tecidos do adulto (tecido nervoso, muscular, cartilagíneo, ósseo, etc.) que são então transplantados para o dador do núcleo com a esperança de o curar de doenças como Alzheimer, Parkinson, imunodeficiências primárias, afecções de ossos ou cartilagens, paraplegias, cancro e muitas outras. Nestas transplantações não haverá o problema de imuno-rejeição, visto haver identidade genética entre os tecidos do dador e os do receptor.
Dificuldades. São várias. Em primeiro lugar, para obter um “embrião” por este método, são necessárias centenas de tentativas fracassadas, o que exige que muitas mulheres estejam na disposição de fornecerem ingloriamente os seus ovócitos, com o perigo de que se caminhe para o sacrifício injusto da mulher ou para a tão condenada comercialização de gâmetas femininos.Em segundo lugar, os clones de mamíferos até agora obtidos (ovelha Dolly e muitos outros) sofrem de várias doenças e malformações. É de supor que as mesmas deficiências afectem os tecidos obtidos pela clonagem não-reprodutiva, que poderão ter efeitos negativos no paciente.Finalmente, até o próprio “pai” da ovelha Dolly, Ian Wilmut, acha que a técnica de clonagem não-reprodutiva é demasiado complexa e dispendiosa para se aplicar a cada paciente. Será mais viável partir das células estaminais dos muitos embriões que sobram de técnicas de reprodução assistida. Só que, nesse caso, não haverá identidade genética entre essas células e as do paciente, e será preciso ultrapassar o problema da imuno-rejeição.
Perplexidades éticas. Trata-se de, para benefício próprio, interromper e desviar um processo embrionário que poderia dar origem a um ser humano como eu. Sacrifico uma vida humana em embrião, para a transformar num stock de tecidos meus, sobresselentes, que me curem a mim. Soa-me a atroz egoísmo e quase neo-escravatura.Mas mesmo entre os autores que não subscrevem esta objecção, muitos se mostram preocupados com a transformação do estatuto da vida humana incoativa em algo semelhante a uma fábrica de produtos úteis. E essa preocupação aumenta ao constatarem-se as pressões comerciais que impulsionam a investigação em embriões humanos. Pode caminhar-se para a erosão do respeito pela dignidade intrínseca da vida humana.
Melhor alternativa. As células estaminais não existem apenas nos embriões. Encontram-se também, ainda que em menor número, em órgãos do adulto. Há claras indicações de que elas se podem diferenciar in vitro em tecidos vários, diferentes daquele de que são originárias. Esta é uma alternativa válida, contra a qual não há objecções éticas, e em que o paciente é tratado com tecidos obtidos a partir das suas próprias células estaminais, evitando-se assim os problemas de imuno-rejeição. É possível que não seja economicamente tão rentável como a utilização de embriões, e por isso seja preterida, já que o poder económico domina hoje o progresso da ciência.


Luís Archer, Biólogo
Nota: Luís Archer é igualmente Padre Jesuíta.