Novo endereço

pdf

pdf

29/04/2009

Clonagem: cíbridos


O Reino Unido é o primeiro país do mundo a legalizar a geração de embriões híbridos humano-animal. Mas o impacto da nova lei deverá ir além das suas fronteiras.
Se há uma coisa em que Gordon Brown, primeiro-ministro trabalhista britânico, concorda com David Cameron, líder do partido conservador, é na necessidade de legalizar a criação de embriões mistos de animal e humano. Por razões sociais, certamente, mas também por algumas muito pessoais. Acontece que ambos vivem no dia-a-dia tragédias familiares devido a doenças dos seus filhos: um dos filhos de Brown foi afectado por uma grave doença hereditária, a mucoviscidose, e um dos filhos de Cameron sofre de paralisia cerebral e epilepsia.Mas não terão sido razões de um foro tão íntimo a motivar o voto dos muitos outros deputados de ambos os principais partidos - e não só - que aprovaram esta semana, com liberdade de voto, a nova Lei de Embriologia e Fertilização Humana, que autoriza precisamente a criação de tais embriões. Para isso contribuíram a intensa consulta pública e sobretudo a participação activa, nos debates parlamentares, ao longo de meses, de uma série de cientistas. “A comunidade científica passou imenso tempo a tentar explicar aos deputados o que pretendia fazer”, disse ontem, em conversa telefónica com o PÚBLICO, no seu laboratório do King”s College de Londres, o biólogo Stephen Minger, um dos grandes protagonistas do processo.A aprovação segue-se de facto a meses de controvérsia, com grupos religiosos e pró-vida a ameaçarem com cenários apocalípticos de ficção científica, argumentando que se a nova lei fosse para a frente, os investigadores passariam a brincar impunemente aos Frankensteins. Mas esses apelos não convenceram a maioria dos parlamentares. “Muitos deputados disseram-me que, se não tivéssemos falado com eles, teriam votado contra”, diz Minger. “E muitos mudaram de opinião porque lhes fornecemos a informação suficiente para não terem medo do que queríamos fazer.”O cientista mostra-se manifestamente aliviado, não fosse ele o líder de uma das duas únicas equipas britânicas a terem sido autorizadas, em Janeiro deste ano e no âmbito da actual legislação, em vigor desde 1990, a clonar embriões híbridos: “Vamos finalmente conseguir fazer a nossa investigação sem recearmos que ela possa vir a ser proibida.”
Linhagens de estaminaisA decisão histórica dos britânicos abre as portas à medicina do século XXI, tornando legais quatro categorias de embriões híbridos: os “cíbridos”, os embriões humanos transgénicos, as quimeras e os híbridos verdadeiros.A categoria que interessa particularmente aos cientistas e a Minger em particular - foi precisamente para isso que o seu laboratório obteve a licença em Janeiro - é a dos cíbridos (ou “híbridos citoplásmicos”), obtidos através da mesma técnica que permitiu clonar a ovelha Dolly. Uma célula humana é objecto de uma fusão com um ovócito animal ao qual foi previamente retirado o seu núcleo. O cíbrido resultante contém 99,9 por cento de ADN humano e 0,1 por cento de ADN animal e evita o recurso à doação de ovócitos por mulheres para fins de investigação científica.Mas, no fundo, também não são os cíbridos o objectivo final dos cientistas: estes embriões efémeros, bolinhas de pouco mais de 20 células, destinam-se a atingir um outro fim, que consiste em recolher neles, por volta do quinto ou sexto dia, quando atingem o estádio dito de blastocisto, as famosas células estaminais embrionárias humanas - ou, neste caso, humanas a 99,9 por cento, o que é essencialmente a mesma coisa para os cientistas. Em entrevista dada ao PÚBLICO no ano passado, Minger explicava que o seu objectivo é clonar cíbridos utilizando células de doentes neurológicos - com Alzheimer, Parkinson, etc. - de forma a obter linhagens de células estaminais embrionárias específicas dessas doenças humanas para conseguir estudá-las em laboratório e desenvolver novos tratamentos contra elas.
Chineses à frenteA clonagem de embriões híbridos continuará a ser estritamente regulamentada e controlada, como tem acontecido até agora no quadro da lei de 1990, pela Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA): após um apurado escrutínio de cada projecto, os embriões clonados pelas equipas que forem licenciadas só se poderão desenvolver até aos 14 dias e nunca poderão ser implantados no útero de uma mulher ou de um animal.Ninguém tem a certeza absoluta de que esta abordagem funcione, mas as perspectivas são promissoras. Em Abril, a equipa de Lyle Armstrong, da Universidade de Newcastle - a outra equipa que no Reino Unido foi autorizada em Janeiro pela HFEA a proceder a este tipo de experiências -, anunciou que tinha conseguido criar os primeiros cíbridos de vaca e humano. Os embriões clonados viveram apenas três dias, mas espera-se que os próximos sobrevivam o tempo suficiente para se conseguir colher neles as tão procuradas células estaminais. Por outro lado, já no ano passado uma equipa chinesa anunciara que tinha colhido células estaminais em embriões híbridos de coelho e ser humano. “Esses resultados ainda não foram reproduzidos, mas não tenho razão para duvidar deles, Hui Zhen Sheng [da Universidade de Xangai] é uma cientista de grande qualidade”, diz Minger.E nos outros países?Será que a decisão histórica do Reino Unido vai criar adeptos noutros países, nomeadamente da União Europeia? “Já estamos a assistir a uma liberalização generalizada das atitudes”, responde-nos Minger. “Acho que quando as aplicações médicas estiverem mais próximas da concretização, a oposição aos embriões híbridos vai esbater-se.”Muitos países europeus proíbem actualmente a criação de embriões humanos para fins de investigação científica - a chamada “clonagem terapêutica” - e nenhum deles autoriza a criação de embriões híbridos. Não vão a partir de agora esses países “perder o comboio” da investigação médica? “Nem por isso”, diz Minger, “porque nós tencionamos disponibilizar as nossas linhagens de células estaminais embrionárias [derivadas de embriões híbridos] a todos os cientistas através do Banco de Células Estaminais britânico”.

Publicado originalmente no Jornal Público, sem link, a 25 de Maio de 2008.

28/04/2009

Mill - resposta a uma crítica

Os críticos do utilitarismo nem sempre podem ser acusados de o representarem a uma luz desonrosa. Pelo contrário, aqueles que têm uma ideia minimamente justa do seu carácter desinteressado encontram por vezes uma falha no seu padrão, considerando-o demasiado elevado para a humanidade. Dizem que ordenar que as pessoas ajam sempre com o objectivo de promover os interesses gerais da sociedade é exigir demasiado. Mas dizer isto é perceber mal o próprio significado de um padrão moral e confundir a regra da acção com o seu motivo. Compete à ética dizer-nos quais são os nossos deveres, ou por meio de que teste podemos conhecê-los, mas nenhum sistema de ética exige que o único motivo do que fazemos seja o sentimento do dever; pelo contrário, noventa e nove centésimos de todas as nossas acções são realizadas por outros motivos – e bem realizadas, se a regra do dever não as condenar. É extremamente injusto para o utilitarismo que esta incompreensão específica suscite uma objecção, visto que os moralistas utilitaristas foram além de quase todos os outros ao afirmar que o motivo, embora seja muito relevante para o valor do agente, é irrelevante para a moralidade da acção. Aquele que salva um semelhante de se afogar faz o que está moralmente certo seja o seu motivo o dever, seja a esperança de ser pago pelo incómodo; aquele que trai um amigo que confia em si é culpado de um crime, mesmo que o seu objectivo seja servir outro amigo relativamente ao qual tem maiores obrigações. Mas limitemo-nos às acções praticadas pelo motivo do dever e em obediência directa ao princípio: é uma incompreensão do modo de pensar utilitarista julgar que ele implica que as pessoas devam fixar a sua mente numa generalidade tão grande como o mundo ou a sociedade no seu todo. A grande maioria das boas acções não tem em vista o benefício do mundo, mas o de indivíduos, a partir dos quais se constitui o bem do mundo; e nestas ocasiões os pensamentos do homem mais virtuoso não precisam de ir além das pessoas específicas envolvidas, excepto na medida em que lhe seja necessário assegurar-se de que, ao beneficiá-las, não está a violar os direitos – isto é, as expectativas legítimas e autorizadas – de qualquer outra pessoa.
Mill, Utilitarismo, tr. Pedro Galvão, Porto Editora, 2005, pp. 58-60.

27/04/2009

Embriões excedentários


57% dos 321 casais franceses que abdicaram de usar embriões para futuras gravidezes optaram pela sua destruição
Quando os casais com problemas de fertilidade recorrem a técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA), como é o caso da fertilização in vitro, por vezes nem todos os embriões são usados. Há por isso embriões excedentários congelados em centros de todo o país. Estes casais vão agora ser confrontados com a escolha: ou os dão para investigação ou doam-nos para outros casais com problemas.A lei portuguesa é recente e só desde a sua criação (Julho de 2006) se prevê o destino de embriões excedentários, mas a sua regulamentação só veio em Fevereiro deste ano. Acontece que muitas das clínicas têm mais de dez anos de existência e “não sabiam o que lhes fazer”, lembra Madalena Barata, responsável do Centro de Medicina da Reprodução do British Hospital, em Lisboa. Perante o vazio legal, “as clínicas cautelosamente aguardaram pela lei e têm os embriões guardados”. Segundo a Associação Portuguesa de Infertilidade, existem 18 clínicas de procriação medicamente assistida e 10 centros públicos.Alberto Barros, um dos precursores da PMA em Portugal e professor catedrático da Faculdade de Medicina do Porto, afirma que este “é um problema de todas as clínicas porque não havia destino claro a dar aos embriões”, e isso acontece tanto no sector privado como no público. Na legislação portuguesa define-se, antes de mais, que estes embriões devem ser usados pelo casal para novas gravidezes no espaço de três anos. Ultrapassado este prazo o casal terá que escolher o destino a dar-lhes: a doação para outros casais ou a investigação, sendo que a lei considera que esta é lícita se os embriões tiverem como objectivo, por exemplo, a criação de bancos de células estaminais para transplantação ou outras finalidades terapêuticas.Alberto Barros lembra que do ponto de vista científico não há limites para o prazo máximo de congelação de embriões. “Há crianças nascidas com embriões de mais de dez anos”. O especialista, que é dono de uma clínica de PMA no Porto, não tem conhecimento de investigação sobre embriões realizada em Portugal, até porque desde a entrada em vigor da nova lei têm que ter o aval do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, órgão do qual faz parte. Quanto à doação, nunca conheceu casais que o tenham feito. Contrariamente a outras legislações, “há um vazio” no que toca à possibilidade de [os embriões] serem destruídos”.A política da instituição privada onde Madalena Barata trabalha define que, por norma, os embriões são para ser conservados para uso dos próprios casais, caso decidam ter mais filhos no futuro. À parte destas situações, a obstetra nota que estes casais vão agora ter que optar, por imposição da lei. O Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida informou já as clínicas que está para breve uma declaração de consentimento informado que vai ter que ser usada em todos os centros para pedir aos casais que escolham o destino dos seus embriões congelados, diz Madalena Barata.Em muitos países a escolha do destino a dar a embriões excedentários já se coloca há muito tempo. No último Encontro Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, no ano passado, houve pelo menos quatro estudos sobre o tema. Num deles, em França, a maior parte dos 1338 casais inquiridos escolheu guardar os embriões para futuras gravidezes. Dos 321 que abdicaram de os usar para este fim, a destruição (57 por cento) foi o primeiro destino escolhido, seguido da investigação (29,5 por cento), em último lugar surgiu a doação a outros casais com problemas de fertilidade (13,5 por cento). A menor inclinação para a doação (cinco por cento) repetiu-se num outro estudo, australiano.

Publicado originalmente no jornal Público, sem link a 25 de Março de 2008

26/04/2009

Definir arte

Para definir Arte seria preciso definir Vida; o mesmo é dizer que é impossível definir Arte. todos os esforços neste sentido têm conduzido, invariavelmente, a resultados nulos - fracasso confessado por muitos filósofos da estética. (...)
Deixemos pois de lado esta questão para seguirmos outro caminho, o estudo tectónico do conceito de arte.
Por tectónica de um conceito entendemos o estudo da sua arquitectura própria. Todo o conceito, com efeito, é construído: e a construção do conceito conduz à sua tectónica, e é esta tectónica que, a nosso ver, o define.

Abel Salazar, Que é Arte?, Campo das Letras, 2003, p. 35.

25/04/2009

Clonagem permite cura do cancro de pele


Um norte-americano de 57 anos com o tipo mais maligno de cancro da pele viu a sua doença desaparecer totalmente depois de um tratamento pioneiro com células clonadas do seu sistema imunitário.
O estudo - ontem publicado no “New England Journal of Medicine” - é recebido pelos dermatologistas como “uma excelente notícia”. Até porque, explica Fernando Ribas, do Instituto Português de Oncologia do Porto, “não há nenhum tratamento para o melanoma em fase avançada”, isto é, já metastizado para outros órgãos. “É uma porta que se abre para o futuro”, quando até agora, um caso destes seria apenas tratado paliativamente.
“A quimioterapia pega muito mal nos melanomas e nem sequer há qualquer protocolo de tratamento que resulte”. A quimioterapia que se faz “na maioria dos casos nem consegue atrasar a evolução da doença”, diz o médico, segundo o qual os estudos existentes até hoje não tinham passado da fase de investigação para a do tratamento de um doente, com resultados.
O tratamento consistiu na colheita de linfócitos T do tipo CD4+ (células chave do sistema imunitário) do paciente, que já revelava metásteses num gânglio linfático da virilha e nos pulmões e tinha um prognóstico de um ano de vida. Os linfócitos foram clonados, “limpos” e reinjectados”, sem qualquer outro tratamento complementar.
E o resultado foi a remissão total do cancro. Exames efectuados dois meses depois não revelaram qualquer tumor. E, segundo Cassian Yee, do Centro de Investigação do Cancro Fred Hutchinson e coordenador do estudo, o doente não tem sintomas nem sinais do cancro há dois anos. Mas trata-se de um único caso de sucesso num estudo reduzido a nove pacientes. “Ainda é preciso confirmar a eficácia da imunoterapia em estudos mais alargados”, diz Cassian Yee.
Os melanomas representam cerca de 4% da totalidade dos cancros da pele, sendo os mais malignos. Detectados numa fase inicial (ainda apenas à superfície da pele ou, já depois, antes de atingirem outros órgãos), podem ser curados através da remoção cirúrgica. Portugal conta com 800 novos casos anuais, num total de dez mil novos tumores cutâneos. E os melanomas acabam por ser fatais para cerca de 20% dos doentes.

24/04/2009

Quando é arte?

A literatura da estética está atafulhada com tentativas desesperadas para responder à questão «O que é arte?» Esta questão, muitas vezes irremediavelmente confundida com a questão «o que é boa arte?», é crucial no caso da arte encontrada – a pedra apanhada na entrada da garagem e exposta num museu – e agrava-se ainda mais pela promoção das chamadas arte ambiental e arte conceptual. O pára-lamas amachucado de um carro numa galeria de arte é uma obra de arte? E como considerar algo que nem é sequer um objecto, e não está exposto numa galeria de arte nem num museu – por exemplo, o escavar e encher um buraco no Central Park como prescrito por Oldenburg? Se estas são obras de arte, então todas as pedras nas entradas das garagens, todos os objectos e acontecimentos são obras de arte? Se não o são, o que distingue aquilo que é daquilo que não é uma obra de arte? O facto de estar exposto num museu ou numa galeria? Nenhuma destas respostas faz prevalecer qualquer convicção.

Como observei no início, parte da dificuldade reside em perguntar a questão errada – em não conseguir reconhecer que uma coisa pode funcionar como obra de arte em certos momentos e não noutros. Nos casos cruciais, a verdadeira questão não é «Quais os objectos que são (permanentemente) obras de arte?» mas «Quando é que um objecto é uma obra de arte?» – ou mais brevemente «Quando é arte?»

A minha resposta é que exactamente como um objecto pode ser um símbolo – por exemplo, uma amostra – em certos momentos e em certas circunstâncias e não noutras, assim um objecto pode ser uma obra de arte em certos momentos e não noutros. Na realidade, exactamente por funcionar, e enquanto funcionar, de determinado modo como um símbolo, um objecto torna-se uma obra de arte. A pedra normalmente não é nenhuma obra de arte enquanto está na entrada da garagem, mas pode ser tal quando exposta num museu de arte. Na entrada da garagem, ela não realiza habitualmente nenhuma função simbólica. No museu, ela exemplifica algumas das suas propriedades – e.g. propriedades de forma, cor, textura, etc. – O abrir e fechar do buraco funciona como uma obra enquanto a nossa atenção está dirigida para isso enquanto símbolo exemplificativo. Por outro lado, uma pintura de Rembrandt pode cessar de funcionar como uma obra de arte quando usada para substituir uma janela quebrada ou quando usada como coberta.

Nelson Goodman, Modos de fazer mundos, ASA, pp. 113,114.

23/04/2009

RIchard Dawkins: Fé e Ciência

O que é a Fé? O que é a Ciência? Podem ser complementares? Qual a diferença entre ambos os conhecimentos, se é que se pode falar de conhecimento no domínio religioso?

22/04/2009

Kant e o princípio da felicidade 2

Satisfazer ao mandamento categórico da moralidade está sempre em poder de cada um; satisfazer ao preceito empiricamente condicionado da felicidade só raramente é possível, e muito menos a todos, mesmo se só em relação a um único propósito. A causa é que, no primeiro caso, se trata apenas da máxima, que deve ser autêntica e pura; no segundo, porém, trata-se das forças e do poder físico para tomar real o objecto desejado. Um mandamento que ordenasse a cada um procurar tornar-se feliz seria uma loucura; com efeito, jamais se ordena a alguém o que ele quer inevitavelmente por si mesmo. Seria necessário prescrever-lhe, ou antes, apresentar-lhe simplesmente as medidas a tomar, porque não pode tudo o que quer. Ordenar, porém, a moralidade sob o nome de dever é inteiramente racional; pois, nem todos obedecem de boa vontade aos seus preceitos, se eles se opõem às inclinações (…).
Aquele que perdeu no jogo pode exasperar-se consigo mesmo e com a sua imprudência, mas se está consciente de ter feito batota (embora assim tenha ganho) deve desprezar-se a si mesmo, logo que se compara com a lei moral. Esta deve, pois, ser algo de inteiramente diferente do princípio da própria felicidade. Com efeito, ter de dizer a si mesmo: sou um miserável. Embora tenha enchido a minha bolsa, exige um critério de juízo diverso do de se aprovar a si próprio e dizer: sou um homem prudente, porque enriqueci o meu cofre.
Kant, Crítica da razão prática, tr. Artur Morão, Edições Setenta, Col. Grandes Filósofos, pp. 181, 182.

21/04/2009

O que é a Filosofia?

A filosofia é uma actividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A actividade dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também analisam e clarificam conceitos. (…)

Que tipo de coisas discutem os filósofos? Muitas vezes, examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente «o sentido da vida»: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra «dever»? Estas são questões filosóficas. Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas — uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas.

Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva

20/04/2009

Kant e o princípio da felicidade

O princípio da felicidade pode, sem dúvida, fornecer máximas, mas nunca aquelas que serviriam de leis da vontade, mesmo se se tomasse por objecto a felicidade universal. Com efeito, porque o conhecimento desta se baseia nos simples dados da experiência, uma vez que todo o juízo a seu respeito depende muito da opinião de cada um, a qual é também muito variável, podem certamente dar-se regras gerais, mas nunca regras universais, isto é, regras que, em média, são correctas na maior parte das vezes, mas não regras que devem sempre e necessariamente ser válidas; por conseguinte, nenhumas leis práticas se podem basear neste princípio. Justamente porque um objecto do livre-arbítrio está aqui na base da sua regra e a deve, pois, preceder, esta não pode reportar-se senão ao que se sente, por conseguinte, à experiência, e só nela se pode fundamentar; e, nestas circunstâncias, a diversidade do juízo deve ser infinita. Este princípio não prescreve, pois, a todos os seres racionais as mesmas regras práticas, embora estejam compreendidas sob um título comum, a saber, o de felicidade. A lei moral porém, só é pensada como objectivamente necessária porque deve valer para todos os que possuem razão e vontade.
A máxima do amor de si (a prudência) aconselha simplesmente; a lei da moralidade manda. Existe, no entanto, uma grande diferença entre o que se nos aconselha e aquilo a que somos obrigados.
Kant, Crítica da razão prática, tr. Artur Morão, Edições Setenta, Col. Grandes Filósofos, pp. 179, 180.

18/04/2009

Utilitarismo - diferença qualitativa de prazeres

Se me perguntarem o que entendo pela diferença qualitativa de prazeres, ou por aquilo que torna um prazer mais valioso do que outro, simplesmente enquanto prazer e não por ser maior em quantidade, só há uma resposta possível. De dois prazeres, se houver um ao qual todos ou quase todos aqueles que tiveram a experiência de ambos derem uma preferência decidida, independentemente de sentirem alguma obrigação moral para o preferir, então será esse o prazer mais desejável. (…)
Ora, é um facto inquestionável que aqueles que estão igualmente familiarizados com ambos, e que são igualmente capazes de os apreciar e de se deleitar com eles, dão uma preferência muitíssimo marcada ao modo de existência que emprega as suas faculdades superiores. Poucas criaturas humanas consentiriam ser transformadas em qualquer dos animais inferiores perante a promessa da plena fruição dos prazeres de uma besta, nenhum ser humano inteligente consentiria tornar-se tolo, nenhuma pessoa instruída se tornaria ignorante, nenhuma pessoa de sentimento e consciência se tornaria egoísta e vil, mesmo que a persuadissem de que o tolo, o asno e o velhaco estão mais satisfeitos com a sua sorte do que ela com a sua. Não abdicaria daquilo que possui a mais do que eles em troca da plena satisfação de todos os desejos que tem em comum com eles. (…)
É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o tolo ou o porco têm uma opinião diferente é porque só conhecem o seu próprio lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados.
Mill, Utilitarismo, tr. Pedro Galvão, Porto Editora, 2005, pp. 50,51.
Imagem: www.culturaebarbarie.org/quarentena/porco.jpg

17/04/2009

O que é um paradigma?


Um grupo de cientistas fechou 5 macacos numa jaula, colocou no centro uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jacto de água fria aos que estavam no chão. Depois de um certo tempo, sempre que um macaco tentava subir a escada, os outros enchiam-no de pancada. Passado mais algum tempo, já nenhum dos macacos subia a escada, apesar da tentação ser grande.
Então, os cientistas substituiram 1 dos 5 macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram.
Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo desistiu de tentar subir a escada.
Um segundo macaco foi substituído, e passou-se o mesmo, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, na surra do novato.
Um terceiro foi trocado, e a história repetiu-se.
Um quarto e, finalmente o último dos veteranos foi substituido.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de 5 macacos que, mesmo sem nunca ter tomado um banho frio, continuavam a bater nos que tentassem chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a um deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: “Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui…”



16/04/2009

Utilitarismo - o fundamento da moralidade

O credo que aceita a utilidade, ou o Princípio da Maior Felicidade, como fundamento da moralidade, defende que as acções estão certas na medida em que tendem a promover a felicidade, erradas na medida em que tendem a produzir o reverso da felicidade. Por felicidade, entende-se o prazer e a ausência de dor; por infelicidade, a dor e a privação de prazer. (…) Esta teoria da moralidade baseia-se na ideia de que o prazer e a isenção de dor são as únicas coisas desejáveis como fins, e de que todas as coisas desejáveis (…) são desejáveis ou pelo prazer inerente em si mesmas ou enquanto meios para a promoção do prazer e da prevenção da dor.
Mill, Utilitarismo, tr. Pedro Galvão, Porto Editora, 2005, p. 48. (Adaptado)
Imagem: http://filipspagnoli.files.wordpress.com/2008/07/john-stuart-mill1.jpg

12/04/2009

Herberto Hélder - Os passos em volta

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar‑se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia‑se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam‑se na observação dos factos e punham‑se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
Herberto Hélder, Os passos em volta, Assírio e Alvim
Foto: Nelson António - http://ipt.olhares.com/data/big/194/1943542.jpg

11/04/2009

A Alegoria da Caverna

Em vídeo, pode ser visto em diferentes versões disponíveis na internet: 1, 2, 3, 4.




O texto de Platão pode ser lido aqui.

10/04/2009

Comunidade científica

A comunidade científica, tal como Kuhn a descreve, é uma entidade social extremamente particular, mesmo única no seu género. Todas as características que a definem especificamente contribuem, como veremos, para tornar possível o funcionamento espantosamente eficaz do empreendimento científico. Um deles é a profunda unanimidade que, em tempo normal, reina entre os membros de uma mesma comunidade. É certo que estes se encontram dispersos através do mundo, mas nem por isso estão menos unidos por laços extremamente estreitos; lêem os mesmos jornais, feitos para e por eles e que são praticamente os únicos a consultar; têm o mesmo vocabulário e os mesmos interesses científicos; a sua educação vai muni-los de modelos e de critérios metodológicos comuns que determinam os problemas a resolver e as soluções admitidas pelo grupo.
Isabelle Stengers, «A descrição da actividade científica por T. S. Kuhn», in História e Prática das Ciências, A Regra do Jogo, Lisboa, 1979
Foto: http://www.stanstudio.com/index.htm

08/04/2009

Causalidade em David Hume

A tese fundamental de Hume é que a relação entre causa e efeito nunca pode ser conhecida a priori, isto é, com o puro raciocínio, mas apenas por experiência. Ninguém, posto frente a um objecto que para ele seja novo pode descobrir as suas causas e os seus efeitos, antes de os ter experimentado e apenas ter raciocionado sobre eles. (…)
Ora isto significa que a conexão entre causa e efeito, mesmo depois de ter sido descoberta por experiência, permanece privada de qualquer necessidade objectiva. (…)
Que o curso da natureza possa mudar, que os laços causais que a experiência nos testemunhou no passado possam não se verificar no futuro, é hipótese que não implica contradição e que por isso permanece sempre possível. Nem a contínua confirmação que a experiência faz, na maior parte dos casos, das conexões causais muda o caso: porque esta experiência diz sempre respeito ao passado, nunca ao futuro. Tudo aquilo que sabemos pela experiência é que, de causas que nos parecem semelhantes, esperamos efeitos semelhantes. Mas precisamente esta suposição não é justificada pela experiência: ela é antes o pressuposto da experiência, um pressuposto injustificável.
N. Abbagnano, História da Filosofia, Volume VII, Editorial Presença

07/04/2009

Saber é poder

Na obra Novum Organum – que já no título se contrapõe ao ‘velho’ Organon de Aristóteles –, Bacon critica os quatro ídolos responsáveis pelo insucesso da ciência.
Os ‘ídolos da tribo’ referem-se às imperfeições do intelecto, inerentes a toda ‘tribo’ humana, que levam os homens a acreditarem ingenuamente nos dados dos sentidos ou em aspectos da realidade que lhes são convenientes.
Os ‘ídolos da caverna’ correspondem à predisposição do intelecto de cada indivíduo, que, como os prisioneiros do ‘mito da caverna’ de Platão, toma o seu mundo particular por verdadeira realidade. Já os ‘ídolos do foro’ apontam para os problemas da comunicação entre os homens: as palavras são tidas como idênticas às coisas que designam e, além disso, raramente há um acordo sobre o que significam. Por fim, os ‘ídolos do teatro’ indicam as doutrinas filosóficas que, como o teatro, não passam de invencionices especulativas.
Contra esses ídolos, Bacon propõe o método experimental. Não qualquer experiência, pois isso sempre foi feito, mas experiências conduzidas por um rigoroso método. Por exemplo, o fenómeno do calor: para estudá-lo é preciso que se elabore uma tabela exaustiva, descrevendo as várias circunstâncias em que ele se verifica (a incidência dos raios solares, o sangue no corpo, etc.). Mas isso não basta. A investigação também requer o exame dos casos em que o fenómeno não ocorre (raios da Lua, sangue em cadáveres, etc.). Por fim, deve-se comparar os casos de ocorrência e de não-ocorrência do calor, para estabelecer as relações possíveis entre ambos. O exame minucioso de vários casos particulares e da relação entre eles permite formular uma conclusão geral, que é o conhecimento: tal procedimento denomina-se indução.

Toda essa cuidadosa investigação sobre os fenómenos e as circunstâncias em que ocorrem não se destina apenas ao aprimoramento do conhecimento. Para Bacon, experiência é antes de tudo a possibilidade de utilizar as forças da natureza para o proveito do homem. Conhecer as condições de ocorrência de um fenómeno é então conhecer as possibilidades da sua manipulação. Nessa medida, a instauração de um novo espírito científico, com o seu método rigoroso, é a tentativa de fazer com que a Nova Atlântida deixe de ser utopia, um mero sonho de nenhum lugar. O desenvolvimento posterior da ciência, embora nem sempre favorável ao homem, iria provar que a famosa expressão de Bacon tinha, de certo modo, fundamento: ‘Saber é poder’.


AA.VV., História do Pensamento, Volume 2,
Editora Nova Cultural, pp. 275-276.

06/04/2009

O conhecimento segundo Bacon

Na obra Novum Organum – que já no título se contrapõe ao ‘velho’ Organon de Aristóteles –, Bacon critica os quatro ídolos responsáveis pelo insucesso da ciência. Os ‘ídolos da tribo’ referem-se às imperfeições do intelecto, inerentes a toda ‘tribo’ humana, que levam os homens a acreditarem ingenuamente nos dados dos sentidos ou em aspectos da realidade que lhes são convenientes. Os ‘ídolos da caverna’ correspondem à predisposição do intelecto de cada indivíduo, que, como os prisioneiros do ‘mito da caverna’ de Platão, toma o seu mundo particular por verdadeira realidade. Já os ‘ídolos do foro’ apontam para os problemas da comunicação entre os homens: as palavras são tidas como idênticas às coisas que designam e, além disso, raramente há um acordo sobre o que significam. Por fim, os ‘ídolos do teatro’ indicam as doutrinas filosóficas que, como o teatro, não passam de invencionices especulativas.
Contra esses ídolos, Bacon propõe o método experimental. Não qualquer experiência, pois isso sempre foi feito, mas experiências conduzidas por um rigoroso método. Por exemplo, o fenómeno do calor: para estudá-lo é preciso que se elabore uma tabela exaustiva, descrevendo as várias circunstâncias em que ele se verifica (a incidência dos raios solares, o sangue no corpo, etc.). Mas isso não basta. A investigação também requer o exame dos casos em que o fenómeno não ocorre (raios da Lua, sangue em cadáveres, etc.). Por fim, deve-se comparar os casos de ocorrência e de não-ocorrência do calor, para estabelecer as relações possíveis entre ambos. O exame minucioso de vários casos particulares e da relação entre eles permite formular uma conclusão geral, que é o conhecimento: tal procedimento denomina-se indução.
Toda essa cuidadosa investigação sobre os fenómenos e as circunstâncias em que ocorrem não se destina apenas ao aprimoramento do conhecimento. Para Bacon, experiência é antes de tudo a possibilidade de utilizar as forças da natureza para o proveito do homem. Conhecer as condições de ocorrência de um fenómeno é então conhecer as possibilidades da sua manipulação. Nessa medida, a instauração de um novo espírito científico, com o seu método rigoroso, é a tentativa de fazer com que a Nova Atlântida deixe de ser utopia, um mero sonho de nenhum lugar. O desenvolvimento posterior da ciência, embora nem sempre favorável ao homem, iria provar que a famosa expressão de Bacon tinha, de certo modo, fundamento: ‘Saber é poder’.
AA.VV., História do Pensamento, Volume 2,Editora Nova Cultural

05/04/2009

A mente não é uma "tabula rasa"

Vinculada à teoria da indução, encontramos outra ideia segundo a qual a mente do investigador deve carecer de supostos prévios, de hipóteses, de suspeitas e de problemas. Em definitivo, deve ser uma tabula rasa na qual mais tarde se reflecte o
livro da natureza. Popper chama ‘observacionismo’ a esta noção e considera-a um mito. O observacionismo é um mito filosófico porque na realidade nós somos uma tabula plena, uma superfície cheia de sinais que a tradição ou a evolução cultural nela deixou. A observação está sempre orientada por expectativas teóricas (…). Segundo Popper, a mente sem juízos prévios não é uma mente pura, mas apenas uma mente vazia. Operamos sempre mediante teorias, ainda que frequentemente não tenhamos consciência disso. ‘A observação pura, a observação carente de uma componente teórica, não existe. Todas as observações – e em especial todas as observações experimentais – são observações de factos realizadas à luz desta ou daquela teoria.’ Com esta perspectiva, Popper inverte a postura daqueles que defenderam que a observação deve preceder todas as expectativas (ou hipóteses) e todos os problemas, afirmando mesmo que ‘todo o animal nasce com numerosas expectativas, geralmente inconscientes, ou, por outras palavras, se encontra dotado desde o nascimento de algo que corresponde muito proximamente às hipóteses e, portanto, ao conhecimento hipotético. Afirmo que temos sempre um conhecimento inato – inato neste sentido – do qual partimos, ainda que bem possa acontecer que não

nos possamos em absoluto fiar nele. Tal conhecimento inato, tais expectativas inatas, se se vêem defraudadas, originarão os nossos primeiros problemas, e o aumento do conhecimento que daí advém pode ser descrito como um aumento que consiste unicamente em correlações e modificações do conhecimento anterior’.



 G. Reale e D. Antiseri, Historia del Pensamiento Filosófico e Científico, Tomo Tercero,
Editorial Herder, Barcelona, 1992, pp. 892-893

04/04/2009

O que é a ciência?


A ciência não é apenas uma colecção de leis, um catálogo de factos não relacionados. É uma criação do espírito humano, com ideias e conceitos livremente inventados. As teorias físicas experimentam traçar um quadro da realidade e estabelecer liames com o nosso mundo de impressões. Assim, a única justificativa para as nossas estruturas mentais está em que as nossas teorias formem esses elos. (…)
A realidade criada pela Física moderna está realmente muito afastada da realidade dos tempos antigos. Mas o objectivo de cada teoria física permanece o mesmo. Com a ajuda das teorias físicas, experimentamos encontrar caminho através do nevoeiro dos factos observados, de modo a ordenar e compreender o mundo das nossas impressões sensoriais. Queremos que os factos observados decorram logicamente do nosso conceito da realidade. Sem a fé na possibilidade de apreender a realidade por meio das nossas construções teóricas, sem a fé na harmonia do nosso mundo, é impossível a ciência. Esta fé é, e permanecerá sempre, o motivo fundamental de todas as criações científicas. Através de todos os nossos esforços e em cada luta entre as ideias novas e as velhas, percebemos o eterno anseio pela compreensão, a inabalável fé na harmonia do mundo, continuamente fortificada pelos obstáculos que cada vez mais se erguem ante a nossa compreensão.
Albert Einstein e Leopold Infeld, A Evolução da Física, Livros do Brasil, Lisboa

03/04/2009

O indutivismo de Bacon

Na obra Novum Organum – que já no título se contrapõe ao ‘velho’ Organon de Aristóteles –, Bacon critica os quatro ídolos responsáveis pelo insucesso da ciência. Os ‘ídolos da tribo’ referem-se às imperfeições do intelecto, inerentes a toda ‘tribo’ humana, que levam os homens a acreditarem ingenuamente nos dados dos sentidos ou em aspectos da realidade que lhes são convenientes.

Os ‘ídolos da caverna’ correspondem à predisposição do intelecto de cada indivíduo, que, como os prisioneiros do ‘mito da caverna’ de Platão, toma o seu mundo particular por verdadeira realidade. Já os ‘ídolos do foro’ apontam para os problemas da comunicação entre os homens: as palavras são tidas como idênticas às coisas que designam e, além disso, raramente há um acordo sobre o que significam. Por fim, os ‘ídolos do teatro’ indicam as doutrinas filosóficas que, como o teatro, não passam de invencionices especulativas.

Contra esses ídolos, Bacon propõe o método experimental. Não qualquer experiência, pois isso sempre foi feito, mas experiências conduzidas por um rigoroso método. Por exemplo, o fenómeno do calor: para estudá-lo é preciso que se elabore uma tabela exaustiva, escrevendo as várias circunstâncias em que ele se verifica (a incidência dos raios solares, o sangue no corpo, etc.). Mas isso não basta. A investigação também requer o exame dos casos em que o fenómeno não ocorre (raios da Lua, sangue em cadáveres, etc.). Por fim, deve-se comparar os casos de ocorrência e de não-ocorrência do calor, para estabelecer as relações possíveis entre ambos. O exame minucioso de vários casos particulares e da relação entre eles permite formular uma conclusão geral, que é o conhecimento: tal procedimento denomina-se indução.

Toda essa cuidadosa investigação sobre os fenómenos e as circunstâncias em que ocorrem não se destina apenas ao aprimoramento do conhecimento. Para Bacon, a experiência é antes de tudo a possibilidade de utilizar as forças da natureza para o proveito do homem. Conhecer as condições de ocorrência de um fenómeno é então conhecer as possibilidades da sua manipulação. Nessa medida, a instauração de um novo espírito científico, com o seu método rigoroso, é a tentativa de fazer com que a Nova Atlântida deixe de ser utopia, um mero sonho de nenhum lugar. O desenvolvimento posterior da ciência, embora nem sempre favorável ao homem, iria provar que a famosa expressão de Bacon tinha, de certo modo, fundamento: ‘Saber é poder’.

AA.VV., História do Pensamento, Volume 2, Editora Nova Cult

02/04/2009

Sofistas e democracia

Mas são as instituições democráticas que permitirão o progresso da sofística, tornando-a, de alguma maneira, indispensável: a conquista do poder exige, de agora em diante, o perfeito domínio da linguagem e da argumentação: não se trata apenas de ordenar, há também que persuadir e explicar. É por isso que os sofistas, como nota Jaeger, que saíram todos da classe média, foram, de uma maneira geral, mais favoráveis, parece, ao regime democrático. É claro que os seus alunos mais brilhantes foram aristocratas, mas foi porque a democracia escolheu, frequentemente, os seus chefes entre os aristocratas, e os jovens nobres que frequentavam os sofistas foram os que aceitaram submeter-se às regras das instituições democráticas: os outros desinteressavam-se da vida política.
Por outro lado, os sofistas foram profissionais do saber; os primeiros que fizeram da ciência e do ensino o seu ofício e meio de subsistência; neste sentido, inauguram o estatuto social do intelectual moderno. Parece terem-se interessado por todos os ramos do saber, da gramática à Matemática, mas estes filómates não procuravam a transmissão de um saber teórico: visavam a formação política de cidadãos escolhidos.
G. Romeyer-Dherbey, Os Sofistas, Edições 70

01/04/2009

O que é uma teoria científica?

Uma teoria só poderá ser declarada científica ou, então, empírica se não der ocasião à refutação, se se imunizar de antemão contra a experiência crucial. A dignidade concedida à ‘refutação’ em detrimento da ‘verificação’ provoca várias consequências:

– Uma teoria com pretensão científica deve, em primeiro lugar, satisfazer uma condição de testabilidade. Será considerada ‘testável’ a partir do momento em que se possam inferir de forma dedutiva um ou vários predicados que, em virtude de algumas condições chamadas iniciais, poderão ser confrontados com factos e submetidos a testes severos e acessíveis.

– O critério popperiano deve, em segundo lugar, ser entendido como uma regra de ‘preferência’ e não como uma regra de ‘justificação’. O homem de ciência nunca pode ‘fundar’ positivamente uma asserção geral, mas é-lhe lícito, em contrapartida, ‘preferir’ uma asserção a outra se defrontar mais eficazmente a prova da experiência.

– Finalmente, uma teoria nunca é mais do que uma hipótese, uma ‘tentativa’ que tem em vista compreender o mundo, nunca pode ser ‘verificada’, mas pode, em contrapartida, ser ‘corroborada’. Será considerada corroborada uma teoria que, até então, tenha resistido com êxito aos testes mais severos e não tenha sido substituída com vantagem por uma teoria rival. Mas, cuidado, a ‘corroboração’ popperiana não é de forma alguma um sucedâneo da ‘confirmação’ carnapiana; uma hipótese corroborada é uma hipótese aceite provisoriamente pela comunidade científica, mas cujo destino natural é ser, um dia, desmembrada pela superveniência de novos factos.

No fundo, para Popper, as teorias mais válidas nunca são teorias verdadeiras, mas apenas teorias que ainda não são falsas.»