31/03/2009

Onde está a verdade?

Temos de fazer uma distinção entre a tese de que o mundo está diante de nós e a tese de que a verdade está diante de nós. Dizer que o mundo está diante de nós, que não é uma criação nossa, quer dizer (…) que a maior parte das coisas no espaço e no tempo são efeitos de causas que não incluem os estados mentais do ser humano. Dizer que a verdade não está diante de nós é simplesmente dizer que onde não há frases não há verdade, que as frases são elementos das linguagens humanas e que as linguagens humanas são criações do homem.

A verdade não pode estar diante de nós - não pode existir independentemente da mente humana - porque as frases não podem existir dessa maneira ou estar diante de nós dessa maneira. O mundo está diante de nós, mas as descrições do mundo não. Só as descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas; o mundo por si próprio - sem o auxílio das actividades descritivas dos seres humanos - não pode.

Richard Rorty, Contingència, Ironia e Solidariedade 

30/03/2009

Humor Platónico

GÓRGIAS - Há respostas, Sócrates, que não podem deixar de ter longos desenvolvimentos. Esforçar-me-ei, no entanto, por usar da maior brevidade. Esta é afinal uma das coisas de que me orgulho, a de que ninguém é capaz de dizer o mesmo que eu em menos palavras.

SÓCRATES - É exactamente aquilo de que eu preciso, Górgias. Faz-me agora uma demonstração de brevidade, deixando para outra altura a abundância.

GÓRGIAS - Com todo o gosto, e hás-de convir que nunca encontraste ninguém que falasse mais concisamente.

SÓCRATES - Muito bem. Ora, uma vez que te apresentas como alguém versado na arte da retórica e capaz de formar outros oradores, diz­-me qual é o objecto da retórica. A tecelagem, por exemplo, trata da fabricação do vestuário, não é verdade?

GÓRGIAS - Trata.

SÓCRATES - E o objecto da música é a composição de melodias?

GÓRGIAS - É.

SÓCRATES - Por Hera, Górgias, admiro as tuas respostas, que mais breves não podiam ser.

GÓRGIAS - Também creio, Sócrates, que não me saio disto nada mal.

Platão, Górgias, 449 c-d, Edições Setenta, tr. Manuel Pulquério

29/03/2009

Como refutar os argumentos favoráveis à eutanásia e ao suicídio assistido

Por Adolfo Castañeda

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Fonte: http://www.vidahumana.org/vidafam/eutanasia/refutar.html

INTRODUÇÃO

Apresentamos a seguir algumas idéias que podem nos ajudar a refutar os principais argumentos em favor dos crimes da eutanásia e do suicídio assistido. (...) Nosso objetivo [aqui] é proporcionar ao leitor uma visão sintética da mentalidade anti-vida da eutanásia e do suicídio assistido, seus principais argumentos, a refutação dos mesmos e a visão pró-vida que deve substituir tal mentalidade anti-vida.

1. UMA IDÉIA EQUIVOCADA

Os argumentos em prol da eutanásia e do suicídio assistido exploram o medo normal que todos nós temos, não tanto da morte em si, mas do sofrimento e solidão diante dela. Este sofrimento é causado muitas vezes pelo uso exagerado dos "meios desproporcionais" da medicina, isto é, dos meios que resultam em ônus graves (dores agudas etc.) para o doente e que ultrapassam os benefícios que em tese ofereceriam. Como ninguém quer estar nessa situação - e nem deveria estar - os promotores da eutanásia e do suicídio assistido se aproveitam desse temor natural para propor uma idéia equivocada.

Em que consiste essa idéia equivocada proposta pelos promotores da eutanásia e do suicídio assistido? Consiste em propor duas alternativas extremas:

1ª) Ou aplicamos a eutanásia ao doente;

2ª) Ou morrerá inevitavelmente cheio de dor e sofrimento.

Pela lógica, este argumento suscitará em muitos a aceitação equivocada de que essas são realmente as duas únicas opções. A razão disso é que muita gente acrdita - equivocadamente também - que o que ensina a religião ou a medicina é que devemos manter [a todo custo] a vida do enfermo, não importando os meios que sejam utilizados, pois o não-fazer constitui ato de eutanásia. Assim, concluem que devem ser favoráveis à eutanásia.

Lamentavelmente, isto é um erro. Em primeiro lugar, não é ato de eutanásia o retirar ou o negar o emprego dos "meios desproporcionais", sempre e quando se respeitarem os legítimos desejos do doente. Conseqüentente, não precisamos manter um doente sofrendo grave e indefinidamente por causa dos "meios desproporcionais".

Com efeito, a idéia dos promotores da eutanásia e do suicídio assistido é equivocada. Existe um terceiro caminho, que não consiste em matar o doente através da eutanásia e do suicídio assistido, nem em deixá-lo sofrer indefinidamente em razão de certos "meios desproporcionais".

Porém, o que ocorre quando o doente sofre dores intensas que não são resultantes dos "meios desproporcionais"? Nesses casos, (...) podemos empregar, de forma adequada, os analgésicos ou calmantes fornecidos pela autêntica medicina. Pode ser que esses analgésicos tragam, como efeito colateral, a antecipação da morte ou a perda da consciência, total ou parcial. No entanto, ainda assim, o emprego de tais calmantes pode ser considerado lícito se cumprirem as seguintes condições, que são razoáveis e de sentido comum:

1ª) Não existe uma outra alternativa melhor (inexistem outros analgésicos que não resultem nesses efeitos);

2ª) Não há mais nada que possa ser feito;

3ª) Trata-se de uma dor grave acometendo um paciente terminal;

4ª) O doente já cumpriu ou pode razoavelmente cumprir com seus deveres mais urgentes: regulamentar os seus assuntos familiares, receber os sacramentos etc.

Observe-se que a intenção aqui não é a de matar o doente mediante o uso de medicamentos e, assim, aliviar os seus sofrimentos; na verdade, tenta-se aliviar os seus sofrimentos mediante medicamentos adequados, correndo-se o risco de ver a morte chegar mais rapidamente ou que haja a perda da consciência, total ou parcial, unicamente e apenas pela existência de graves motivos.

Muitos dos que são favoráveis à eutanásia e ao suicídio assistido alegam falsamente que este argumento sobre os analgésicos é hipócrita porque - dizem eles - corresponde a ministrar um medicamento que pode vir a matar o doente e que a única coisa que se altera é a nossa intenção. A esses, respondemos que não se trata apenas de uma boa intenção, mas também de proporcionar ao paciente uma dose adequada à sua dor. Muitas vezes, a eutanásia ocorre quando médicos partidários dela ministram uma dose de medicamento que sabem que certamente acabará matando o enfermo. Por outro lado, quando um médico que respeita a vida ministra um analgésico cuja dose esteja precisamene medida para aliviar a dor, embora ao mesmo tempo e lamentavelmente possua um efeito ulterior não desejado (a aceleração do processo da morte), havendo motivos sérios para ministrar tal medicina (as condições mencionadas acima), resta óbvio que este ato não poderá jamais ser chamado de "eutanásia" ou "suicídio assistido".

Fica claro que não é um ato de hipocrisia, mas que foi feito o melhor possível para certa situação difícil. Resta claro também que se o médico pró-vida tivesse à sua disposição um analgésico melhor, algum que não tivesse tais efeitos colaterais, certamente teria utilizado esse e não o outro. O problema, muitas vezes, é que muitos médicos não foram treinados adequadamente para o tratamento paliativo e, por isso, crêem que não há alternativas.

Devemos esclarecer aqui um ponto muito importante: embora estejamos obrigados moralmente a nunca matar um inocente, mas respeitar sempre a sua vida, isto não significa que devamos manter sua vida a todo custo e por qualquer meio (...). Recordemos que a vida corporal é um bem bastante elevado - inclusive o mais fundamental, base e condição para todos os demais [bens] - porém, não é o maior bem entre todos: a vida espiritual é, pois, mais importante. Pode ser que a serenidade espiritual de um doente terminal seja ameaçada diante da experiência de uma dor muito intensa; portanto, mediante o uso adequado de analgésicos para acalmar a dor (e não para matar), conseguimos mitigá-la embora se corra o risco (repetimos: por graves motivos) de se ver aproximar a morte ou a perda da consciência.

Em suma: diante da dor de um enfermo terminal, não estamos obrigados a empregar ou manter o uso dos "meios desproporcionais". Estamos, porém, obrigados a proporcionar-lhe os cuidados necessários como a água, a alimentação (oral ou médica), os medicamentos, os calmantes, a ventilação adequada, a higiene, o conforto e - acima de tudo - o amor e a solidariedade. Não temos motivos e nem devemos matar o enfermo, nem deixá-lo sofrer indefinitivamente.

A eutanásia e o suicídio assistido constituem uma hipocrisia e uma falsa "compaixão" que buscam o caminho mais fácil, egoísta e cômodo para se solucionarem os problemas, ao invés de nos sacrificarmos pelo doente e oferecer-lhe o nosso amor e compaixão.

2. O FALSO "DIREITO" A MORTE E O DIREITO A VIDA

Os promotores da eutanásia e do suicídio assistido falam de "direito a morte". Na verdade, todos nós iremos morrer um dia, de forma que não precisamos que se invente um "direito" para isso; a natureza - queiramos ou não - se encarregará de que morramos. Não precisamos nem devemos nos preocupar com essa matéria.

Se o que se quer dizer com "direito a morte" é que todo ser humano tem o direito de morrer em paz e com dignidade, quando a morte natural chega, então não há o que se contrapor. Porém, infelizmente, não é isso o que os defensores desses crimes querem dizer quando falam do falso "direito" a morte. O que eles querem dizer é que a pessoa tem o "direito" de que lhe seja aplicada a eutanásia e o suicídio (assistido ou não), inclusive quando ela mesma entenda conveniente.

Estes ativistas chegam também à barbaridade de dizer que o ato de se matar ou de procurar a ajuda de terceiros para concretizar a morte é um "ato final de autodeterminação", "libertação" ou "morte misericordiosa" (=mercy killing). Todas essas expressões são eufemismos, isto é, frases bonitas mas enganosas, que tentam esconder a terrível realidade que se pretende promover:a eutanásia, o suicídio assistido e o suicídio.

Contudo, talvez o que mais querem ocultar os defensores desses crimes é o egoísmo dos saudáveis para com os enfermos. Quando uma sociedade cria uma mentalidade propícia para a eutanásia e o suicídio assistido, na realidade está dizendo aos idosos, aos doentes terminais e aos familiares dos pacientes em estado de coma: "Prestem atenção! Não iremos ajudá-los! Não colaboraremos com vocês para aliviar-lhes a dor ou para ajudar-lhes a suportar o peso! 'Ajudaremos' vocês, porém, a retirar-lhes os meios [de mantê-los vivos]; ou vamos 'ajudar-lhe' com o consentimento dele mesmo; ou, ainda, sem o seu consentimento!"

Não existe o "direito" de tirar a própria vida, ou de pedir que outros a tirem, nem, tampouco, que a tiremos de alguém, mesmo que nos tenha pedido. As súplicas de um doente ou idoso para que o matemos não são tanto um pedido de morte, mas um grito de desespero de uma pessoa vulnerável diante da dor. Vamos abandonar essa pessoa nessa situação ou iremos ajudá-la a sair dela, para que recupere suas capacidades e receba o amor, a solidariedade e a paz que precisa antes de vir a morrer naturalmente?

É uma hipocrisia inconcebível dizer que o doente terminal possui o "direito" a decidir o seu destino - a morte - quando, na realidade, sua situação mental (às vezes influenciada pelas pessoas que o rodeiam, favoráveis à eutanásia) é que o levou a esse momento de desespero, quando ele (e não nós) pede para morrer. Entretanto, independentemente de uma condição de intensa vulnerabilidade psicológica, o suicídio (assistido ou não) e também a eutanásia sempre são atos graves e nunca lícitos.

Alguns objetam: como o "direito" a morte pelas próprias mãos não existe, se é a própria pessoa que tem o poder de decidir? Respondamos a este argumento parte por parte:

- Em primeiro lugar, trata-se de um argumento em círculo e, portanto, falacioso. Dizer: "Eu tenho o direito de me suicidar porque sou eu quem o decide", não prova absolutamente nada. No fundo, significa que a própria decisão justifica tudo - o que é uma aberração -, implicando ainda, em nível de princípio, na destruição não apenas da própria vida, mas também da convivência social.

- Porém, o pior desta mentalidade é a errada conceituação da pessoa humana como base dela mesma. Com efeito, se eu digo que é lícito matar alguém, ajudar a matar ou matar-me porque está (ou estou) sofrendo, ou a sua (ou a minha) vida "carece de qualidade ou sentido suficiente" então estarei dizendo que a vida humana e, em último caso, a pessoa humana tem um valor extrínseco e relativo, ou seja, condicionado à posse de certas qualidades ou vantagens. Estarei dizendo que a pessoa humana carece de uma dignidade ou valor intrínseco e absoluto, isto é, que não vale pelo mero fato de ser pessoa, mas em razão de possuir certas qualidades (de saúde etc.) que a sociedade considera necessárias para que mereça continuar vivendo.

Essa maneira de pensar, além de não-humana e equivocada, é extremamente perigosa, já que conduz a um abismo escorregadio e interminável de mortes. Com efeito, os promotores da eutanásia e do suicídio assistido, que atualmente começam com a retirada da água e dos alimentos dos pacientes em coma, passarão a promover a falsa "solução" da injeção letal com o consentimento dos familiares. Na Holanda, já estão matando os pacientes terminais e os mais idosos sem o consentimento [seu ou da família]; logo passarão a eliminar os pacientes não-terminais, os pacientes em estado grave e os idosos. O "controle de qualidade" não terá fim...

A razão fundamental de ninguém possuir o "direito" de se matar ou de ajudar outros a fazê-lo é porque todos nós temos uma dignidade, ou seja, um valor intrínseco e absoluto; e valores assim não podem ser destruídos, devendo ser protegidos e amados. Na verdade, a base da saúde mental e do amor é o valor da pessoa. Se eu perco o sentido do meu próprio valor ou dignidade (a dignidade nunca se perde, não importa em que condição eu me encontre; porém, o sentido de dignidade pode ser perdido, embora não devesse se perder). Se eu o perco - repito - o sentido de minha própria dignidade, isso equivale a perder minha auto-estima e saúde mental. O que eu preciso, nesse caso, é que me ajudem a recuperar esse sentido, essa autoconsciência do meu próprio valor como pessoa; não preciso que me "ajudem" a me eliminar.

Se a sociedade perde o sentido ou a consciência do valor incondicional da pessoa humana, perderá também a capacidade de amar incondicionalmente, já que o amor e o valor são realidades correlatas: não se ama o que não se considera como um valor.

O que será, então, da nossa sociedade, das nossas famílias, dos nossos matrimônios? Se os esposos não se amam dessa maneira; se os pais não amam aos seus filhos dessa maneira e vive-versa; se os cidadãos não se amam ou, ao menos, não se respeitam dessa maneira, o que acontecerá com as gerações futuras? Como crescerão nossos filhos? Que espécie de seres humanos teremos no futuro?

A sociedade que não for capaz de servir autenticamente - isto é amar! - aos seus membros mais débeis terá perdido o sentido de sua própria humanidade e do que significa ser civilizado; terá se convertido em uma sociedade caracterizada pela barbárie; uma sociedade onde o homem é o lobo do homem; onde se pisoteia esse direito e esse desejo que está semeado na parte mais profunda do coração de cada pessoa - admita explicitamente ou não - de que os tratem como pessoas e não como coisas, que os tratem como um fim em si mesmas e não como um meio para outro fim.

A mentalidade favorável à eutanásia e ao suicídio assistido carrega em si mesma o gérmen da destruição social e do que significa ser pessoa; por isso, deve ser denunciada e refutada por todos os meios legítimos ao nosso alcance. Porém, não apenas isso, deve também ser substituída por uma mentalidade a favor da vida e do amor, por uma mentalidade a favor da proteção dos mais fracos e enfermos, por um progresso adequado no campo da saúde, por uma mentalidade criadora de formas cada vez melhores de compaixão e ternura, e por um correspondente vocabulário pró-vida: "pessoa", não "vegetal"; "vida humana", não "vida sem sentido" etc.

Definitivamente, trate de construir uma civilização em prol da pessoa e não contrária a ela.

in http://www.veritatis.com.br/article/4739

28/03/2009

A estrutura das revoluções científicas

O objectivo nuclear de Kuhn é compreender em que é que consistem essas imensas transformações que ele designa por revoluções científicas. Toda a conceptualização referida conflui neste objectivo, que Kuhn considera tanto mais importante quanto ele foi , na imagem dominante da ciência que se construiu a partir dos séculos XVII-XVIII, secundarizado ou mesmo anulado. Para isso, contribuíram vários factores, de que se devem destacar a influência dos manuais científicos e das obras de vulgarização, assim como a dos trabalhos filosóficos que adoptam a imagem da ciência difundida por estes meios. O que eles têm de comum é a anulação das vicissitudes teóricas e práticas da história científica, facto que decorre de uma estratégia de anulação da história efectiva da ciência e de promoção de uma visão linear, contínua e cumulativa do desenvolvimento científico.
Ao estudar as revoluções científicas, Kuhn procura destacar alguns elementos essenciais à compreensão da História da Ciência. Uma revolução ocorre, pode ocorrer, quando o poder heurístico de um paradigma vacila face a certos tipos de fenómenos, pondo em causa a prática da ciência normal. Se as anomalias não são passíveis de ser reconduzidas à resolução de enigmas, aquela situação transforma-se progressiva, mas irreversivelmente, numa crise, com as concomitantes tentativas de formular uma nova teoria que permita substituir o paradigma anterior.
Manuel Maria Carrilho, Itinerários da Racionalidade, Publicações Dom Quixote, 1989

27/03/2009

A comunidade científica

A comunidade científica, tal como Kuhn a descreve, é uma entidade social extremamente particular, mesmo única no seu género. Todas as características que a definem especificamente contribuem, como veremos, para tornar possível o funcionamento espantosamente eficaz do empreendimento científico. Um deles é a profunda unanimidade que, em tempo normal, reina entre os membros de uma mesma comunidade. É certo que estes se encontram dispersos através do mundo, mas nem por isso estão menos unidos por laços extremamente estreitos; lêem os mesmos jornais, feitos para e por eles e que são praticamente os únicos a consultar; têm o mesmo vocabulário e os mesmos interesses científicos; a sua educação vai muni-los de modelos e de critérios metodológicos comuns que determinam os problemas a resolver e as soluções admitidas pelo grupo.

Isabelle Stengers, «A descrição da actividade científica por T. S. Kuhn», in História e Prática das Ciências, A Regra do Jogo, Lisboa, 1979

26/03/2009

David Hume – Ideias e impressões

Embora o nosso pensamento pareça possuir uma liberdade irrestrita, veremos (…) que se encontra realmente confinado a limites muito estreitos e que todo este poder criador da mente nada mais vem a ser do que a faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos são fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de oiro, juntamos unicamente duas ideias consistentes, oiro e montanha, com as quais já estávamos familiarizados. (…) Em suma, todos os materiais do pensamento são derivados da sensibilidade (sentiment) externa ou interna: a mistura e composição destes pertencem apenas à mente e à vontade. Ora, para me expressar em linguagem filosófica, todas as nossas ideias, ou percepções mais fracas, são cópias das nossas impressões ou [percepções] mais intensas.
Os dois argumentos seguintes serão, espero, suficientes para provar isto. Primeiro, ao analisarmos os nossos pensamentos ou ideias, por muito compostas e sublimes que sejam, sempre descobrimos que elas se resolvem em ideias tão simples como se fossem copiadas de uma sensação ou sentimento precedente. Mesmo as ideias que, à primeira vista, parecem afastadas desta origem, descobre-se, após um escrutínio mais minucioso, serem dela derivadas. A ideia de Deus. Enquanto significa um Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, promana da reflexão sobre as operações da nossa própria mente, e eleva sem limite essas qualidades da bondade e sabedoria. Podemos prosseguir esta inquirição até ao ponto que nos agradar, onde sempre descobriremos que toda a ideia que examinamos é copiada de uma impressão similar. (…)
Segundo, se acontecer que um homem, em virtude de um defeito dos órgãos, não é susceptível de qualquer espécie de sensação, vemos sempre que ele é igualmente pouco susceptível das ideias correspondentes. Um homem cego não pode formar nenhuma noção das cores, e um surdo, dos sons.
David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, tr. Artur Morão, Ed. 70, pp. 24, 25.

25/03/2009

Actos gratuitos

No célebre romance de André Gide, Les caves du Vatican, o herói, um jovem muito imaginativo, quer provar a si próprio que se podem executar certos actos sem qualquer razão válida. Tais actos não teriam fundamento senão em si próprios.

O jovem lança à linha um viajante desconhecido que ocupa com ele a mesma cabina do comboio. É um assassínio sem razão: não se lhe pode atribuir qualquer um dos motivos convencionais que acompanham os homicídios: interesse material, vingança, demência, paixão, agressividade social, etc.

Com este exemplo, Gide assinala a possibilidade do acto puro, do acto gratuito, e pretende demonstrar que, ao longo da sua existência, o homem é capaz de executar acções puramente externas a si próprio, sem qualquer compromisso. Quem não vê, porém, que a teoria do acto gratuito se baseia num postulado artificial? Sem dúvida, em si mesmo o acto parece independente de qualquer causa. Contudo, o facto de querer que ele exista, executando-o, é suficiente para o provocar. Este acto tem, portanto, uma causa e é bastante paradoxal pretender que a não tenha. O herói foi impelido a agir a fim de demonstrar que o seu pensamento estava correcto. correcto.

24/03/2009

Descartes - o modelo matemático


E agora, como dissemos um pouco mais atrás que (…) a Aritmética e a Geometria eram as únicas isentas de qualquer defeito de falsidade ou de incerteza, vamos examinar mais cuidadosamente a razão por que assim acontece, notando, ao mesmo tempo, que uma dupla via nos conduz ao conhecimento das coisas, a saber, a da experiência e a da dedução. Notemos, além disso, que as experiências que incidem sobre as coisas são muitas vezes enganadoras, enquanto dedução ou operação pela qual se infere uma coisa da outra (…) não pode ser mal feita pela inteligência, pelo menos pela racional. (…) Com efeito, todo o erro possível (…) nunca provém de uma má inferência, mas unicamente do facto de se partir de certas experiências pouco compreendidas ou de se emitir juízos levianos e sem fundamento. Tira-se evidentemente destas considerações o motivo pelo qual a Aritmética e a Geometria são muito mais certas do que as outras disciplinas: é que elas são as únicas a incidir sobre um objecto tão puro e tão simples que qualquer suposição que façam não pode ser posta em dúvida pela experiência, e são, além disso, inteiramente compostas por consequências a deduzir racionalmente. São, pois, as mais fáceis e as mais claras de todas, e têm um objecto, tal como nós o exigimos, pois que, salvo inadvertência, mal parece possível a um ser humano enganar-se nele. (…) E a conclusão de tudo o que precede não é, claro, que seja necessário aprender somente a Aritmética e a Geometria, mas exclusivamente que, na procura do recto caminho da Verdade, não nos devemos ocupar de nenhum objecto sobre o qual não possamos ter uma certeza tão grande como a das demonstrações da Aritmética e da Geometria.
Descartes, Regras para a Direcção do Espírito, Editorial Estampa
Imagem: www.mathematicianspictures.com

23/03/2009

Intenção e motivo


Intenção e motivo são noções conexas; o motivo é motivo de uma intenção (…). A relação é tão estreita que, em certos contextos, motivos e intenções são indiscerníveis, em particular quando a intenção é explícita. (…) A intenção responde à pergunta “quê, que fazes?” Serve, pois, para identificar, para nomear, para denotar a acção (o que se chama ordinariamente o seu objecto, o seu projecto); o motivo responde à questão “porquê?” Tem, portanto, uma função de explicação; mas a explicação já vimos, pelo menos nos contextos em que motivo significa razão, consiste em esclarecer, em tornar inteligível, em fazer compreender. Portanto, é sob a condição da redução do motivo a uma razão de… e da explicação a uma interpretação, que a noção de motivo aparece separada da de causa por um “abismo lógico”: classificar algo como motivo é excluir que o classifiquemos como razão de… (…).

A relação causal é uma relação contingente no sentido de que a causa e o efeito podem identificar-se separadamente e que a causa pode compreender-se sem que se mencione a sua capacidade de produzir tal ou tal efeito. Um motivo, pelo contrário, é um motivo de: a íntima conexão constituída pela motivação é exclusiva da conexão e contingente da causalidade.

22/03/2009

David Hume - Causalidade

A tese fundamental de Hume é que a relação entre causa e efeito nunca pode ser conhecida a priori, isto é, com o puro raciocínio, mas apenas por experiência. Ninguém, posto frente a um objecto que para ele seja novo pode descobrir as suas causas e os seus efeitos, antes de os ter experimentado e apenas ter raciocinado sobre eles. (…)
Ora isto significa que a conexão entre causa e efeito, mesmo depois de ter sido descoberta por experiência, permanece privada de qualquer necessidade objectiva. (…)
Que o curso da natureza possa mudar, que os laços causais que a experiência nos testemunhou no passado possam não se verificar no futuro, é hipótese que não implica contradição e que por isso permanece sempre possível. Nem a contínua confirmação que a experiência faz, na maior parte dos casos, das conexões causais muda o caso: porque esta experiência diz sempre respeito ao passado, nunca ao futuro. Tudo aquilo que sabemos pela experiência é que, de causas que nos parecem semelhantes, esperamos efeitos semelhantes. Mas precisamente esta suposição não é justificada pela experiência: ela é antes o pressuposto da experiência, um pressuposto injustificável.
N. Abbagnano, História da Filosofia, Volume VII, Editorial Presença

21/03/2009

Acção voluntária e acção involuntária

Entre as coisas que realizamos, umas fazemo-las voluntariamente, porque queremos fazê-las; outras fazemo-las sem querer. Fazemos voluntária ou intencionalmente as coisas que fazemos querendo fazê-las, com conhecimento e de propósito. Nestes casos dizemos que temos a intenção ou o propósito de fazer o que fazemos.

No entanto, também há coisas que fazemos sem querer fazê-las, como ressonar, espirrar, tiritar de frio, ou transpirar de calor, actos todos eles que não está nas nossas mãos controlar. Cantamos porque queremos, ressonamos mesmo que não queiramos.

Às vezes também fazemos algo involuntariamente, como consequência não prevista de uma acção intencional. Matamos voluntariamente um mosquito que penetrou no nosso quarto de dormir, mas matamos involuntariamente o insecto que se cruza no nosso caminho e que pisamos sem o ter visto enquanto andávamos. Abrimos voluntariamente a lata de espinafres e involuntariamente cortamos o dedo. Queremos servir o café nas chávenas, mas por um descuido (ou por um defeito da cafeteira) entornamos o café e manchamos a toalha, sem o pretendermos (inclusive, lamentamo-lo). Normalmente só nos consideram responsáveis pelas coisas que fazemos voluntariamente, não pelas coisas que nos acontecem ou que fazemos sem nos darmos conta ou sem querer (uma excepção é a negligência culpável).

A intencionalidade é um pré-requisito do mérito ou da culpa.

20/03/2009

Michael Walzer - Igualdade Complexa (IV)

Reacções críticas à igualdade complexa

Stephen Mulhall e Adam Swift analisam o conceito de i.c. confrontando-o com o princípio da liberdade individual, procurando mostrar que o primeiro é incompatível com o segundo. O argumento de Mulhall e de Swift é o de que numa situação ideal de distribuição equitativa de recursos os problemas que o intercâmbio de diferentes bens levanta não existiriam. A i.c. não faria sentido, pois, todos teriam as mesmas possibilidades de adquirir os bens que desejassem. Para exemplificarem a sua argumentação recorreram ao exemplo da assistência médica.

“Numa situação em que todos tivessem os mesmos recursos económicos, a distribuição da atenção sanitária seria verdadeiramente o reflexo das escolhas dos sujeitos sobre o modo de empregar o seu dinheiro, haveria um acesso equitativo, e, nesse caso, não teria nada de mal, em princípio, que se permitissem intercâmbios deste tipo.” (Mulhall/Swift, 1996, 207s.)

Se todos tem a mesma capacidade financeira, porque não aceitar que a assistência médica seja um bem comerciável como todos os outros? Na perspectiva de Mulhall e Swift, o que nos leva a pensar que a assistência médica não deve ser comercializada é o facto de não possuirmos todos os mesmos recursos financeiros para a adquirirmos. Assim, afirmam que a preocupação com o intercâmbio entre a esfera do mercado e a esfera da saúde nasce da distribuição desigual de dinheiro entre as pessoas, o que origina uma situação também desigual no acesso ao atendimento médico. Esta situação é injusta porque não existe um acesso equitativo à assistência médica. O problema, então, só é solúvel se nivelarmos as posses de todos os indivíduos, de forma a todos poderem adquirir a assistência médica que pretenderem. Se aplicarmos a i.c. estaremos, segundo estes autores, a bloquear a liberdade individual que cada um tem de investir os seus recursos financeiros onde desejar.

A primeira questão que este argumento nos coloca refere‑se à igualdade simples. Uma situação deste tipo é puramente abstracta; no mundo real as desigualdades económicas surgem inevitavelmente logo após as primeiras transacções, pois nem todos aplicam os seus recursos da mesma forma, quer por iniciativa própria, quer por necessidades várias inimputáveis aos impulsos ou às decisões racionais das pessoas. Para que a equidade de acesso aos cuidados médicos se restabelecesse seria necessário retornar à situação inicial. Será que um regime de igualdade simples não violaria constantemente a liberdade individual de forma a conseguir repor essa situação inicial de paridade financeira?

Outra questão que este argumento levanta, relacionada com esta dificuldade da igualdade simples, é a questão do significado social da assistência sanitária. Mulhall e Swift parecem fazer corresponder a aquisição da assistência médica à vontade ou desejo de o fazer livremente e sem constrangimentos. Segundo estes autores, o entendimento social que se possui da assistência médica não está na origem do impedimento de a vender por dinheiro. Esta restrição distributiva existe porque nos encontramos numa situação financeira desigual. É exactamente este ponto, que eles assumem como provado, que se distancia da argumentação de Walzer. Para este, a troca é injusta porque a assistência médica deve ser proporcional à doença. A liberdade de adquirir um medicamento, ou de ser observado por um médico, está directamente relacionada com a existência de uma necessidade: as pessoas necessitam de assistência médica quando estão doentes. Por isso, Walzer não nos fala em igualdade na distribuição da assistência médica, mas sim, de proporcionalidade à necessidade desse bem. A proporcionalidade implica a diferenciação, e não a nivelação entre todos. A questão fulcral é que nem todos temos as mesmas necessidades médicas. Portanto, o argumento de Mulhall e Swift não nos parece ser válido, pois não refutam adequadamente a conexão que Walzer estabelece entre o significado do bem e o seu respectivo critério distributivo.

O objectivo principal de Mulhall e de Swift era o de provar que a i.c. implica limitações à liberdade individual, nomeadamente à liberdade individual de escolher como aplicar os recursos financeiros de cada um. É óbvio que Walzer não pretende articular a liberdade absoluta do indivíduo com a i.c., logo, a crítica não atinge internamente a sua argumentação. No entanto, é óbvio que a i.c. limita a liberdade individual, embora isso, no nosso entendimento, não seja suficiente para a refutar. Será que a Casa Branca ou a Estátua da Liberdade estão à venda? Se não estão, então isso significa uma limitação à liberdade de alguns milionários que têm meios de adquirir esses edifícios. Porque não estão? Porque existe um entendimento partilhado por uma larga maioria de que aqueles objectos são património do Estado, ou seja, são propriedade de todos e não só de alguns. Mesmo que todos os Cidadãos Norte‑Americanos tivessem a capacidade financeira de comprar a Casa Branca, duvido que alguém considerasse a sua venda um acto justo. Para Walzer, as limitações à liberdade individual que derivam dos entendimentos partilhados não são injustas.

Uma objecção mais pertinente é apresentada por Richard Bellamy, que questiona a fundamentação comunitarista da i.c., apresentando um argumento que coloca em causa a coerência teórica de fazer assentar os critérios distributivos em significados sociais relativos a cada comunidade. “Onde a crença na autonomia completa das diferentes esferas não faz parte da cultura pública, a insistência no carácter socialmente relativo da justiça debilita as separações esféricas que o seu argumento requer.” (Bellamy, 1998, 168) A sua objecção reside na incompatibilidade entre a relatividade dos significados sociais e a manutenção da autonomia das esferas em sociedades que não entendem dessa forma a justiça. Em nosso entender, a única contra argumentação que Walzer pode oferecer a esta objecção é a de que a i.c. é o princípio de justiça que ele considera apropriado à sua sociedade, tendo em conta a sua interpretação dos significados sociais que nela existem. No entanto, Walzer nunca apresenta uma argumentação sistemática que demonstre claramente que o carácter relativo dos princípios de justiça não destrói a força conceptual da i.c..

O argumento da moral mínima atrás analisado, demonstra que Walzer reflectiu sobre, e tentou ultrapassar, esta objecção. Decorrendo da sua posição epistemológica, Walzer tem que aceitar as sociedades não plurais como justas. Apenas a violação dos direitos humanos mais elementares leva Walzer a aceitar intervenções militares sobre países soberanos. No entanto, considera legítimo a pedagogia do pluralismo. O argumento da Moral mínima confere-lhe um instrumento conceptual para o diálogo e o progresso civilizacional: é possível demonstrar a essas sociedades as virtudes do pluralismo e das distribuições autónomas. Esta posição de índole teleológica é claramente assumida por Walzer. O pluralismo é um passo em frente no progresso das sociedades humanas. Essa pedagogia deve ser feita partindo dos significados sociais que essas comunidades já possuem, e não impondo valores e conceitos desenraizados da cultura local.

A fundamentação comunitarista é também o principal alvo de Joshua Cohen, que questiona a possibilidade de se identificar com clareza os significados sociais que as pessoas de uma comunidade partilham sobre os bens, e fundamenta esta objecção apontando os próprios exemplos históricos que Walzer utiliza na sua argumentação. “Em todos estes casos os valores da comunidade política são identificados mediante as suas práticas. (...) As práticas existentes servem como evidência – de facto a única evidência – para a explicação da ‘consciência colectiva’.” (Cohen, 1992, 329) Os exemplos históricos que Walzer apresenta em As esferas da justiça parecem realmente não escapar a esta observação, dado que se basearam em práticas culturais institucionalizadas em diversas comunidades, ou seja, aparentemente não deu atenção (nesses exemplos) à dissidência de opinião e de hábito cultural. Por isso, Cohen coloca a questão do consenso em torno dos significados sociais como forma de lhes subtrair força e legitimidade enquanto esteios de qualquer teoria da justiça, pois apenas significados sociais que de forma evidente sejam consensuais podem fundar regras de distribuição justas.

Parece-nos que o trabalho hermenêutico acerca dos entendimentos partilhados não pode ser visto como uma tarefa simples e linear, e que Walzer sempre esteve consciente disso. Obviamente, para se identificar os valores de uma determinada comunidade temos que analisar as suas práticas sociais, pois, é apenas através delas que podemos encontrar o substrato moral e cultural que esteve na sua origem. Mas, enquanto Cohen considera que a interpretação de valores efectuada por Walzer é apenas um método de encaixar valores em práticas sociais, parece-nos claro que a posição de Walzer é mais complexa, e que não se deixa trair por esta linha de argumentação. Antes de expormos os motivos que nos levam a tal conclusão devemos aprofundar o sentido da crítica de Cohen, pois a sua pertinência prolonga o seu alcance para lá da teoria de Walzer em direcção a todas as perspectivas comunitaristas da justiça.

Por exemplo, se determinamos quais os bens que uma comunidade entende como necessidades considerando quais os bens que a comunidade distribui agora de acordo com a necessidade, então nunca estaremos em posição de afirmar que a comunidade deveria distribuir um bem de acordo com a necessidade, mas não o faz. Por outro lado, se identificamos valores separados das práticas, tendo em vista avaliar a conformidade das práticas para com esses valores, que evidência existirá de que interpretamos correctamente os valores? Desta forma, se um bem não é distribuído de acordo com a necessidade, então em que sentido é verdade que a comunidade o reconhece como uma necessidade? Chamarei a isto o ‘dilema comunitário simples’. Ele afirma, mas simplifica, a razão para acreditar que as perspectivas comunitaristas são intrinsecamente conservadoras. (Idem, 330)

Alcançar uma compreensão dos valores, e dos significados sociais dos bens, só é possível, segundo Cohen, através da interpretação das práticas distributivas correntes, portanto, os princípios distributivos derivados desses significados e desses valores não servirão de critérios de avaliação crítica dessas práticas. Dessa forma, não é razoável utilizar como critério de aferição dos processos distributivos institucionalizados princípios deduzidos de valores e significados sociais que foram identificados nesses mesmos processos. O elemento crítico e o elemento criticado apenas coincidiriam. Da sua confrontação nada de novo surgiria, as práticas não seriam alteradas, já que os elementos críticos apenas corroborariam a organização distributiva das instituições sociopolíticas da sociedade. Nunca seríamos capazes de afirmar que determinado bem social deveria ser distribuído por um critério diferente do que actualmente se utiliza para esse efeito.

O problema desta argumentação reside no pressuposto de que apenas mediante a análise das práticas sociais institucionalizadas poderemos encontrar os significados sociais dos bens. No entanto, é possível a utilização de outros métodos de interpretação e de análise da dimensão moral das sociedades que sejam sensíveis à dissidência e à diferença. Tomemos como exemplo a escravatura. As práticas distributivas instituídas até ao século passado incluíam o escravo na lista dos bens comerciáveis. Mediante uma análise dessas práticas o significado social de determinados seres humanos resumia‑os à condição de escravo. No entanto, nem todos partilhavam desse entendimento. Mesmo antes da escravatura ser abolida institucionalmente havia pessoas que não concordavam com esse regime cruel de privação de liberdade, e cujas posições se encontravam visíveis e documentadas. A evidência que Cohen exige para termos a certeza que interpretamos correctamente os valores de uma sociedade pode não residir apenas nas práticas sociais. A prática social da escravatura, pelo menos a partir de certa altura, não definia nenhum valor social comum. Aos defensores da escravatura opunham‑se os abolicionistas. Os valores da liberdade e da igualdade entre os homens foram‑se impondo lentamente e a escravatura foi sendo abolida em vários países. Mas, mesmo depois de abolida, certas pessoas continuaram a pensar que esse regime era justo. O que provocou a mudança institucional foi a alteração da correlação de forças entre as duas posições. Naturalmente Cohen interpretaria tal modificação como uma operação protagonizada pela intervenção de princípios externos aos valores sociais, embora internos à sociedade (o princípio da igualdade e da liberdade, por exemplo). Mas, Walzer compreenderia‑o como uma modificação dos princípios de justiça derivada de uma alteração nos entendimentos partilhados pela maioria dos cidadãos. Portanto, não podemos identificar as práticas com os valores sociais. As práticas reflectem, quando muito, o entendimento social que possuem determinados grupos de pessoas com poder sobre o conjunto da sociedade.

No entanto, Cohen prevê esta contra argumentação e procura refutá‑la extraindo dela conclusões que, segundo ele, apenas aprofundam o significado crítico do dilema comunitário simples. Se não existe um grupo coerente de valores partilhados por todos os elementos de uma comunidade, mas, pelo contrário, existem valores diferentes e concorrentes entre si, então, afirma Cohen, é o próprio conceito de comunidade política que perde sentido. A i.c. exige a existência de significados sociais comuns de forma a se extrair deles os critérios distributivos apropriados. Mas, como agir se tais valores são diversos e conflituosos? Vejamos o que Walzer diz a este respeito:

Determinada sociedade é justa se a sua vida real for vivida de certo modo, ou seja, de um modo conforme às concepções comuns dos seus membros. (Sempre que as pessoas não estão de acordo quanto ao significado dos bens sociais e sempre que as suas concepções são controvertidas, a justiça exige que a sociedade atenda a esses desacordos, proporcionando os canais institucionais para a sua expressão e para os mecanismos da sua resolução e distribuições alternativas.) (Walzer, 1983, 296)

A fidelidade dos princípios de justiça aos significados sociais não necessita que estes sejam consensuais, mas implica que se respeitem a divergência de opiniões através da disponibilização de um espaço público e aberto de discussão e argumentação. Desta forma, Walzer parece escapar à objecção do holismo comunitarista, formulada por Carlos Thiebaut, que acusa as várias teorias comunitárias de “não permitir discrepâncias internas nem a coexistência num mesmo espaço político e cultural de sistemas de crenças diversos.” (Thiebaut, 1992, 164) Walzer procura precisamente conciliar o pluralismo interno das sociedades com a fundamentação comunitarista mediante o princípio de i.c..

A complexidade da igualdade complexa

A argumentação de Cohen nasce fora do universo comunitarista. A sua crítica pretende atingir a fundamentação cultural e relativa dos princípios de justiça. No entanto, podemos também questionar a i.c. a partir da sua própria fundamentação comunitarista, como faz Amy Gutmann, problematizando a natureza da sua complexidade. Será a i.c. suficientemente complexa para enquadrar convenientemente as exigências de justiça social das sociedades contemporâneas? Gutmann considera que não, e apresenta dois argumentos para fundamentar esta sua resposta.

Primeiro, os significados sociais de alguns bens são múltiplos e os significados múltiplos por vezes colidem, levando‑nos a olhar para considerações morais que possam decidir entre os significados conflituosos. Estas considerações morais conduzem‑nos para lá da procura do verdadeiro significado social do bem em questão em direcção a considerações morais que não são internas à esfera. A segunda razão é a de que muitas considerações morais relevantes cruzam as esferas distributivas. (Gutmann, 1995, 99)

Amy Gutmann concorda com Walzer quando este afirma que as questões de justiça social só podem ser analisadas e interpretadas mediante um enfoque que assuma a sua complexidade. No entanto, a i.c., tal como Walzer a formulou, não consegue enquadrar toda essa complexidade. Em primeiro lugar, devido à multiplicidade de significados concorrentes, e até mesmo conflituosos, que os bens sociais podem ter, o que implica a necessidade de uma escolha. Deliberar e escolher entre os significados concorrentes só é possível, nesse caso, se recorrermos a considerações morais que ultrapassem o âmbito dos próprios significados sociais. Em segundo lugar, este apoio em considerações morais exteriores ao significado social demonstra‑nos a existência de elementos relevantes para a distribuição dos bens que atravessam diversas esferas, pondo em causa a especificidade dos critérios de justiça a cada esfera individualmente.

Gutmann salienta que a i.c. tem o mérito de apontar a necessidade de se atender aos significados sociais dos bens e à sua importância na vida das pessoas quando se desenvolvem princípios distributivos. No entanto, questiona o postulado walzeriano segundo o qual os princípios que regulam as distribuições devem ter uma origem exclusivamente interna às esferas, decorrente dos significados sociais dos bens. O próprio Walzer, em resposta a estas críticas, admite que a autonomia das esferas não é absoluta, e que podem existir excepções, mas não refere nem analisa as conclusões que Gutmann extrai dessa permeabilidade das esferas de justiça (Cf. Walzer, 1995, 283).

Gutmann vai mais longe ao salientar a possibilidade de nos depararmos com uma multiplicidade de significados sociais no interior de uma mesma esfera distributiva. Como deveremos agir quando existem determinados bens que possuem vários significados sociais, e quando eles são contraditórios entre si? Para ilustrar o seu argumento Gutmann analisa o caso do emprego (Cf. Gutmann, 1995, 103ss.). Este bem social possui vários significados que colidem entre si. A maioria dos empregos são entendidos como carreiras abertas ao talento. Assim, o princípio distributivo adequado a este bem seria um processo de selecção dos candidatos com mais qualificações para desempenhar as funções de cada emprego. O princípio da i.c. impede que outro critério seja utilizado. No entanto, Gutmann refere a existência de outro significado social do emprego, que origina outro critério distributivo. O emprego é também entendido como uma necessidade, pois ele é essencial para a manutenção de uma cidadania plena e digna. Assim, os empregos deveriam ser distribuídos também de acordo com a necessidade das pessoas. Gutmann aponta ainda um terceiro significado social do emprego, relacionado com este último, que consiste na distribuição de empregos com vista a igualizar as oportunidades de membros de grupos sociais menos favorecidos e com dificuldades de integração. Desta forma, a distribuição do emprego é também entendida como forma de corrigir as desigualdades históricas, logo, os cargos devem ser distribuídos de forma preferencial a membros de grupos historicamente desfavorecidos, por questões raciais ou outras. Temos, portanto, três diferentes significados sociais de um mesmo bem, que fazem despontar três diferentes critérios distributivos, que colidem entre si. Segundo Gutmann, a i.c. não está preparada para lidar com esta realidade.

A análise de Walzer sobre esta esfera é permeável a esta crítica, porque o princípio da i.c. implica a recusa da discriminação positiva. Walzer, aliás, argumenta claramente contra a reserva de cargos para membros de grupos sociais desfavorecidos como princípio de justiça. A única reserva de cargos que Walzer admite é a que decorre da diferenciação entre os membros e os não membros da comunidade. (Cf. Walzer, 1983, 150) Todos os empregos podem, e devem, ser reservados para os cidadãos. Mas, Walzer rejeita a instituição de políticas de contratação diferenciada entre os cidadãos da mesma comunidade. Walzer parte do princípio que a qualificação está directamente relacionada com o desempenho de uma determinada actividade. Assim sendo, a introdução de um terceiro elemento que distorce essa relação cria uma situação injusta para aqueles candidatos que possuem qualificações, mas que são discriminados por pertencerem a um grupo social historicamente favorecido. “Em causa estão também os direitos, não os direitos humanos ou naturais, e sim os direitos derivados do significado social dos cargos e das carreiras, reivindicados no decurso de longas lutas políticas.” (Idem, 154) Os direitos dos candidatos que Walzer refere são, no seu entendimento, derivados do significado social do bem em questão. O argumento de Gutmann refere precisamente que não existe um único significado social deste bem do qual se possam fazer derivar direitos distributivos. Realça, isso sim, a existência de significados múltiplos, incluindo na esfera do emprego também a importância da reserva dos cargos como instrumento de integração social. Assim, os direitos derivados do significado social que Walzer refere não podem negar legitimidade à contratação preferencial. Se Gutmann tem razão ao afirmar o triplo significado social do emprego, então todos os critérios deles decorrentes possuem a mesma legitimidade, e nenhum pode excluir os outros. A argumentação de Walzer, como exclui esse aspecto do significado social deste bem, exclui também a reserva de cargos como uma medida política legítima. Curiosamente, e de forma talvez pouco consistente, na resposta a estas observações de Gutmann, Walzer, após reafirmar que não considera que exista um terceiro significado social deste bem que sirva de justificação à contratação preferencial, admite que estas medidas podem ser encaradas pelos defensores da i.c. como excepções aos seus princípios. (Cf. Walzer, 1995, 283.)

Para evitar injustiças decorrentes da aplicação estrita do princípio da i.c., Gutmann propõe a seguinte alteração na sua formulação: “todos os bens devem ser distribuídos de acordo com os seus significados sociais se todos os outros bens que estão ao serviço de propósitos sociais coincidentes estiverem também distribuídos.” (Gutmann, 1995, 107) Se a distribuição de bens com funções sociais similares não estiver assegurada, a i.c. torna‑se um princípio injusto. Gutmann afirma assim que a justiça é necessariamente interesférica, isto é, ela requer interligações entre os princípios distributivos das esferas que a i.c. não prevê. “Se é provável que a injustiça prevaleça numa esfera, então os padrões distributivos de uma esfera parcialmente coincidente podem precisar de ser revistos (temporariamente) para darem conta da injustiça.” (Ibidem) As esferas podem sobrepor‑se parcialmente, já que os diferentes bens possuem relações fortes uns com os outros. Existe uma certa comensurabilidade entre eles, mesmo que sejam distribuídos por esferas diferentes. As injustiças que ocorrem numa esfera afectam a justiça noutras. Por exemplo, os múltiplos significados sociais do emprego provocam interferências com outras áreas da sociedade. Assim, Gutmann afirma que a i.c. não pode fazer outra coisa senão escolher um de entre os significados sociais em questão nesta esfera. Pelo contrário, uma solução interesférica, como ela defende, assentaria na análise detalhada de todos os argumentos apresentados por cada proposta. “O que a igualdade complexa caracteriza como significados sociais concorrentes parece mais um desentendimento moral, e o desentendimento moral inclui considerações que não são específicas à esfera do desemprego.” (Idem, 110) Gutmann procura salientar que os significados sociais quando colidem entre si demonstram que devem existir considerações morais exteriores a eles, e comuns a várias esferas, que possam ajudar na deliberação sobre os princípios de justiça. Na existência desses elementos morais interesféricos assenta a segunda razão pela qual Gutmann considera que a i.c. não descreve correctamente a enorme complexidade que envolve as questões da justiça. Gutmann refere que algumas dessas considerações morais atravessam as várias esferas determinando a sua configuração distributiva, tais como responsabilidade individual, a igualdade de cidadania ou a dignidade humana. Estes aspectos não constituem, por si só, o significado social de nenhum bem, no entanto, influenciam decisivamente a forma como pensamos e concebemos a distribuição de bens sociais. Não provocam, no entender de Gutmann, nenhum perigo de predomínio ou tirania. Essas considerações morais transversais implicam a diminuição da autonomia distributiva das esferas de justiça walzerianas, mas não eliminam as suas fronteiras. A justiça social continua uma tarefa complexa, embora um pouco mais do que Walzer inicialmente pensava.

Bibliografia

Bellamy, Richard, (1998) «Justice in the community: Walzer on pluralism, equality and democracy», in David Boucher, Paul Kelly (eds.) (1998) Social justice from Hume to Walzer, London, Routledge, pp. 157-180.

Cohen, Joshua, (1986) «Review of spheres of justice», in Will Kymlicka (ed.) (1992), Justice in political philosophy, vol II - critiques and alternatives, Aldershot, Edward Elgar Publishing Company, pp. 323-334.

Gutmann, Amy, (1995) «Justice across spheres», in David Miller, Michael Walzer, (eds.) (1995) Pluralism, justice and equality, Oxford, Oxford University Press, pp. 99-119.

Mulhall, Stephen / Swift, Adam, (1996) El individuo frente a la comunidad, tr. Enrique López Castellón, Madrid, Ediciones Temas de Hoy.

Thiebaut, Carlos, (1992) Los limites de la comunidad, Madrid, Centro de Estudios Constitucionales.

Walzer, Michael (1999), As esferas da justiça – Em defesa do pluralismo e da igualdade, tr. Nuno Valadas, Lisboa, Editorial Presença [1983].

-------- (1987), Interpretation and social criticism, Cambridge - Massachusetts, Harvard University Press

-------- (1996), La critique sociale au vingtième siècle: solitude et solidarité, tr. S. McEvoy, Paris, Éditions Metailié.

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--------- (1984), «Liberalism and the art of separation», em ARNESON, Richard J. (ed.) (1992), Liberalism, Aldershot, Edward Elgar Publishing, pp. 137-152. Ver data do paper original.

--------- (1995), «Response», in David Miller, Michael Walzer, (eds.) (1995) Pluralism, justice and equality, Oxford, Oxford University Press, pp. 281-297.

19/03/2009

Livre-arbítrio e determinismo

Embora façamos homenagens verbais ao nosso amor ao livre-arbítrio, na hora da verdade agarramo-nos ao determinismo para nos salvarmos. (…) Assim o fazem todos os criminosos que utilizam a defesa de insanidade ou de responsabilidade diminuída. Assim o fazem todos os cônjuges ciumentos que utilizam a defesa da insanidade temporária depois de terem assassinado o parceiro infiel. Assim o faz o parceiro infiel quando justifica a infidelidade. Assim o fazem todos os grandes empresários que utilizam a culpa da doença de Alzheimer quando acusados de fraude contra os accionistas. Assim o faz uma criança no recreio ao dizer que um amigo o obrigou a fazê-lo. Assim o faz cada um de nós quando voluntariamente alinhamos com uma sugestão subtil do terapeuta de que devemos culpar os nossos pais pela nossa infelicidade actual. Assim o faz um político que culpa as condições sociais pela criminalidade da zona. (…) Assim o fazem todas as pessoas que consultam o horóscopo. Em cada caso existe um abraço voluntário, feliz e agradecido ao determinismo. Longe de amarmos o livre-arbítrio, parecemos ser uma espécie que positivamente se precipita para o entregar sempre que pode.

18/03/2009

David Hume – Percepções

Todos admitirão prontamente que existe uma diferença considerável entre as percepções (perceptions) da mente, quando um homem sente a dor de um calor excessivo ou o prazer de um ardor moderado, e quando ele depois traz à memória a sua sensação (sensation) ou a antecipa mediante a sua imaginação (imagination). Estas faculdades podem mimar ou copiar as percepções dos sentidos, mas nunca podem inteiramente atingir a força e a vivacidade do sentimento (sentiment). (…) O mais vivo pensamento (thought) é ainda inferior à mais baça sensação (sensation). (…)
Podemos, pois, dividir aqui todas as percepções da mente em duas classes ou tipos, que se distinguem pelos seus graus de força e vivacidade. As menos intensas e vivas são comummente designadas Pensamentos (thoughts) ou Ideias (ideas). O outro tipo carece de um nome na nossa linguagem e em muitas outras; (…) chamemos-lhes Impressões (impressions), empregando esta palavra num sentido um tanto diverso do habitual. Pelo termo impressão significo todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos. E as impressões distinguem-se das ideias, que são as impressões menos intensas, das quais somos conscientes quando reflectimos sobre qualquer das sensações ou movimentos acima mencionados.
David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, tr. Artur Morão, Ed. 70, pp. 23, 24

17/03/2009

Phineas Gage, o que nos acontece e o livre-arbítrio

Corre o Verão de 1848. Estamos em Nova Inglaterra. Phineas P. Gage, 25 anos de idade e capataz da construção civil, aproxima-se de um precipício. Um século e meio mais tarde, a sua derrocada ainda será rica em ensinamentos. Gage trabalha para os caminhos de ferro Ruthland & Burlington e tem a seu cargo um grande número de homens. (…) Ele coordena todas estas tarefas e está à altura delas. (…) Aos olhos dos seus superiores, Gage não é apenas um outro par de braços. Definem-no como o homem «mais eficiente e capaz».

(…) E é agora que tudo se vai desenrolar. São 4,30 h de uma tarde escaldante. Gage acabou de colocar a pólvora e o rastilho num buraco e disse ao homem que o estava a ajudar para colocar a areia. (…) Distraído (…) começa a colocar a pólvora directamente com o bastão de ferro. Num ápice, provoca uma faísca na rocha e a carga explosiva rebenta-lhe directamente no rosto. (…) O ferro entra pela face esquerda de Gage, trespassa a base do crânio, atravessa a parte anterior do cérebro e sai a alta velocidade pelo topo da cabeça. (…)

A sobrevivência torna-se tanto mais surpreendente quando se toma em consideração a forma e o peso da barra de ferro: (…) o ferro que lhe atravessou o crânio pesa cerca de 6 quilos, mede cerca de um metro de comprimento e tem aproximadamente 3 centímetros de diâmetro. (…)
Phineas Gage será dado como são em menos de dois meses. No entanto, estes resultados espantosos passam para segundo plano quando são comparados com a extraordinária modificação que a personalidade de Gage está prestes a sofrer. (…)

Gage podia tocar, ouvir, sentir, e nem os membros nem a língua estavam paralisados. Tinha perdido a visão do olho esquerdo, mas a do direito estava perfeita. Caminhava firmemente, utilizava as mãos com destreza e não tinha qualquer dificuldade assinalável na fala ou na língua. No entanto (…), mostrava-se agora caprichoso, irreverente, usando por vezes a mais obscena das linguagens, o que não era anteriormente seu costume, manifestando pouca deferência para com os seus colegas, impaciente relativamente a restrições ou conselhos quando eles entravam em conflito com os seus desejos, por vezes determinadamente obstinados, outras ainda caprichoso e vacilante, fazendo muitos planos para acções futuras que tão facilmente eram concebidos como abandonados. (…) As mais severas repreensões (…) falharam na tentativa de fazer com que o nosso sobrevivente voltasse a ter um bom comportamento. (…) Sofreu uma mudança tão radica! Que os seus amigos e conhecidos dificilmente o reconheciam. Observavam entristecidos que «Gage já não era Gage».

(…) As alterações na personalidade de Gage não foram subtis. Ele já não conseguia fazer escolhas acertadas, e as que fazia não eram simplesmente neutras. Não eram as decisões reservadas e apagadas de alguém cuja mente está diminuída e que receia agir, mas sim decisões activamente desvantajosas. Pode arriscar-se a ideia de que o seu sistema de valores era agora diferente ou, se era o mesmo, não existia maneira de os seus antigos valores influenciarem as decisões que tomava. (…)

16/03/2009

Promessa mentirosa

Ponhamos por exemplo a questão seguinte: - Não posso eu, quando me encontro em apuro, fazer uma promessa com a intenção de a não cumprir? (…) Ficaria eu satisfeito de ver a minha máxima (de me tirar de apuros por meio de uma promessa não verdadeira) tomar o valor de lei universal (tanto para mim como para os outros)? E poderia eu dizer a mim mesmo: - Toda a gente pode fazer uma promessa mentirosa quando se acha numa dificuldade de que não pode sair de outra maneira? Em breve reconheço que posso, em verdade, querer a mentira, mas que não posso querer uma lei universal de mentir; pois, segundo uma tal lei, não poderia propriamente haver já promessa alguma, porque seria inútil afirmar a minha vontade relativamente às minhas futuras acções a pessoas que não acreditariam na minha afirmação, ou se precipitadamente o fizessem, me pagariam na mesma moeda. Por conseguinte, a minha máxima, uma vez arvorada em lei universal, destruir-se-ia a si mesma necessariamente.
Não preciso, pois, de perspicácia de muito largo alcance para saber o que hei-de fazer para que o meu querer seja moralmente bom. Inexperiente a respeito do curso das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se venham a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: - Podes tu querer também que a tua máxima se converta em lei universal? Se não podes, então deves rejeitá-la (…).
Kant, Fundamentação da metafísica dos Costumes, tr. Paulo Quintela, Porto Editora, pp. 40, 41.

15/03/2009

Culpado ou inocente?

Uma jovem recebe duas cartas no mesmo dia; uma contém um convite do seu namorado para ir a um concerto; a outra é um pedido de visita a uma criança doente num bairro extremamente degradada A jovem adora música e tem pavor de bairros miseráveis, de ruas pestilentas. Receia contrair doenças ou infecções. Contudo, vai visitar a criança e desiste do concerto, Porquê?
Porque o sentido do dever se sobrepõe ao prazer. Ora, o sentido do dever é em parte determinado pela natureza da jovem — pela sua hereditariedade — e, sobretudo, pelo meio, isto é, pela sua educação. Esta jovem foi bem-educada. A hereditariedade e a educação fizeram dela o que é e determinaram-na a fazer o que fez. Podemos dizer que a jovem escolheu o que fez, mas agiu conforme tinha sido ensinada, como era seu dever agir. Escolhemos, mas aquilo que motiva as nossas decisões está pré-determinado pela hereditariedade e pelo meio.
É ilusório pensar que podemos transcender ou elevar-nos acima do nosso património genético e da nossa educação. O ser humano não pode agir de modo diferente daquele que a sua hereditariedade e educação determinaram.

14/03/2009

Mill: Motivo e regra da acção

Dizem que ordenar que as pessoas ajam sempre com o objectivo de promover os interesses gerais da sociedade é exigir demasiado. Mas dizer isto é perceber mal o próprio significado de um padrão moral e confundir a regra da acção com o seu motivo. Compete à ética dizer-nos quais são os nossos deveres, ou por meio de que teste podemos conhecê-los, mas nenhum sistema de ética exige que o único motivo do que fazemos seja o sentimento do dever; pelo contrário, noventa e nove centésimos de todas as nossas acções são realizadas por outros motivos - e bem realizadas, se a regra do dever não as condenar. É extremamente injusto para o utilitarismo que esta incompreensão específica suscite uma objecção, visto que os moralistas utilitaristas foram além de quase todos os outros ao afirmar que o motivo, embora seja muito relevante para o valor do agente, é irrelevante para a moralidade da acção. Aquele que salva um semelhante de se afogar faz o que está moralmente certo seja o seu motivo o dever, seja a esperança de ser pago pelo incómodo (...).
Stuart Mill, Utilitarismo, tr. Pedro Galvão, Porto Editora, pp. 58, 59.

13/03/2009

Determinismo biológico?

Jim Springer e Jiim Lewis são gémeos idênticos. Foram separados com a idade de 4 semanas e não se viram um ao outro até aos 39 anos de idade. Mesmo assim partilham misteriosas semelhanças que parecem mais ficção do que factos. Por exemplo, trabalharam ambos a tempo parcial como ajudantes de xerife, fizeram férias na Florida, ambos conduziram Chevrolets, tiveram cães chamados Toy, casaram-se e divorciaram-se de mulheres chamadas Betty. Para além disso, um gémeo deu ao seu filho o nome de James Allan, e o outro chamou ao seu filho James Allan. Ambos gostam de matemática mas não de ortografia e ambos gostam de carpintaria e de desenho mecânico. Ambos roeram as unhas até ao sabugo e têm hábitos de bebida e fumo quase idênticos. Ambos tiveram hemorróidas, têm o mésmo peso e sofreram de hepatite pelos 18 anos. Também têm os mesmos padrões de sono.

Jim e Jim manifestam também algumas diferenças. Um usa o cabelo para a testa enquanto o outro o puxa para o lado. Um expressa-se melhor verbalmente; o outro é mais proficiente a escrever. Na maioria dos casos, no entanto, são mais semelhantes do que diferentes.
Os gémeos Jim e Jim fazem parte do Minnesota Study of Twins Reared Apart. Os investigadores trouxeram gémeos idênticos (geneticamente idênticos porque vieram do mesmo ovo) e fraternos (geneticamente diferentes porque vieram de dois ovos) de todo o mundo para investigar os aspectos psicológicos da sua vida. Por exemplo, os gémeos foram entrevistados e responderam a mais de quinze mil perguntas sobre a família e ambiente de infância, interesses pessoais, orientação vocacional, valores e juízos estéticos. Foram obtidas histórias médicas detalhadas, incluindo informação sobre os seus hábitos de fumadores, dieta e exercício. Os investigadores também obtiveram raios X e EEGs (testes de ondas cerebrais). Os gémeos passaram também por um certo número de testes de personalidade, habilidade e inteligência. Muitos argumentaram que muitas das semelhanças pouco comuns descobertas no estudo dos gémeos eram prova de uma base genética para hábitos, gostos e comportamentos. Críticos deste tipo de estudo discordam de tal conclusão. Salientam que alguns dos gémeos separados estiveram juntos durante alguns meses antes da sua adopção, que alguns gémeos foram reunidos antes de passarem pelos testes (em alguns casos um certo número de anos mais cedo), que as agências de adopção muitas vezes colocam os gémeos em casas semelhantes e que mesmo estranhos que passem algumas horas juntos e comecem a comparar as suas vidas, podem descobrir coincidências similares. Apesar disso, mesmo em face de tais críticas, o estudo de Minnesota demonstrou o interesse dos cientistas na investigação da relação entre genética, meio e personalidade.

12/03/2009

Deus e o utilitarismo

Não é raro ouvirmos injuriar a doutrina da utilidade por ser uma doutrina sem Deus. Caso seja necessário contrariar uma suposição tão fraca, podemos dizer que a questão depende da ideia que formamos do carácter moral da Divindade. Se for verdadeira a crença de que Deus deseja, acima de todas as coisas, a felicidade das suas criaturas, e que foi este o propósito da criação, a utilidade, além de não ser uma doutrina alheia a Deus, é mais profundamente religiosa do que qualquer outra.
Stuart Mill, Utilitarismo, tr. Pedro Galvão, Porto Editora, p. 62.

11/03/2009

Determinismo e auto-determinação

Vou contar um caso dramático. Já ouviste falar das térmitas, essas formigas brancas que, em Africa, constroem formigueiros impressionantes, com vários metros de altura e duros como pedra? Uma vez que o corpo das térmitas é mole, por não ter a couraça de quitina que protege outros insectos, o formigueiro serve-lhes de carapaça colectiva contra certas formigas inimigas, mais bem armadas do que elas. Mas por vezes um dos formigueiros é derrubado, por causa de uma cheia ou de um elefante (os elefantes, que havemos nós de fazer, gostam de coçar os flancos nas termiteiras). A seguir, as térmitas-operário começam a trabalhar para reconstruir a fortaleza afectada, e fazem-no com toda a pressa. Entretanto, já as grandes formigas inimigas se lançam ao assalto. As térmitas-soldado saem em defesa da sua tribo e tentam deter as inimigas. Como nem no tamanho nem no armamento podem competir com elas, penduram-se nas assaltantes tentando travar o mais possível o seu avanço, enquanto as ferozes mandíbulas invasoras as vão despedaçando. As operárias trabalham com toda a velocidade e esforçam-se por fechar de novo a termiteira derrubada.., mas fecham-na deixando de fora as pobres e heróicas térmitas-soldado, que sacrificam as suas vidas pela segurança das restantes formigas. Não merecerão estas formigas-soldado pelo menos uma medalha? Não será justo dizer que são valentes? Mudo agora de cenário, mas não de assunto. Na Ilíada, Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro de Tróia, que espera a pé firme fora das muralhas da sua cidade Aquiles, o enfurecido campeão dos Aqueus, embora sabendo que Aquiles é mais forte do que ele e que vai provavelmente matá-lo. Fá-lo para cumprir o seu dever, que consiste em defender a família e os concidadãos do terrível assaltante. Ninguém tem dúvidas: Heitor é um herói, um Homem valente como deve ser. Mas será Heitor heróico e valente da mesma maneira que as térmitas-soldado, cuja gesta milhões de vezes repetida nenhum Homero se deu ao trabalho de contar? Não faz Heitor, afinal de contas, a mesma coisa que qualquer uma das térmitas anónimas? Por que nos parece o seu valor mais autêntico e mais difícil do que o dos insectos? Qual é a diferença entre um e outro caso? Muito simplesmente, a diferença assenta no facto de as térmitas-soldado lutarem e morrerem porque têm que o fazer, sem que possam evitá-lo (como a aranha come a mosca). Heitor, pelo seu lado, sai para enfrentar Aquiles porque quer. As térmitas-soldado não podem desertar, nem revoltar nem fazer cera para que outras vão em seu lugar: estão programadas necessariamente pela natureza para cumprir a sua heróica missão, O caso de Heitor é distinto. Poderia dizer que está doente ou que não tem vontade de se bater com alguém mais forte do que ele. Talvez os seus concidadãos lhe chamassem cobarde e o considerassem insensível ou talvez lhe perguntassem que outro plano via ele para deter Aquiles, mas é indubitável que Heitor tem a possibilidade de se recusar a ser herói. Por muita pressão que os restantes exercessem sobre ele, ele teria sempre maneira de escapar daquilo que se supõe que deve fazer: não está programado para ser herói, nem o está seja que homem for. Daí que o seu gesto tenha mérito e que Homero nos conte a sua história com urna emoção épica. Ao contrário das térmitas, dizemos que Heitor é livre e por isso admiramos a sua coragem.

10/03/2009

Excepção ao Imperativo categórico

O imperativo categórico é, portanto, só um único, que é este: Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.
(...)
Se agora prestarmos atenção ao que se passa em nós mesmos sempre que transgredimos qualquer dever, descobriremos que, na realidade, não queremos que a nossa máxima se torne lei universal, porque isso nos é impossível; o contrário dela é que deve universalmente continuar a ser lei; nós tomamos apenas a liberdade de abrir nela uma excepção para nós, ou (também só por esta vez) em favor da nossa inclinação.
Kant, Fundamentação da metafísica dos Costumes, tr. Paulo Quintela, Porto Editora, p. 59-61.

09/03/2009

Uma defesa do livre-arbítrio

E chegamos assim à palavra fundamental de toda esta embrulhada: liberdade. Os animais (para já não falar nos minerais e nas plantas) não podem evitar ser como são e fazer aquilo que naturalmente estão programados para fazer. Não se lhes pode censurar que o façam nem aplaudi-los pelo que fazem, porque não sabem comportar-se de outro modo. As suas disposições obrigatórias poupam-lhes sem dúvida muitas dores de cabeça. Em certa medida, de início, nós, homens, também estamos programados pela Natureza. Estamos feitos para beber água, e não lixívia, e tomemos as precauções que tomarmos, mais cedo ou mais tarde, morreremos. E de modo menos imperioso mas análogo, o nosso programa cultural é também determinante: o nosso pensamento é condicionado pela linguagem que lhe dá forma (uma linguagem que nos é imposta de fora e que não inventámos para nosso uso pessoal) e somos educados em certas tradições, hábitos, formas de comportamento, lendas…; numa palavra, são-nos inculcadas desde o berço certas fidelidades e não outras. Tudo isto pesa muito e faz com que sejamos bastante previsíveis, (…) mas por grande que seja a nossa programação biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente). Podemos dizer “sim” ou “não”, quero ou não quero. Por muito apertados que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho a seguir, mas sempre vários. (…) Não somos livres de escolher o que nos acontece (ter nascido certo dia, de certos pais, em tal país, sofrer de um cancro ou ser atropelado por um carro, ser bonitos ou feios, que os Aqueus queiram conquistar a nossa cidade, etc.), mas somos livres de responder desta maneira ou daquela ao que nos acontece {obedecer ou revoltar-nos, ser prudentes ou temerários, vingativos ou resignados, vestir-nos de acordo com a moda ou disfarçar-nos de ursos das cavernas, defender Tróia ou fugir, etc.).

07/03/2009

A deificação do Homem

Com ferramentas o Homem aperfeiçoa os seus órgãos – tanto os motores como os sensoriais – ou elimina as barreiras que se opõem à sua acção. As máquinas conferem-lhe gigantescas forças que pode dirigir, como os seus músculos, em qualquer direcção: graças ao navio e ao avião, nem o ar nem a água conseguem limitar os seus movimentos. Com a lente corrige os defeitos do seu cristalino e com o telescópio contempla as mais remotas distâncias; mercê do microscópio supera os limites do visível impostos pela estrutura da retina. Com a máquina fotográfica, criou um instrumento que fixa as impressões ópticas fugazes, serviço que o fonógrafo (gravador) lhe presta com as não menos fugazes impressões auditivas, constituindo ambos os instrumentos materializações da sua inata faculdade de recordar, isto é, da memória. Com a ajuda do telefone ouve a distâncias que um conto de fadas tomaria como inalcançáveis. (…)


Dir-se-ia que é como um conto de fadas, esta realização de todos ou quase todos os seus desejos fabulosos, conseguida pelo Homem com a sua ciência e com a sua técnica nesta terra que o viu aparecer pela primeira vez como um débil animal (…). O Homem pode considerar todos estes bens como conquista da cultura. Desde há muito já se tinha forjado um ideal de omnipotência e de omnisapiência que encarnou nos deuses, atribuindo-lhes tudo o que parecia inacessível aos seus desejos ou lhe estava vedado, de modo que bem podemos considerar estes deuses como ideais de toda a cultura. Agora que se encontra muito perto de alcançar este ideal, quase ele
próprio se chegou a converter num deus. (…) O Homem tornou-se, por assim dizer, um deus com próteses: bastante magnífico quando coloca todos os seus artefactos sem contudo estes nascerem do seu corpo e apesar de por vezes lhe causarem muitos dissabores. (…) Tempos futuros trarão novos, e quem sabe, inconcebíveis progressos neste terreno da cultura, exaltando ainda mais a deificação do Homem.


Freud, El Malestar en la Cultura, Obras Completas, Vol. III, Editorial Biblioteca Nueva, 1981, pp. 3033-3034

06/03/2009

Entrevista a Noam Chomsky


Barack Obama é um produto da “indústria de relações públicas que governa as extravagâncias quadrienais denominadas eleições”. A avaliação tem a assinatura do académico norte-americano Noam Chomsky, que, em entrevista ao site da RTP, desmonta a ideia de “mudança” da “marca Obama” e aponta a satisfação de “nacionalistas de direita” e “elites corporativas”.

No trajecto para a Casa Branca, Barack Obama apresentou-se como um agente de “mudança” e “esperança”. Muitos consideraram hipnótica a retórica do candidato democrata e grande parte da Europa viu em Obama uma figura histórica capaz de restaurar a ideia de uma América farol da liberdade e da democracia, longe da perspectiva do antigo secretário da Defesa Donald Rumsfeld, que opunha os Estados Unidos à “velha Europa”. Na realidade, o que é que a Europa e o resto do Mundo podem esperar do 44.º Presidente?

Pessoalmente achei a retórica irritante, não hipnótica.

A melhor descrição da sua campanha foi dada pela enorme indústria de relações públicas, que governa as extravagâncias quadrienais denominadas “eleições”. A principal publicação da indústria atribui um prémio à melhor campanha de marketing do ano. Em Dezembro deram-no a Obama, que bateu os computadores da Apple.

Figuras de topo da indústria ficaram maravilhadas com o sucesso do marketing da “marca Obama”, através dos mesmos métodos utilizados para vender pasta de dentes e automóveis: não pelo fornecimento de informação sobre o produto, como sabem todos os que já viram anúncios de televisão, mas antes pela ilusão, pela imagética e pela “retórica ascendente”.

Os executivos revelaram que têm vindo a comercializar candidatos como produtos desde a campanha de Reagan e que este foi o seu maior sucesso até à data. Vai ser um modelo para conselhos de administração e campanhas de publicidade, acrescentaram.

Eles comercializaram a “marca Obama” colocando a ênfase em alguns chavões vagos como “esperança” e “mudança em que pode acreditar”, enquanto ofereciam um cheque praticamente em branco no qual as pessoas poderiam inscrever os seus desejos e sonhos.

Os americanos não foram tão iludidos como os europeus. Talvez porque estão mais familiarizados com os anúncios comerciais.

Um facto assinalável sobre as eleições foi o de a margem de vitória ter sido tão pequena. Era expectável que o partido da Oposição conseguisse uma vitória larga, quando 80 por cento da população pensava que o país estava a caminhar na direcção errada, que tínhamos atravessado oito anos do pior desempenho económico de qualquer Presidente do pós-II Guerra Mundial, que a economia estava em colapso, que a posição dos Estados Unidos no Mundo tinha caído para um mínimo histórico e que virtualmente tudo aquilo em que a Administração Bush tocasse se transformaria numa catástrofe. Mas Obama perdeu entre os americanos brancos e, se a crise financeira tivesse sido adiada, poderia nem sequer ter vencido, embora tivesse de longe o maior financiamento, sobretudo da indústria financeira, que o preferia a McCain.

Mas foi tudo apenas retórica e marketing, ou houve alguma substância na agenda de “mudança”?

Haverá certamente alguma mudança. Qualquer candidato se teria afastado do extremismo radical da Administração Bush.

Encerrar Guantánamo, permitir a investigação com células estaminais e alguns passos domésticos rumo ao centro que Obama tem empreendido são bem-vindos pelas elites corporativas. Não há muito mais a assinalar.

O professor sublinhou, num texto recente, que as escolhas do Presidente Obama para o Executivo agradaram, de certa forma, aos republicanos. Há mesmo quem diga que até os neoconservadores estão a aplaudir. Que medida de “mudança” pode a nova Administração produzir se o gabinete de Obama está assim tão inclinado para um tal nível de consistência face a políticas anteriores?

Não há qualquer razão para supor que eles alguma vez tenham desejado muita mudança.

A crise económica assume agora a prioridade, é claro. Obama virou-se imediatamente para as pessoas que foram instrumentais ao criá-la: Robert Rubin, Lawrence Summers e outros como eles.

Eles vão instituir a mudança, sem dúvida, agora que as suas doutrinas fundamentalistas foram completamente refutadas. Vai haver, certamente, alguma regulação de instituições financeiras e instrumentos exóticos, talvez mais ainda se a economia que ajudaram a desenhar resvalar para a catástrofe.

Nos Negócios Estrangeiros, as escolhas de Obama agradaram, com efeito, aos nacionalistas de direita, compreensivelmente.

Hillary Clinton como secretária de Estado, James Jones como conselheiro de Segurança Nacional, Dennis Blair como director de Informações e, finalmente, o secretário da Defesa de Bush, Robert Gates, perpetuado no cargo. Será esta equipa de segurança nacional a melhor escolha para promover a política internacional de “poder inteligente”? E terá o conceito algum significado real, à luz dos recentes acontecimentos na Faixa de Gaza?

Não há mais razões para esperar “poder inteligente” com Obama do que sob o segundo mandato de Bush, que foi muito diferente do primeiro, depois de extremistas do tipo de Rumsfeld, Wolfowitz e Feith terem sido expulsos: eles não puderam remover Cheney porque, essencialmente, ele era a Administração.

Gaza foi um bom teste. Obama permaneceu em silêncio sob o pretexto de que “há um único Presidente”, o que não o impediu de falar sobre uma gama de outros assuntos, domésticos e internacionais.

Sabemos de fontes israelitas que a invasão foi meticulosamente planeada. Certamente pelo desenho, acabou imediatamente antes da tomada de posse, para que Obama pudesse produzir nada mais do que alguns chavões sobre a sua dor perante as baixas civis em ambos os lados.

O seu primeiro discurso sobre política externa recaiu sobre Israel e a Palestina. Ele é uma pessoa inteligente e as palavras foram cuidadosamente escolhidas. Depois de sublinhar que a segurança de Israel é a sua primeira preocupação, mencionou outra proposta substantiva: o apelo da Liga Árabe no sentido de uma solução de dois Estados nos termos do consenso internacional que os Estados Unidos e Israel têm bloqueado nos últimos 30 anos e, nesse contexto, a normalização de relações com Israel.

Obama omitiu o núcleo da proposta e exortou os Estados árabes a avançarem para a normalização. Dificilmente poderia ter afirmado de forma mais clara que está comprometido com o caminho de rejeição dos seus predecessores. É um assinalável salto de fé divisar qualquer recurso ao “poder inteligente” ou expectativa de “mudança”.

Ao deixar a Casa Branca, George W. Bush disse várias vezes que aguardava um julgamento bondoso da História. O Presidente Obama quer desviar as forças militares dos Estados Unidos do Iraque para o Afeganistão. Poderá Bush obter o seu desejo, se a estratégia da Administração Obama para o esforço de guerra falhar?

É possível. No Afeganistão, Obama está a seguir políticas mais militaristas e violentas do que Bush e a ignorar por completo as alternativas pacíficas, que existem.

O Presidente Karzai terá provavelmente espelhado a opinião afegã quando, na sua primeira mensagem enviada a Obama, pediu o fim dos ataques contra civis e defendeu um calendário para a retirada das forças estrangeiras, sobretudo dos Estados Unidos. É claro que ele foi completamente ignorado, excepto na afirmação de que se estaria a tornar pouco digno de confiança e que poderia ter de ser afastado.

Não deveria o Paquistão ser a prioridade?

Graças ao apoio de Ronald Reagan ao malicioso ditador Zia ul-Haq, o Paquistão foi significativamente “islamizado”, com o recrudescimento de correntes fundamentalistas radicais que têm causado danos severos ao país.

O Paquistão é agora vulgarmente descrito como o país mais perigoso do planeta e não de uma forma irrealista.

Inverter estes desenvolvimentos deveria ser uma prioridade muito alta. Não há sinais disso no planeamento de Obama. Na verdade, Afeganistão e Paquistão nem sequer apareceram entre os assuntos de política externa no site da campanha de Obama.

A Administração Obama prometeu fazer vingar uma nova estratégia e gastar milhares de milhões de dólares – “dinheiro dos contribuintes”, como o Presidente afirmou – para salvar a economia dos Estados Unidos. Até onde pode Barack Obama levar a promessa de uma estratégia que, nas suas próprias palavras, “faça o crédito fluir para empresas e famílias”?

Os economistas, de uma forma geral, mostram-se cépticos. Muitos recomendam um pacote de despesa muito mais alargado.

Os planos para resgatar o sistema bancário, que está quase na bancarrota, motivaram ainda mais cepticismo.

É incerto que alguma coisa possa ser feita, a não ser que o Governo assuma, basicamente, o controlo dos bancos, investigue os negócios ocultos e os obrigue a suster a economia ao invés de acautelar os interesses de directores e do núcleo dos accionistas ricos – ou passe a controlá-los por completo.

Barack Obama veio a público com a ideia de um ataque contra “a arrogância e a ganância” em Wall Street. O Presidente dos Estados Unidos citou mesmo algumas firmas que, “enquanto se candidatavam à assistência dos contribuintes, pagaram vergonhosamente quase 20 mil milhões de dólares em prémios de 2008”. Estará a equipa de conselheiros financeiros e económicos de Obama – e a sua escolha para o Tesouro, Timothy Geithner – à altura da tarefa?

O país está de tal modo indignado com Wall Street que está quase preparado para a desfazer em pedaços.

Qualquer Presidente estaria obrigado a ter algum gesto que indicasse que partilhava esses sentimentos. Obama fê-lo e impôs um limite de meio milhão de dólares para as compensações anuais de directores de bancos resgatados pelos contribuintes. No momento em que as regras estão a ser escritas, é incerto que venham a aplicar-se a mais do que uns poucos.

Quanto a saber se os conselheiros estão à altura da tarefa, depende do que for a tarefa. Eles poderão ser capazes de direccionar fundos públicos para reconstituir algo como o sistema de autoridade e privilégios que tão miseravelmente falhou na satisfação das necessidades do público e das gerações futuras.

Perfil

Filósofo, linguista, literato, ensaísta, socialista libertário, Némesis do imperialismo e dos conservadorismos neo e clássico – são múltiplos os atributos e epítetos que encaixam na personalidade política ou no percurso profissional de Noam Chomsky, professor no Departamento de Linguística e Filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) desde 1961.

Avram Noam Chomsky nasceu a 7 de Dezembro de 1928 em Filadélfia. O seu percurso académico começou a ser construído na Universidade da Pennsylvania, onde obteria o doutoramento em Linguística em 1955. A dissertação “Transformation Analysis” serviria de base a uma primeira monografia, “Syntactic Structure”, lançada em 1957. A primeira obra de relevo, “The Logical Structure of Linguistic Theory”, seria publicada em 1975.

A entrada para o quadro de professores do MIT acontece em 1955. De 1958 a 1959, Noam Chomsky reparte o trabalho académico entre Massachusetts e o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, em Nova Jérsia. Entre 1969 e 1972, multiplicam-se as conferências em Oxford, Cambridge, Nova Deli e Leiden.

Linguística, filosofia, história intelectual, política externa e doméstica dos Estados Unidos e assuntos contemporâneos são os temas que enformam a extensa obra de Noam Chomsky.

No campo político, o nome do professor de Linguística surge invariavelmente associado à esquerda libertária. No plano doméstico, as consciências político-ideológicas norte-americanas costumam arrumá-lo na incómoda estante do “liberalismo socialista”.

Chomsky terá atingido o cume da controvérsia nos Estados Unidos com a publicação, em 2002, da obra “9-11” (editado em Portugal com o título “Nova Iorque, 11 de Setembro”). No livro, que depressa ascendeu à condição de bestseller, o académico analisa o ataque ao World Trade Center: sem deixar de encarar a acção terrorista como um acto atroz, remete o leitor para os exercícios de poder concretizados ao longo da História pelos Estados Unidos, incluídos no conjunto dos “Estados terroristas”.

Em 2003, o ano da subtracção do regime de Saddam Hussein, saía em Portugal a colectânea de entrevistas e conferências “Iraque – Assalto ao Médio Oriente”. Da análise de Chomsky ressaltava a tese de que o derrube do regime e a então propalada ameaça de arsenais de armas de destruição em massa serviam apenas para mascarar a necessidade de assumir o controlo dos recursos petrolíferos do país e redesenhar, a partir de uma Bagdade pós-Saddam, os factores geoestratégicos do Médio Oriente.

Mais recentemente, a atenção do professor do MIT tem recaído sobre o significado da ascensão de Barack Obama à Casa Branca. Num dos últimos trabalhos dedicados à eleição presidencial de 2008, que enviou por e-mail à redacção do site da RTP, Noam Chomsky estabelece um paralelo entre o trajecto político do primeiro Presidente afro-americano dos Estados Unidos e o antigo Presidente Ronald Reagan.

“O próprio Obama expressou a sua admiração por Reagan enquanto figura transformadora. Obama não se estava a referir aos rios de sangue que Reagan entornou da América Central ao Sul de África e por diante. Nem se estava a referir à grande eficácia de Reagan ao ajudar a transformar o Paquistão num Estado com armas nucleares e poderosas forças radicais islâmicas, com consequências que Obama encara como o maior desafio externo da sua Administração. Por isso, sim, Reagan foi uma figura transformadora no estrangeiro”, escreve Chomsky.

“Ao invés, Obama referia-se à figura imaginária construída por uma fantástica campanha de relações públicas, que ungiu Reagan como o sumo-sacerdote dos mercados livres e do governo reduzido, culminando na comemoração reverencial do Grande Homem com reminiscências da veneração de Kim il-Sung, um dos momentos mais embaraçosos da história moderna da cultura política ocidental”, conclui.

05/03/2009

O Homem para lá do Animal

A nossa espécie, o homem no sentido mais amplo, conseguiu sobreviver e multiplicar-se principalmente pelo aperfeiçoamento do seu equipamento. Tal como ocorre com outros animais, é sobretudo por meio do seu equipamento que o homem actua sobre o mundo exterior e reage em função dele, obtém o seu sustento e escapa aos perigos – em linguagem técnica, adapta-se ao meio ou mesmo ajusta o meio às suas necessidades. O equipamento do homem, porém, difere significativamente dos recursos utilizados pelos outros animais, que os transportam em si mesmos, como parte do corpo. O coelho tem patas adequadas para cavar, o leão tem garras e dentes para estraçalhar a sua caça, o castor tem presas agudas, a maioria dos animais têm pêlos ou cabelos que os mantêm aquecidos – a tartaruga carrega até mesmo a casa às costas. O homem não dispõe de quase nenhum equipamento desse género, e perde mesmo até alguns de tais recursos, que lhe eram naturais nas épocas pré-históricas. Foram substituídos por instrumentos, órgãos não corporais que fabrica, utiliza e despreza, segundo as suas conveniências. Faz picaretas e pás para cavar, armas para matar a caça e o inimigo, enxós e machados para cortar a madeira, roupas para manter-se aquecido no frio, casas de madeira, tijolo ou pedra, para abrigar-se. Os “homens” realmente muito primitivos tinham dentes caninos alongados em mandíbulas maciças que poderiam servir de arma bem perigosa. Esses caninos, porém, desapareceram no homem moderno, cuja dentadura não causa feridas mortais.
Tal como nos outros animais, há decerto uma base fisiológica corporal para o equipamento do homem, e que pode ser resumida em duas palavras, mãos e cérebro. Dispensadas do trabalho de transportar o corpo, as nossas patas dianteiras transformaram-se em instrumentos delicados, capazes de uma surpreendente variedade de movimentos subtis e preciosos. Para controlá-los e colocá-los em relação com as impressões recebidas de fora pelos olhos e outros órgãos dos sentidos, tornamo-nos possuidores de um sistema nervoso complicado e de um cérebro excepcionalmente grande e complexo.

O facto de ser transferível e extracorpóreo dá ao resto do equipamento humano vantagens evidentes. É mais adequado e mais adaptável do que o dos outros animais, cujos recursos só os tornam capazes de viver num meio determinado e sob condições especiais. (…)

Em resumo, o equipamento hereditário do animal é adequado à execução de um número limitado de operações, num determinado meio. O equipamento não corpóreo do homem pode ser ajustado a um número quase infinito de operações - “pode ser”, note-se, e não “é”.

V. Gordon, O Que Aconteceu na História,
Rio de Janeiro, Zahar, 1960, pp. 4-5